Economista critica cortes de R$ 300 bilhões nos gastos públicos: “Quando o Estado gasta menos, as famílias e as empresas recebem menos, logo, as famílias vão consumir menos, as empresas vão investir menos e a arrecadação vai cair”
O “tesouraço” anunciado de cerca de R$ 300 bilhões nos gastos públicos anunciados pela campanha de Flávio Bolsonaro levará o Brasil à recessão, segundo a economista Denise Gentil, professora e colaboradora do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Em entrevista ao Portal da Central Única dos Trabalhadores (CUT), a economista alerta para os efeitos deletérios dos objetivos de Flávio Bolsonaro, com sérios prejuízos sobre emprego, renda, consumo, serviços públicos, investimentos e para o crescimento da economia brasileira.
A coordenadora econômica da campanha de Flávio, Daniella Marques, já afirmou que pretende um ajuste equivalente a 1,5% do PIB (R$ 190 bilhões). Circula também que a equipe já trabalha com uma proposta de corte de cerca de R$ 300 bilhões em uma eventual “PEC da Transição”.
“Numa situação em que você corta R$ 300 bilhões de gastos públicos federais, você não economiza R$ 300 bilhões. Você retira da economia algo em torno de R$ 450 bilhões a R$ 500 bilhões de demanda”, afirma Denise Gentil. “Quando o Estado gasta menos, as famílias e as empresas recebem menos, logo, as famílias vão consumir menos, as empresas vão investir menos e a arrecadação vai cair”.
“O PIB vai diminuir, exatamente porque as famílias vão consumir menos e porque as empresas vão investir menos”, enfatiza Denise. “Logo, o PIB caindo, reduz o denominador da relação dívida/PIB enquanto o numerador se eleva em função da queda da receita do governo”. Ou seja, em vez de reduzir a relação dívida/PIB, a política de austeridade vai elevar esse indicador, demonstra a professora.
Flávio visa implantar uma política neoliberal radical, cujo foco é o arrocho fiscal, com cruel cortes nas despesas sociais do governo, rasgando a Constituição brasileira, com o fim de acabar com conquistas históricas como os atuais percentuais mínimos obrigatórios para Saúde e Educação.
Em paralelo a esse “tesouraço” concorre a ideia de uma nova regra para controlar as despesas de acordo com a trajetória da dívida pública, deixando explícito a finalidade desses cortes para dispor recursos para pagamento dos juros abusivos aos bancos e rentistas em geral sobre a dívida pública.
A proposta de estabelecer um mecanismo que reduza ainda mais as despesas à medida que a dívida pública aumenta mereceu uma crítica categórica da economista. Pelo que circula na imprensa, o crescimento real dos gastos federais ser zero se a dívida bruta do governo ultrapassar 80% do Produto Interno Bruto (PIB), significaria, na verdade um congelamento dos gastos públicos, em termos reais.
“Essa regra que eles estão propondo, de cortar ou congelar o gasto real, é exatamente a recessão e a recessão faz a dívida subir mais”, alerta Denise Gentil.
“O equilíbrio fiscal não pode ser tratado como um fim em si mesmo. O gasto público deve ser avaliado por seu efeito sobre a demanda e, sobretudo, sobre a capacidade produtiva: ao ampliar emprego, renda e consumo, pode induzir investimento privado, elevar a arrecadação e ampliar o próprio produto, reduzindo a relação dívida/PIB. A austeridade produz o efeito inverso, tornando o equilíbrio fiscal uma meta que, paradoxalmente, dificulta sua própria obtenção”, afirma.
“Para estimular o investimento privado, o Estado tem que gastar antes. Criar renda e demanda, para depois o investimento privado reagir. O investimento privado precisa ser induzido pelo gasto público”, destaca Denise.
Além disso, não há garantia de que os detentores da dívida considerem os cortes suficientes, alerta.
“O problema é que o governo, ao tentar conquistar a confiança do mercado pela austeridade, corre o risco de não ter nem a confiança plena do mercado — que sempre pode exigir mais ajuste fiscal e nunca se convencer com o superávit que o governo entrega — e nem conquistar o apoio popular, porque sua base política não perceberá benefícios materiais vindos do sacrifício fiscal”.
A campanha de Flávio faz referências a política desastrosa de cortes de gastos levada a efeito pelo governo Milei na Argentina, que gerou a falência de milhares de empresas, destruição da indústria, aumento do desemprego e da informalidade, que levam a população à fome, à pobreza e à indigência.
“O que a Daniella Marques e o Adolfo Sachsida [economistas da campanha de Flávio] estão propondo, se for empregado para o Brasil, será um desastre econômico. É incabível associar a situação da Argentina com a situação do Brasil. É uma ameaça para nós”, critica a economista.
Dados da Universidade Nacional de Buenos Aires (UBA) mostram que, entre novembro de 2023, logo no início do seu governo, e abril de 2026, o salário mínimo, na Argentina, perdeu 39,3% do seu poder real de compra.
Pesquisa do Instituto Nacional de Estadística e Censos da Argentina (Indec), órgão oficial de estatísticas do país, indica que a Argentina tem 32,3% da população em situação de pobreza no primeiro semestre deste ano, ou 4,1 pontos percentuais acima da pesquisa anterior. A população argentina é de aproximadamente 46 milhões de pessoas. Entre as famílias, o percentual na pobreza é 24,4% do total ou 2,5 milhões delas.
Estes, entre outros indicadores, demonstram, em definito, que a política fiscal contracionista não é sustentável, e médio prazo tende a levar o país a uma estagflação, o pior dos cenários, com inflação alta, taxas de juros idem e economia andando para trás.











