PC de Israel apoia governo conjunto judeu-árabe para afastar Netanyahu

Manifestação em Tel Aviv exige "um país para todos os seus cidadãos".


AYMAN ODEH*

Durante anos tentaram nos convencer de que não temos um lugar real na política aqui. A direita nos aponta como inimigos e como uma quinta coluna, enquanto os partidos de centro e de esquerda temem pagar o preço político de uma parceria conosco. Em um Estado que se define como o Estado-nação do povo judeu, somos exigidos vez após vez a lutar pelo direito de influenciar o futuro do lugar onde vivemos, que é a nossa pátria e não temos outra pátria além dela.

Mas, como provamos na terça-feira, não desistimos e não desistiremos. Apesar do racismo, da exclusão e da deslegitimação, saímos para votar em massa e continuamos a lutar pela igualdade que merecemos. Não apenas não abrimos mão do nosso lugar aqui, mas fomos parceiros na luta pelo futuro de toda a sociedade, contra o kahanismo e o fascismo que a ameaçam. Estas eleições provaram novamente uma verdade que a política israelense tenta esconder: sem os cidadãos árabes, Benjamin Netanyahu, Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich poderiam estar comemorando hoje.

Contudo, não podemos trazer a mudança sozinhos. Para substituir este governo e construir uma realidade diferente aqui, é necessária uma parceria judaico-árabe real e igualitária. O público árabe no país não é um acréscimo à equação política; é parte central dela.

Isso não é uma questão de gesto ou de reconhecimento simbólico. É a realidade política. A história das últimas três décadas ensina que, quando o público árabe ganha peso político, abre-se a possibilidade de mudança. Foi assim na época de Yitzhak Rabin, quando o apoio dos membros árabes do Knesset permitiu ao seu governo avançar com processos políticos e concedeu aos Acordos de Oslo um apoio político decisivo. Foi assim também nas eleições de 1999, quando Ehud Barak derrotou Benjamin Netanyahu e obteve amplo apoio dos eleitores árabes. E, ainda assim, em vez de construir sobre essa força e desenvolvê-la, a política israelense preferiu ter medo dela.

Netanyahu entendeu essa equação: para sobreviver no poder, não basta derrotar seus adversários; ele também precisa impedir que o público árabe se torne um parceiro político legítimo capaz de decidir o futuro do país. Durante anos, ele nos transformou em um inimigo interno, rotulou nossos representantes como traidores e incitou contra o público que representamos. Acreditem em mim, não há ninguém que tenha vivenciado esse método mais do que eu.

Netanyahu não apenas se aproveitou do racismo na sociedade israelense, ele o cultivou e o transformou em uma ferramenta central para a preservação do seu poder. Ele buscou convencer o público judeu de que os cidadãos árabes são uma ameaça, que a parceria com eles é perigosa e que eles não têm o direito real de influenciar o futuro do país. Ele agiu para destruir nossa legitimidade de todas as formas possíveis.

Isso não foi um erro nem um deslize. É um método. Netanyahu construiu seu governo sobre a incitação, no aprofundamento do abismo entre judeus e árabes e na exclusão de um quinto dos cidadãos do Estado. Toda vez que a parceria judaico-árabe ameaçou seu governo, ele voltou à mesma fórmula: amedrontar, incitar e perseguir. Esse é o legado político que ele deixa para trás: racismo, ódio, supremacia, destruição e devastação.

Mas a responsabilidade não é apenas dele. Durante anos, líderes do centro e da esquerda permitiram que Netanyahu determinasse os limites da legitimidade política em Israel. De Barak, passando por Benny Gantz até Gadi Eisenkot, repetidas vezes ficou claro que o medo da reação da direita supera a disposição de reconhecer o público árabe como um parceiro igualitário.

Eu sei disso por experiência própria. Há sete anos, fui o primeiro entre os líderes do público árabe em três décadas a recomendar um candidato para o cargo de primeiro-ministro. Fiz isso a partir do entendimento de que não há como substituir o governo Netanyahu sem cooperação política entre nós. Queria expressar o nosso peso político, mas não encontrei um parceiro. Eles querem nossos votos quando precisam deles, mas temem reconhecer a legitimidade dos nossos representantes.

Querem substituir Netanyahu, mas não estão dispostos a se libertar das regras que ele estabeleceu.

E é exatamente aí que reside a armadilha. Enquanto aqueles que buscam substituir Netanyahu continuarem a temer a parceria conosco, eles preservam uma das ferramentas centrais pelas quais ele se mantém no poder. É impossível lutar contra o racismo e, ao mesmo tempo, se render a ele; falar sobre democracia e, simultaneamente, excluir um quinto dos cidadãos do país da parceria política; ou construir uma alternativa real a Netanyahu sem quebrar a política de supremacia e exclusão.

É preciso dizer com honestidade: a visão de supremacia não é privilégio exclusivo da direita. Também no centro e na esquerda existe uma concepção profunda, às vezes oculta aos olhos, segundo a qual é o público judeu que deve determinar os limites da parceria, enquanto o público árabe deve se contentar com o lugar que lhe for atribuído. Para construir um futuro diferente aqui, é preciso se libertar também dessa concepção. Não há como combinar supremacia com igualdade, nem exclusão com parceria.

Pensem no que escreverão nos livros de história sobre o que está acontecendo aqui daqui a 30 anos. Como explicarão o fato de que líderes políticos da oposição se recusaram a colaborar com representantes do público árabe apenas por serem árabes? E esqueçam a Lista Conjunta: por que desqualificam também o Ra’am, que hoje é um partido mais à direita do que os Democratas, tanto politicamente quanto certamente no âmbito social, e mesmo assim não é considerado legítimo?

Como explicarão o fato de que milhões de cidadãos precisaram lutar repetidamente pelo direito de influenciar seu futuro e o futuro do Estado, e que, mesmo quando saíram em massa para as urnas, seu voto foi considerado ilegítimo? Por trás desses votos existem seres humanos: mulheres e homens, jovens e idosos, pessoas que fizeram tudo ao seu alcance para chegar às urnas e influenciar seu futuro.

Escrevo estas palavras a partir da realidade em que vivemos. Somos parte inseparável do povo palestino e, ao mesmo tempo, somos parte dos cidadãos deste Estado. Conhecemos a sociedade israelense por dentro, suas esperanças e seus medos, bem como a dor e as aspirações do nosso povo.

Falamos árabe e hebraico, e não somos hóspedes aqui. Somos cerca de 20% dos cidadãos de Israel e, ao mesmo tempo, cerca de um quarto do povo palestino entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo. Somos parte da sociedade israelense e parte do povo palestino. Essa realidade não é uma contradição que precisa ser resolvida por meio do apagamento de uma das partes da nossa identidade. Ela é um ponto de partida a partir do qual é possível construir uma parceria diferente.

Emil Habibi pediu uma vez para lembrar aos israelenses que não há grupo árabe que conheça a sociedade israelense melhor do que os palestinos cidadãos do Estado. Há um significado profundo nessas palavras. É justamente a partir desse lugar que podemos ser parceiros centrais na luta por um futuro no qual os dois povos vivam em segurança, em paz e com o exercício do direito à autodeterminação de ambos.

Para guerras, para a supremacia e para a continuação do domínio sobre o povo palestino não é necessária uma parceria. Pode-se continuar incitando, construindo muros e iniciando mais guerras. Mas quem deseja uma democracia real, uma paz real e um futuro melhor para nossos filhos deve escolher um caminho diferente. Esse caminho passa por uma parceria judaico-árabe real e igualitária.

A oportunidade de mudança é agora. Não podemos percorrê-la em vão ou deixá-la passar. É preciso fazer tudo para depor o governo de Netanyahu, Ben-Gvir e Smotrich, mas não basta substituir as pessoas que ocupam o governo; é preciso mudar também o caminho.

Sem nós não tem como. Mas junto conosco, é absolutamente possível

*Líder da bancada do PC de Israel no Knesset

Enviado por Yoav Goldring, representante do PC de Israel no Brasil.

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