Com apoio da “Justiça” e da polícia, fundo abutre entrou com ação de despejo contra Maricarmen Abascal idosa de 87 anos – que havia vivido sete décadas pagando aluguel em Madri. Oposição de direita, barra medidas de enfrentamento à especulação imobiliária
Maricarmen Abascal não voltou para casa, como era seu último desejo, e morreu – após ser retirada do lar pela polícia, aos 87 anos – com 50% de deficiência reconhecida oficialmente – no Hospital Gregorio Marañón, nesta quarta-feira (7), em Madri, depois de mais de quinze dias internada.
“Antes eu andava, e agora não ando mais. As pernas não funcionam, os braços não respondem. Têm que me tirar da cama e me colocar de volta nela. Deveriam me deixar viver na minha casa com as minhas lembranças. Temos direitos, e o meu direito é ficar aqui. E, se for preciso mudar as leis, que façam alguma coisa”, repetia com firmeza.
No 23 de setembro, cumprindo ordem judicial em favor dos proprietários e do fundo abutre Urbagestión, policiais entraram à força no apartamento em que vivia desde 1956, quando chegou aos 17 anos. Para romper a barreira de resistência mantida na porta e nas escadarias por ativistas do Sindicato dos Inquilinos, faltou juízo, mas sobraram gás lacrimogêneo e cassetetes.
Nos setenta anos de convivência com os vizinhos no bairro do Retiro, Maricarmen transbordava empatia e determinação, mas foi retirada de forma desumana numa maca de hospital.
Como denunciou o Sindicato dos Inquilinos de Madri, “a conta não fechava para quem vivia de aposentadoria”. O aluguel de 500 euros foi elevado a 2.650, depois reduzido a 1.650, ainda acima dos 1.350 euros da sua pensão. Tamanho aumento, assinalaram, “só pode ser lido como expulsão”. Sua advogada sustentou que ela nunca deixou de pagar o aluguel e jamais se recusou a fazê-lo. A idosa chegou a vencer em primeira instância, mas a sentença foi revertida na apelação e a “Justiça” acabou dando razão à proprietária. A lei trabalhou para o fundo abutre que compra ativos baratos para lucrar agressivamente com especulação.
Apesar disso, Maricarmen resistiu. O despejo foi a quarta tentativa. As três anteriores foram barradas por vizinhos e ativistas. Mesmo assim, a repressão pôs abaixo uma porta e a idosa foi retirada, exausta e com a ansiedade nas alturas, sem nem ao menos poder recolher os pertences reunidos ao longo da vida.
POPULAÇÃO TOMA AS RUAS EM SOLIDARIEDADE À IDOSA
A reação diante do abuso foi imediata, e dezenas de milhares de pessoas tomaram as ruas de toda a Espanha, com uma multidão acampando na Puerta del Sol, em Madri. Nas faixas e cartazes, o compromisso e a advertência: “Tu poderias ser a próxima Maricarmen”. Para os manifestantes, a história de Maricarmen “marca um antes e um depois na história deste país”.
Antes de falecer, a senhora agradeceu a vastidão do apoio recebido e apesar de não terem conseguido salvar sua moradia, pediu que continuassem lutando. Em um vídeo, falou sobre o que lhe aconteceu, solicitando que servisse para que outros, e suas famílias, não passassem pelas mesmas dificuldades. Foram suas últimas palavras públicas. Pensando na coletividade, deixou um exemplo para quem permanece – e resiste.
JUSTIÇA AGIU TARDE DEMAIS
No dia 28 de setembro, a advogada anunciou um acordo com os proprietários que permitiria a Maricarmen regressar ao apartamento quando deixasse o hospital. “Embora tenha sido alcançado um acordo histórico que lhe permitiria voltar à sua moradia, essa solução chegou tarde demais”, apontou o Sindicato dos Inquilinos, referindo-se ao pacto firmado com o fundo abutre Urbagestión, com a intermediação da prefeitura de Madri, para que ela pudesse retornar à casa após receber alta hospitalar e ali terminar seus dias. Seus dois sonhos, segundo ela mesma dizia, eram morrer em seu lar e voltar a ver o Mar Cantábrico.
“O custo para chegar até aqui foi alto demais” e “hoje a especulação imobiliária acabou de matar a nossa companheira”, condenou o Sindicato dos Inquilinos, que comandou em sua memória um minuto de silêncio.
ESPANHA PRESTA HOMENAGENS E PRESSIONA POR JUSTIÇA
Na madrugada seguinte à morte, a Puerta del Sol lembrou da sua imagem e determinação com silêncio, velas, faixas e cartazes, e a entrada do prédio de onde foi despejada também se cobriu de homenagens, com flores em abundância, uma verdadeira primavera, no local onde antes havia uma fúnebre ordem de despejo.
O governo prepara o chamado “decreto Maricarmen” para alterar os contratos de aluguel e impor restrições a certos despejos. Uma vez aprovado, será a única reparação possível, e obviamente tarde demais para ela. Cada casa que um decreto salvar deve levar o nome de Maricarmen.
Muito além de um caso isolado, o caso expõe as vísceras de um sistema falido que torna o valor de um imóvel superior ao da vida, da saúde e das décadas de uma moradora.
