Governo de Milei reduz em 53% a concessão de aposentadorias na Argentina

Milei já reduziu em 53% o número de novos aposentados, enquanto a perda dos idosos já supera 21% dos proventos desde que assumiu o goverrno

A Administração Nacional da Seguridade Social (Anses) concedeu 99.673 aposentadorias no primeiro semestre de 2026, 45% menos que em igual período de 2025 e 53% menos que em 2024. Conforme a Subsecretaria de Seguridade Social, nos seis primeiros meses de 2024 foram 213.970 benefícios, contra 181.549 de 2025.

A causa principal da tragédia é o vencimento do plano de moratória previdenciária e a decisão do governo de Javier Milei de não renová-lo, a fim de ampliar os repasses ao capital especulativo. O mecanismo de justiça social – antes vigente – permitia que pessoas que atingiam a idade mínima para aposentadoria, mas não contavam com os 30 anos de contribuição obrigatória, regularizassem sua situação para poder acessar o tão importante – e necessário – benefício.

O capítulo da Lei 27.705 que permitia a quem já tinha idade para se aposentar completar contribuições faltantes venceu em março de 2025 e não foi prorrogado por Milei. O efeito aparece evidente na composição das concessões: em 2023, 81% das novas aposentadorias foram com moratória; agora, 57% são de quem reuniu os 30 anos de contribuição exigidos. A queda veio progressivamente: foram 484.871 concessões em 2023, 424.834 em 2024 e 337.608 em 2025.

Atendendo as exigências draconianas do Fundo Monetário Internacional (FMI), o governo ultraneoliberal vetou, em agosto de 2025, o reajuste das aposentadorias, a volta da moratória e a emergência em deficiência. Descaradamente, a Casa Rosada acusou o Congresso de agir de forma irresponsável, sustentando que, para a Previdência Social e para o atendimento de milhões de aposentados e pensionistas argentinos, “não há dinheiro”. O mesmo que abunda para os cofres estrangeiros.

O desgoverno calculou o impacto de mais de 7 trilhões de pesos (US$ 4,6 bilhões) em 2025 e cerca de 17 trilhões (US$ 11,2 bilhões) em 2026. Em julho deste ano, depois da Câmara dos Deputados aprovar novamente a moratória, Milei confirmou que vetará o projeto por atentar contra o “déficit zero”. O porta-voz Manuel Adorni disse que a Presidência vetará todos os projetos que quebrem o “equilíbrio fiscal”.

“É MENTIRA QUE NÃO HÁ DINHEIRO”, CONTESTA OPOSIÇÃO

A oposição rebate. O senador Mariano Recalde, da União pela Pátria, afirmou na época que “é mentira que não há dinheiro”, assegurando que os aposentados têm menos renda e mais gastos desde a chegada dos ultraneoliberais ao poder.

Atuantes na defesa da população idosa argentina em Buenos Aires, o Espaço Gerontovida e a Defensoria da Terceira Idade na Argentina advertem para uma realidade financeira sombria para aposentados e pensionistas. O cenário é de extrema vulnerabilidade em outubro de 2026, apontaram, com a Cesta Básica dos Idosos alcançando 2.090.646 pesos argentinos (US$ 1.381,63) contra uma Aposentadoria Mínima Real de somente 505.748,51 pesos argentinos (US$ 334,19) – já incluindo o bônus fixo extraordinário de 70 mil pesos concedido pelo governo.

O aperto atinge também quem já está dentro do sistema. O Centro de Economia Política Argentina (CEPA) calcula que os aposentados já perderam 21% da renda em relação à fórmula anterior de reajuste, uma diferença de 93.393 pesos por mês. Enquanto isso, o bônus de 70 mil pesos segue congelado desde março de 2024. Como a cesta básica é praticamente quatro vezes maior do que o benefício recebido, a aposentadoria mínima cobre apenas 24,19% das necessidades essenciais. Na prática, esse valor é suficiente para sustentar o idoso por apenas cerca de sete dias do mês.

O saldo, apontam, é um sistema que fecha a porta de entrada para quem trabalhou na informalidade e comprime a renda de quem já está dentro, tendo o “equilíbrio fiscal” como justificativa oficial.

Vídeo documenta protesto de aposentados e pensionistas em Buenos Aires

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