Analista descartou o que estão chamando de “revolução de direita”, atribuiu ao alto índice de abstenção a pequena dianteira do bolsonarista e falou das tarefas para o presidente ganhar no 2º turno
Antonio Lavareda, reconhecido analista de pesquisas eleitorais, avaliou que a pequena dianteira do candidato Flávio Bolsonaro sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no 1º turno do pleito não representa uma “revolução de direita” no voto para presidente.
Lavareda identificou pequenos deslocamentos do eleitorado em relação a 2022 que foram suficientes para resultar nessa dianteira do candidato da extrema-direita.
“Aqueles que interpretam que houve uma grande revolução de direita podem usar outros parâmetros, mas o voto presidencial não mostra isso”, afirmou em entrevista ao Estadão.
O analista acrescentou, ainda, que o elevado índice de abstenção dos eleitores pode explicar a vantagem de Lula registrada em várias pesquisas às vésperas da votação, o que não se confirmou nas urnas.
Ainda segundo Lavareda, a maioria dos que deixaram de votar declaravam preferência por Lula, mas, diante da abstenção, o resultado inverteu-se, sendo que Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos e Lula 45,16%.
Embora considere uma tarefa difícil, Lavareda avalia que é possível uma virada de Lula no 2º turno previsto para o dia 25 de outubro, que exigiria pelos movimentos em três frentes: recuperar parte dos eleitores que se abstiveram, disputar os votos das candidaturas eliminadas, em sua maioria, segundo ele, de perfil conservador, e avançar inclusive sobre quem escolheu Flávio no primeiro turno, especialmente sobre o eleitor que votou sem muitas informações sobre os 2 candidatos.
Lavareda também atribuiu o resultado ao fato “do governo Lula deixar passar, desde 2024, incólume a percepção da maioria da opinião pública de que a economia do País seguia no rumo errado. Várias pesquisas detectaram isso. O governo Lula não enfrentou essa questão, não desenvolveu uma narrativa cogente, para dar conta dessa questão”.
O analista também avaliou o avanço do PL no Legislativo, principalmente no Senado. Segundo ele, o partido colheu os frutos de uma campanha sistemática contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e em torno da defesa do impeachment de ministros.
Na sequência, os principais trechos da entrevista:
O PAPEL DA ABSTENÇÃO NO RESULTADO
“O que me surpreendeu menos foi o voto presidencial. Eu já imaginava e já tinha comentado dois, três, quatro dias antes da eleição, que não me surpreenderia. Eu dizia que a chance de Lula vir em primeiro lugar era de 60%, mas havia 40% de chance de Flávio aparecer em primeiro lugar”.
“Por quê? Porque a distância era muito estreita e a abstenção, supunha, iria comer parcela bastante razoável, substancial, dos votos do presidente Lula, tal como havia ocorrido em 2022”.
“Pois bem, é o que nós tivemos nas urnas. É exatamente isso que explica por que o resultado das pesquisas não foi confirmado. Foi, mais uma vez, a abstenção, que é muito difícil de detectar nas pesquisas, porque o voto é obrigatório e a declaração de que as pessoas vão se abster é socialmente ilegítima. Então, isso não me surpreendeu”.
“Há erros da campanha, mas erros do governo. O incumbente, quando perde a eleição, dificilmente é apenas por conta da comunicação da campanha. A comunicação do governo é mais importante até do que a comunicação da campanha, no caso do incumbente”.
“Ainda assim, a diferença de Lula 2026 para Lula 2022 foi reduzida. Aqueles que interpretam que houve uma grande revolução de direita podem usar outros parâmetros, mas o voto presidencial não mostra isso. Flávio teve apenas 2,7 pontos sobre o eleitorado total a mais que seu pai quatro anos atrás, e Lula declinou 2,66 pontos em relação à votação que teve quatro anos atrás. Ou seja, são pequenas quantidades, mas que têm efeitos políticos notáveis, como vimos ontem”.
FALTA DE PERCEPÇÃO DO RUMO ERRADO DA ECONOMIA
“Minha experiência diz que o governo Lula deixou passar, desde 2024, incólume a percepção da maioria da opinião pública de que a economia do País seguia no rumo errado. Várias pesquisas detectaram isso. O governo Lula não enfrentou essa questão, não desenvolveu uma narrativa cogente, para dar conta dessa questão. Quando chega a campanha eleitoral, uma parte importante da população que via o País indo na direção errada e, como tal, reclamando por mudança, foi atraída com relativa facilidade pelo discurso de mudança, de transformação, do candidato oposicionista”.
“A literatura diz que o que preocupa mais o eleitor, o que influencia mais seu voto, é a percepção sobre o rumo do País. Ou seja, esse eleitor sociotrópico. E como é que ele formula a sua convicção sobre o rumo do País? A maior parte do eleitorado é de baixa renda, baixa escolaridade. Pelo que ele ouve no noticiário etc. Então, “o País está endividado”, “nunca o Brasil esteve tão endividado”, “nunca as pessoas estiveram tão endividadas”.
“Ou seja, o noticiário, que é frequentemente, predominantemente negativo sobre a economia do País, acaba impregnando a avaliação de cada um desses indivíduos. É interessante notar uma discrepância que as pesquisas apontam entre a avaliação da situação financeira e familiar dos indivíduos e a avaliação que eles fazem do nacional, do caminho do País”.
“No caso pessoal, embora seja verdade que as pessoas estão machucadas pelos juros, pelo baixo poder aquisitivo, pelo endividamento, a percepção da sua própria condição de vida é bem melhor, bem superior à percepção sobre a situação do País. O governo não fez, não discutiu essa narrativa”.
TAREFAS PARA O SEGUNDO TURNO
“Um candidato, um incumbente como Lula, que sai em segunda colocação, tem que cumprir algumas tarefas. Tem que tentar recobrar um pouco o voto, a participação de eleitores dele que se abstiveram no primeiro turno. Sem sombra de dúvidas, é absolutamente legítimo supormos que a maior parte, a parte predominante dessa abstenção, é de eleitores de Lula”.
“Lula, então, precisa resgatar parte desses eleitores. Precisa disputar o voto daquele contingente que apoiou outros candidatos. É muito difícil ele conseguir uma maioria, porque, obviamente, eram candidatos conservadores e, como tal, seus eleitores, na maior parte dos casos, também são conservadores”.
“E, terceiro, ele precisa mais. Ele precisa até conquistar votos do próprio Flávio Bolsonaro. É possível isso? Pode parecer impossível. Mas Lula conseguiu fazer isso em 2006. Em 2006, no segundo turno, Geraldo Alckmin teve 2,5% dos votos válidos a menos no segundo turno. Então, são três tarefas e é a esse esforço que a campanha deve se endereçar. As chances não são as maiores, mas, de fato, também não se pode dizer que não existam”.
RESULTADO NO LEGISLATIVO
“A votação maciça do PL para o Senado, que aliás já estava mais ou menos estampada em algumas pesquisas, não com aquela intensidade, se deu por um alinhamento entre o voto nacional e o voto local, o voto do Senado. O PL entregou ao eleitor uma compreensão sobre o papel do Senado”.
“As pesquisas qualitativas e quantitativas mostram que os eleitores não sabem exatamente discernir o que fazem os deputados federais e o que fazem os senadores. O PL tornou inteligível o papel de um senador. Que papel era esse, de imediato? Era fazer uma limpeza no Supremo, “impeachar” ministros do Supremo. Então, a partir dos escândalos recentes envolvendo o nome do Supremo, essa onda levou à votação maciça de candidatos bolsonaristas para o Senado”.