O chefe de governo, Pedro Sánchez, lamentou sua morte, manifestando “todo o carinho à família e aos entes queridos de Maricarmen”. “Um abraço também a todos nós que hoje sentimos essa perda como se fosse nossa. Descanse em paz”, disse, comprometendo-se a lutar pela aprovação de um decreto para proteger as pessoas vulneráveis contra a especulação imobiliária, evitando que a moradia se torne um negócio. “O decreto levará seu nome”, reiterou.
UMA TRAJETÓRIA DE RESISTÊNCIA
Maricarmen nasceu em Madri, em 1938, em plena Guerra Civil. Aos 17 anos, mudou-se com os pais para a casa no bairro do Retiro onde passou sete décadas da sua vida. Seu pai havia assinado um contrato de aluguel sob a legislação da época, que lhes garantia, por tempo indeterminado, o valor do aluguel e o direito de morar no imóvel. Mesmo após a morte do pai, em 1960, o contrato permaneceu em vigor, pois sua mãe assumiu a titularidade dele. Assim, as duas viveram juntas até 2005, quando sua mãe faleceu e ela pôde, novamente, assumir o contrato.
Maricarmen estudou taquigrafia, datilografia e secretariado, o que lhe permitiu trabalhar desde jovem no conselho de administração de uma empresa farmacêutica, até se aposentar em 1998.
A pensão que recebia era de 1.350 euros por mês, dos quais destinava 500 euros ao pagamento do aluguel. Porém, em 2020, a justiça determinou que seu contrato havia terminado, visto que já havia sido transferido de titularidade duas vezes, e impôs um aumento de mais de cinco vezes no valor do aluguel, chegando a 2.650 euros. Após negociar com os proprietários, o valor foi reduzido para 1.650 euros, mas ainda superava a pensão de Maricarmen. Após vários anos de batalha judicial, os tribunais deram razão aos novos proprietários e ordenaram seu despejo.
A última imagem dela foi na cama do hospital, enviando mensagens de apoio ao movimento que a transformou em símbolo, com palavras como: “Gostaria de estar aí com vocês, acompanhá-los no acampamento, na luta, mas não tenho essa sorte. Por isso, daqui peço coragem a todos. Lutem, defendam o que é de vocês e, por favor, tenham cuidado. Continuem acampados enquanto o corpo aguentar”.
O primeiro vice-presidente, Carlos Cuerpo, fez um pronunciamento dizendo que “há notícias que deixam um nó no estômago”. A líder do Podemos, Irene Montero, acrescentou que “não é uma morte, é um assassinato. Que raiva maldita”. O porta-voz da Esquerra Republicana de Catalunha (ERC) no Congresso, Gabriel Rufián, foi curto e grosso: “Que filhos da puta”.
De acordo com a ministra da Saúde, Mónica García, “a luta de Maricarmen despertou consciências em toda a Espanha e acendeu um pavio que não vai mais se apagar. Sua dignidade e coragem apontam o caminho”. A ministra da Igualdade, Ana Redondo, agradeceu-lhe por “sua coragem e dignidade”.
“O sofrimento de Maricarmen não pode se repetir. Sua luta contra a injustiça e a especulação não será em vão. Descanse em paz”, manifestou-se o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE).
Por volta das dez da noite, após o minuto de silêncio, um grupo de manifestantes acampados na Puerta del Sol foi em marcha até as portas do Congresso para expressar sua revolta, gritando “assassinos, assassinos” aos deputados de direita e extrema direita que, na sexta-feira (2), haviam rejeitado, de forma vil, os decretos habitacionais que impediam os despejos de pessoas vulneráveis como Maricarmen.
Horas antes de a morte ser anunciada, as Comissões Operárias e a União Geral de Trabalhadores informaram que a greve geral que ocorrerá em 11 de novembro terá como uma das suas principais bandeiras a luta por moradia digna.
PALAVRAS DE RESISTÊNCIA E ESTÍMULO PELA VIDA
“Você já me viu? Antes eu andava, e agora não ando mais. As pernas não obedecem, os braços não respondem. Têm que me tirar da cama e me colocar de volta nela”, expressou em uma reportagem, em que se dizia sentir-se menos ela mesma, mais fraca e debilitada. Seu corpo já não respondia como antes: “Estou pagando o preço pelos sete anos de processos judiciais por causa da minha casa. Foi isso que tudo isso me trouxe”. Essa era a doença que não a deixava dormir tranquila: a incerteza, a preocupação constante de que aquele despejo pudesse ser o definitivo. E foi.
Maricarmen reiterava a necessidade de o governo aprovar um decreto permitindo contratos de aluguel por tempo indeterminado. “Há muitos despejos e, para que pessoas idosas como eu possamos descansar em paz em nossas casas, isso poderia ajudar”, defendia. Hospitalizada, viu pela televisão os deputados rejeitarem – com os votos contrários do PP, do ultradireitista Vox e do Junts – justamente um decreto que propunha o que ela pedia.
Dois dias antes de partir assegurou: “O que tiver de ser, será. Esta é a última cartada”. “Não me restam mais jogadas. O que me resta de bom são as pessoas e, por isso, peço àqueles que me acompanham que continuem lutando. Mesmo que me considerem a primeira vela a iluminar este campo, que continuem jogando para vencer, sempre cuidando de seus lares. Que lutem, pois a vida é feita de luta”, concluiu.











