Estudantes franceses rechaçam abandono de Macron à educação: corte é de 10 bi de euros

Secundaristas ocupam a Praça da República (Dimitar Dilkoff/AFP)

“Esse orçamento vira as costas para a nossa juventude”, destaca líder da CGT

Os estudantes secundaristas voltaram às ruas da França nesta terça-feira (13) para exigir mais professores e mais verbas para a educação, denunciar a violência policial que já mutilou dois adolescentes – um que perdeu um olho em um tiro de bala de borracha e outro que teve a mão decepada por uma granada de percussão da tropa de choque – e para repelir o tesouraço de Macron, o corte de 10 bilhões de euros na educação e 40 bilhões proposto no geral do orçamento para 2027.

De acordo com os organizadores, foram 480 mil participantes no país inteiro – 160 mil segundo o governo. Entre eles, a sueca Greta Thunberg, conhecida por sua precoce militância ambiental e que, recentemente, participou da Flotilha de solidariedade a Gaza e chegou a ser sequestrada pelo regime sionista.

Com um keffiyeh nos ombros e rodeada pelos estudantes, em frente ao Lycée Paul Éluard, em Saint-Denis, ela afirmou que “nosso futuro está sendo roubado de nós e, como vimos, as escolas não estão recebendo o investimento que precisam”.

Novamente, professores, familiares, sindicalistas e advogados foram às ruas com os adolescentes, para protegê-los da sanha macronista, que já prendeu milhares de menores.

Também os estudantes universitários se uniram ao protesto. Presentes, ainda, parlamentares oposicionistas. Como advertiu a secretária-geral da CGT, a principal central sindical francesa, Sophie Binet, “enquanto não houver resposta às reivindicações, a mobilização vai continuar”.

“Este orçamento vira as costas para a nossa juventude”, ela sublinhou.

Iniciada em uma escola nos subúrbios de Paris, a mobilização mudou de patamar quando os secundaristas aderiram ao chamado no dia 29 de setembro para se solidarizarem com a greve dos servidores públicos contra os cortes nos serviços públicos, congelamento de salário do funcionalismo e correção de aposentadorias abaixo da inflação.

Agora, as entidades estudantis estão reivindicando que o orçamento de 2027 destine 10 bilhões de euros para a atual emergência na educação.

Emblematicamente, na semana passada os estudantes ocuparam a Praça da Bastilha, no dia seguinte às marchas em 30 cidades, inclusive com 100 mil em Paris, e muitos vêem ecos de 1968.

Nos cartazes feitos à mão, as denúncias e a irreverência: “não estamos pedindo luxo”, “educação em perigo – juventude revoltada” e “jovens demais para sermos ouvidos, velhos o bastante para levarmos gás”. 90% das universidades pararam. Fora Paris, as maiores manifestações foram em Lyon, Lille e Marselha. Em Nantes, a tropa de choque voltou a disparar gás lacrimogêneo contra o final da marcha.

A expectativa do governo Macron é de que os 15 dias de férias de outono, que começam no fim de semana, diluam o movimento. Mas Louis Létoublon, da organização estudantil Les Lycéens!, observou que o movimento de protesto começou em áreas carentes fora de Paris, onde as famílias não podem pagar férias, então as férias escolares de outono não diminuiriam a indignação.

À AFP, Mariolino, um jovem de 16 anos em Nantes, disse: “Aqueles que acham que a raiva vai desaparecer com as férias simplesmente não entendem nada.”

De acordo com o Le Monde, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu já avalia fugir da votação do orçamento na Assembleia Nacional, impondo-o por decreto, usando o artigo 47 da Constituição (caso o Parlamento não se pronuncie dentro do prazo legal de 70 dias), ou o artigo 49.3, que aprova o texto sem votação, que aprova o texto sem votação, mas coloca em jogo a sobrevivência do governo através de moções de censura da oposição.

SABADÃO CONTRA ARROCHO E CARESTIA

O assim chamado “Ato V” secundarista também está inserido na preparação para a manifestação unitária de sábado contra a carestia e contra o ajuste no lombo dos trabalhadores em geral, servidores públicos e aposentados, cinicamente apontados como culpados pelo “déficit”.

Para sábado, vão convergir os trabalhadores, os aposentados, os estudantes e o movimento dos “coletes amarelos”, enquanto a carestia é impulsionada tanto pela alta dos combustíveis desencadeada pela guerra de Trump ao Irã, quando pelo caro gás norte-americano e pelo desvio de recursos dos gastos sociais para financiar a guerra da Otan na Ucrânia e rearmar até os dentes a Europa.

Quanto à paciência dos franceses, dois dados. Segundo cálculos do Observatório Francês de Economia (OFCE), desde 2024 as famílias [dois adultos e duas crianças] perderam, em média, 1200 euros em termos reais.

Em 2025, o poder de compra por unidade de consumo diminuiu 0,7%. Os primeiros nove meses de 2026 sugerem uma nova queda de mesma amplitude. Dois anos consecutivos de queda: isso só havia acontecido duas vezes desde 1960, durante o austericídio de 1983-1984 e após a crise financeira de 2010-2013.

Um quadro crítico, segundo o economista Mathieu Plane: Desde 2019, os salários reais vêm caindo: a inflação subiu 21,3%, enquanto os salários aumentaram apenas 18,7%. Até 2024, as transferências sociais (pensões indexadas, benefícios) e os rendimentos de investimentos (dividendos, ganhos no mercado de ações) compensavam essa queda. Isso não acontece mais, daí a perda média de 1.200 euros por ano no poder de compra das famílias.

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