Antes de falir, instituição financeira sangrou os recursos dos paraguaios para engordar propaganda de criminosos da extrema direita latino-americana no resort Mar-a-Lago, propriedade do presidente dos EUA, em Palm Beach, na Flórida
O Ueno Bank, instituição financeira que sofreu intervenção do Banco Central do Paraguai na terça-feira (3) por insolvência e deixou cerca de 3 milhões de clientes sem acesso às suas economias, estava entre os principais patrocinadores de uma gala da direita internacional no resort Mar-a-Lago, propriedade de Donald Trump, em Palm Beach, na Flórida. No evento, realizado em 10 de fevereiro, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro entregou um prêmio ao “consultor político argentino” Fernando Cerimedo.
A Hispanic Prosperity Gala foi organizada pela plataforma Latino Wall Street, com participação do empresário espanhol Javier Negre, dono do site La Derecha Diario, entre os organizadores. Em 3 de fevereiro, a própria Latino Wall Street anunciou nas redes sociais o Ueno Bank como benemérito oficial da noite, descrevendo-o como o primeiro banco 100% digital do Paraguai.
Conforme o jornal paraguaio ABC Color, a instituição figurava entre as seis principais patrocinadoras da categoria máxima, a Diamond, cujo valor anunciado era de US$ 100 mil (mais de R$ 550 mil). Fotos mostram Eduardo diante de um painel com o logotipo do banco.
Na cerimônia, Cerimedo, conhecido no Brasil por ter difundido, em 2022, acusações sem provas contra as urnas eletrônicas e é bastante próximo à família Bolsonaro, recebeu o título de “consultor político hispano do ano”. Na oportunidade, por vídeo, o presidente argentino, Javier Milei, também foi homenageado. Seis meses depois, Cerimedo foi detido na Bolívia, acusado por ter mandado assassinar a tiros, em 17 de agosto, sua companheira e advogada Nadia Beller, grávida.
DINHEIRO SANGRADO DOS APOSENTADOS
O Ueno é ligado ao Grupo Vázquez e foi autorizado a operar como banco em 2023, já no governo de Santiago Peña. O então presidente tinha 1,58% da holding e se desfez das ações em março de 2025, segundo o ABC Color. Depois de habilitado, o Ueno passou a receber depósitos do Instituto de Previsão Social (IPS), que administra a previdência da maioria dos trabalhadores paraguaios. De acordo com relatórios oficiais citados pelo jornal, até março de 2026 o IPS mantinha mais de 10% de seus depósitos no banco, acima do limite legal. Somente depois de intimado, reduziu a exposição para 9,7%. O IPS era o principal depositante da instituição e já abriu processo no Banco Central para tentar recuperar os recursos.
A casa caiu de vez quando o regulador constatou que o índice de solvência do Ueno havia despencado para menos da metade do mínimo exigido. O presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, anunciou a renúncia no mesmo dia da intervenção. A Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade o prosseguimento do processo de impeachment contra Peña, que renunciou na quinta-feira (5), antes de ser destituído. O Congresso está decidindo o futuro do ex-presidente.
O que está documentado é o encontro de dois fatos: um banco que geria volumes expressivos de recursos públicos, em proporção acima do limite legal, apareceu como patrocinador de primeira linha de um palco da extrema direita internacional, no exterior, meses antes de quebrar. Para os milhões de paraguaios que hoje não conseguem acessar suas contas, o simbolismo é latente.
Ainda falta esclarecer, porém, se o dinheiro do patrocínio saiu diretamente de recursos de aposentados ou de outras verbas públicas, e quanto foi efetivamente pago, já que o valor de US$ 100 mil é o anunciado pela categoria de patrocínio. Também restam perguntas sobre os vínculos entre o banco e a rede de Cerimedo e Negre, que dependem de apuração das autoridades paraguaias e de investigações em curso. Insistentemente procurados, o Ueno Bank e os organizadores da gala ainda não haviam se manifestado até o fechamento desta matéria.










