Custo de vida e execuções de latinos pelo ICE alimentam rejeição a Trump no Texas

Em Houston, o rosto do mexicano Lorenzo Salgado, assassinado pelos agentes da imigração, e o clamor: "Fora ICE!"

Sindicalistas de Houston apostam na mobilização de trabalhadores de todas as origens nas eleições de meio de mandato; há anos o estado republicano entra quente na disputa nacional

Um tapete de adesivos com a frase “Eu votei” cobre a calçada diante de um memorial improvisado no bairro de Magnolia Park, na entrada da sede do Sindicato dos Trabalhadores de Serviços (SEIU), em Houston, no Texas, estado fronteiriço com o México.

Desde 19 de outubro, quando começou nos EUA a votação antecipada do meio de mandato, está em jogo não apenas o controle do Congresso federal, mas também 36 governos estaduais. No Texas, a latina Gina Hinojosa, candidata democrata, busca tornar-se a primeira governadora latina. Felizmente, as mudanças políticas e demográficas que se manifestam nesta eleição ocorrem em escala nacional.

Em Magnolia Park, eleitores passaram a deixar o comprovante de que foram às urnas. Entre as mensagens, uma resume o clima: “Votei por todos os Lorenzos”. Ali está pintado o rosto de Lorenzo Salgado Araujo, mexicano de 52 anos, trabalhador da construção civil, que vivia nos Estados Unidos há 35 anos. Ele estava indo ao trabalho, em 7 de julho, quando foi abordado e baleado por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE). Morreu a caminho do hospital. Hoje, sua história é um dos símbolos da mobilização eleitoral contra o presidente Donald Trump.

Em 24 de outubro, foi inaugurado um mural na fachada do prédio. A obra do artista Daniel Anguilu mostra Salgado Araujo de chapéu de vaqueiro, cercado de girassóis, ao lado de um agente que leva uma criança com mochila escolar e de três manifestantes, uma afro-americana, um branco e um latino, com um cartaz que diz “Fora ICE”. Há ainda uma borboleta, símbolo de migração e obstinação.

“ESTAMOS DESPERTANDO, E NÃO APENAS NO TEXAS”

Para Elsa Flores, presidente do SEIU, de origem hondurenha, dois fatores impulsionam a participação nestas eleições: o alto custo de vida e a perseguição aos latinos pelos agentes do governo. Em entrevista ao La Jornada, ela destacou a tomada de consciência em curso: “Estamos despertando, e não apenas no Texas”.

De acordo com a sindicalista, a ofensiva repressiva gera um clima de medo que leva trabalhadores imigrantes e latinos a evitar ir ao trabalho, frequentar restaurantes ou viajar, com efeitos crescentes sobre a economia local e sobre a saúde emocional das famílias.

A dirigente observa que a pressão não nasceu com Trump, mas que há uma diferença: seu governo passou a tratar os imigrantes como “vilões” e, de forma completamente destemperada, sem freios, sem prestar contas ao Congresso, ao Senado ou aos próprios eleitores.

O segundo eixo é o bolso. Elsa Flores lembra que o eleitorado latino não é homogêneo, mas que “a economia é o fator que vai unir a todos nós” com a alta do custo de vida. Consultas médicas, alimentos e combustível pesam no orçamento de latinos, afro-americanos, asiáticos e brancos, e esse fardo compartilhado, aponta, tem alimentado a participação eleitoral como forma de repúdio às políticas de Trump.

DEMOGRAFIA NO CENTRO DA DISPUTA

Os números ajudam a explicar por que o Texas passou a ser visto como terreno em disputa. Os latinos representam cerca de 40% da população do estado, segundo o Censo dos Estados Unidos, e formam a maior minoria. Os brancos deixaram de ser maioria e já não constituem sequer o maior grupo populacional. Os latinos também responderam pela esmagadora maioria dos eleitores registrados entre 2022 e 2024.

Diante disso, o sindicato trabalha com outras entidades, como as de professores, de trabalhadores da comunicação e da hotelaria, além de organizações sociais, para ampliar o comparecimento. Conforme Flores, o esforço já produz resultados, com eleitores votando pela primeira vez. “O Texas agora está em jogo”, afirma a dirigente, para quem Carolina do Norte, Ohio, Kansas e até a Flórida também aparecem, de repente, em risco para os republicanos.

“NOSSO POVO, NOSSOS FILHOS, VOTAM PELA FAMÍLIA”

A sindicalista explica que o voto, para muitas famílias, é coletivo. Seus próprios filhos, conta, pensam em tios, primos e sobrinhos que são cidadãos, que têm autorização temporária de residência ou que ainda não conseguiram regularizar a situação, e votam por eles. “Nosso povo, nossos filhos, votam pela família”, resume, lembrando que esses filhos de imigrantes serão os eleitores do futuro.

Para Flores, era importante mostrar que “existe resistência”, inclusive entre quem tem medo, mas busca formas de dizer aos parentes que é possível sair de casa e votar. Diante da mobilização, a sindicalista ressalta que se encontra “cautelosamente otimista”.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *