“12ª Mostra Mosfilm retoma histórias fundamentais diante do atual cenário”, diz Igor Oliveira

Poema do Mar (1958), dirigido por Yulia Solntseva - Foto: Divulgação

Igor Oliveira fala sobre os destaques da 12ª edição, que traz obras de Tarkovski, Eisenstein e Serguei Bondarchuk, além de filmes sobre a Revolução Russa e a Segunda Guerra Mundial

A 12ª Mostra Mosfilm de Cinema Soviético e Russo começa no dia 11 de novembro, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, trazendo ao público uma seleção de grandes obras da cinematografia soviética e russa, muitas delas em versões restauradas.

Em entrevista à Hora do Povo, Igor Oliveira, integrante da equipe de curadoria da mostra, conta como foi o processo de seleção dos filmes, explica as escolhas temáticas desta edição e comenta a importância de preservar e apresentar essas obras às novas gerações. Ele também destaca a atualidade de produções que ajudam a compreender os conflitos e as disputas políticas do presente, além de antecipar algumas das sessões especiais, oficinas e atividades culturais preparadas para o público na Cinemateca.

ANDRÉ SANTANA

Veja a íntegra da entrevista:

A 12ª edição da Mostra Mosfilm homenageia os 65 anos do voo espacial de Yuri Gagarin. Qual foi a importância da conquista espacial para a cultura soviética e de que maneira o cinema contribuiu para construir esse imaginário?

Não tem como começar a responder sobre isso sem falar de como surgiu essa ideia. A Susana Lischinsky [da equipe curadora da Mostra] estava lendo o material publicado diariamente no site do Mosfilm, e leu uma matéria citando alguns filmes — inclusive alguns que eles nem têm disponíveis — sobre os 65 anos do primeiro voo espacial de Yuri Gagarin. A partir disso, decidimos colocar esse assunto como um tema importante na mostra deste ano, principalmente para mostrar o pioneirismo da União Soviética nesse sentido. Em um momento em que o mundo está cheio de bilionários, donos de empresas e de muito dinheiro, que querem esbanjar construindo foguetes para viajar pelo espaço, é muito importante reafirmar esse pioneirismo soviético.

No fim das contas, temos um filme muito interessante na abertura, que é “O Voo Espacial”. Ele traz uma perspectiva interessante por ter sido feito bem antes do início da chamada corrida espacial; é uma obra de 1933 que projeta um futuro na década de 1940, mostrando como se imaginava tudo aquilo dez anos antes. É um filme excelente para mostrar como funciona a imaginação do ser humano em relação ao futuro e ao que está por vir, além de ser muito bacana pelo uso de recursos técnicos dos anos 30, como o stop motion. Este será o nosso filme de abertura.

O outro filme é “Domando o Fogo”, uma obra bem histórica e descritiva sobre como a corrida espacial nasceu. Ele mostra como o desenvolvimento da indústria da cosmonáutica soviética surgiu como uma consequência quase natural da indústria bélica, que estava altamente desenvolvida por conta da Segunda Guerra Mundial. É um filme bem realista que faz esse contraponto.

Por fim, incluímos nesse eixo temático o filme “Kin-dza-dza!”, uma comédia muito cult e querida pelos russos. O público de lá gosta tanto da obra que utiliza trechos e falas do filme como piadas no cotidiano. É um filme muito engraçado, mas que também serve como reflexão para entendermos o mundo. Projetar um futuro, seja ele utópico ou distópico, para refletir sobre o presente é uma característica muito forte da ficção científica, e “Kin-dza-dza!” é um filme muito interessante nesse aspecto.

Acredito que a principal contribuição da cosmonáutica em si — dessa busca do homem na Terra de olhar para o espaço e querer saber o que há lá — é justamente a questão da imaginação. Trazer isso para a programação da mostra nos permite reafirmar o pioneirismo da União Soviética nesse sentido.

Kin-Dza-Dza, dirigido por Georgy Danelia.

Em 2026, Andrei Rublev, de Andrei Tarkovsky, completa 60 anos e será exibido em uma nova restauração 4K. Qual é a importância desse filme para a história do cinema mundial? O que torna sua linguagem cinematográfica tão singular e atual?

Estamos celebrando o aniversário da obra e a sua restauração. “Andrei Rublev” é o segundo longa-metragem de Andrei Tarkovski — sendo o primeiro “A Infância de Ivã”. É a partir dele que o diretor começa a consolidar suas características estéticas, marcadas por um cinema contemplativo e tomadas longas, além de suas características conceituais, com um cinema profundamente filosófico e ligado à espiritualidade.

O filme já seria extremamente importante por si só, mesmo que não estivesse completando aniversário ou não tivesse sido restaurado. O próprio Karen Shakhnazarov, diretor-geral do Mosfilm, considera “Andrei Rublev” um de seus filmes favoritos e um dos mais importantes da história do cinema.

A questão da restauração também é muito relevante. Todos os filmes de Tarkovski produzidos pelo Mosfilm já haviam passado por processos de restauração anteriormente. “Andrei Rublev”, por exemplo, já tinha sido restaurado em 2004. Recentemente, foi realizada uma nova restauração com o objetivo de aproximar a experiência de exibição o máximo possível da película original.

Esse aspecto é fundamental porque quem frequenta a Mostra anualmente sabe que a restauração é um dos critérios de seleção para a programação, visto que o Mosfilm tem realizado um trabalho de restauração muito rigoroso nas últimas décadas.

Decidimos este ano realizar uma única exibição de “Andrei Rublev” na área externa da Cinemateca. Quem já teve a oportunidade de assistir a um filme naquele espaço sabe que se trata de uma experiência inigualável.

Portanto, será uma experiência única, reforçada pelo fato de que a exibição será realizada em formato 4K.

Andrei Rublev, de Andrei Tarkovsky

A dualogia Sinos Vermelhos, de Serguei Bondarchuk, aproxima a Revolução Mexicana da Revolução de Outubro de 1917, a partir das obras do jornalista John Reed. Por que é importante recuperar filmes que abordam grandes transformações políticas e sociais?

Antes de falar da relação dessas histórias com a América Latina em si, é interessante destacar a figura de John Reed. Ele é um personagem que está ali — o que é retratado um pouco no primeiro filme, “México em Chamas” — no convívio da imprensa e da burguesia dos Estados Unidos na época dos primeiros focos da Revolução Mexicana. Ele resolve ir para o México e largar toda a vida confortável que tem para acompanhar a revolução, envolvendo-se muito mais do que imaginava.

O livro “México Insurgente”, que inspira o primeiro filme, infelizmente não tem tradução disponível no mercado brasileiro atualmente, sendo possível encontrá-lo apenas em sebos. Já o livro sobre a Revolução de Outubro, “Dez Dias que Abalaram o Mundo”, é uma obra fundamental e que está disponível no mercado. Este livro retrata um segundo momento, no qual John Reed vai para a Rússia e acompanha a revolução de perto.

Assistir a esses filmes é muito interessante, além do fato de serem produções grandiosas dirigidas por Sergei Bondarchuk (o mesmo diretor de Guerra e Paz). Bondarchuk, em um momento de sua carreira, buscou muito realizar coproduções entre vários países, com elencos internacionais, resultando em obras de grande porte, com muitos figurantes e cenas grandiosas.

Para que as pessoas não fiquem preocupadas caso percam um filme e achem que não conseguirão entender o outro, vale destacar uma questão prática: embora os filmes tenham uma ligação na figura de John Reed, ambos possuem começo, meio e fim. É perfeitamente possível assistir a apenas um deles, ou assistir ao segundo filme antes do primeiro na semana seguinte, caso não haja disponibilidade de tempo.

Sobre a relação com a América Latina, não se pode negar que os processos revolucionários ocorridos na região têm inspiração nessas duas revoluções. Retomar essas histórias é ainda mais fundamental hoje, diante do atual cenário geopolítico mundial: os olhos estão voltados para a América Latina, com os Estados Unidos tentando dominá-la de qualquer maneira e a região resistindo. Essa resistência foi vista nas últimas eleições e em outros momentos que trazem a esperança de ver novas transformações acontecerem.

Sinos Vermelhos: México em Chamas – Direção: Serguei Bondarchuk

A Mostra também apresenta filmes como A Garota Nº 217, que aborda a escravização de uma prisioneira soviética pelos nazistas, e A Última Noite, sobre a Revolução de Outubro. Que importância essas obras têm para compreender o século XX?

Há um ponto muito importante a destacar: embora a mostra tenha como temas o aniversário de Andrei Rublev e o primeiro voo do homem ao espaço, quem nos acompanha há algum tempo sabe que sempre buscamos e que existe um material muito farto no cinema do Mosfilm, tanto sobre a Revolução Russa quanto sobre a Segunda Guerra Mundial.

Há dois filmes na mostra que, quem puder, deve assistir. O primeiro é “Número 217”. Houve muita dúvida sobre como traduzir o título, pois era necessário evidenciar que, no momento em que a pessoa é escravizada e se torna prisioneira, ela vira um número para quem a escraviza.

Este filme é dirigido por Mikhail Romm, um dos grandes diretores do cinema soviético e um dos nomes mais importantes do Mosfilm. Romm já abordou esse tema sob diversas óticas, mas esta é muito diferente; nunca havíamos trazido um filme parecido. É uma obra muito contundente e forte.

“A Última Noite” é um filme com a temática da Revolução Russa que mostra o envolvimento de pessoas comuns na Revolução. Só por isso, já é uma obra muito direta ao ponto. O diretor, Yuli Raizman, é o mesmo de “O Comunista” — filme muito querido pelo público que, em exibições de anos anteriores, foi aplaudido de pé no final da sessão. A expectativa é de que as pessoas tenham a mesma sensação com esses novos filmes e saiam bastante impactadas.

Esta semana, houve um encontro com a diretoria da UMES para conversar sobre a mostra e esclarecer dúvidas. A diretoria da UMES realiza um trabalho fundamental na panfletagem do evento. Na ocasião, eles perguntaram sobre dois filmes que seriam imperdíveis, e foram indicados justamente esses dois.

Número 217 – Direção: Mikhail Romm

O que mais você gostaria de destacar nesta edição da Mostra Mosfilm?

Por fim, gostaria de agradecer a oportunidade e o espaço para falarmos mais sobre a Mostra, apresentando como foi o nosso processo de escolha dos filmes e de preparação do evento, que realizamos sempre com muito carinho e cuidado.

Gostaria também de lembrar ao público que, aos sábados, temos programações especiais, oficinas e barracas típicas, sendo um dia excelente para passear com a família.

Teremos outra sessão muito especial no segundo sábado: a exibição do filme “O Velho e o Novo”, de Eisenstein. Já o exibimos anteriormente em sua versão normal, mas desta vez a sessão contará com Dudah Lopes tocando uma trilha sonora que ela compôs especialmente para o filme e para a Mostra. Já realizamos duas sessões com a Duda tocando em mostras anteriores, e é uma experiência incrível.

As pessoas saem maravilhadas, então não percam. Essa sessão ocorrerá no sábado, dia 21, às 14h15. É necessário retirar o ingresso com uma hora de antecedência. Não percam tempo e corram para garantir os ingressos, pois é uma sessão muito disputada.

Agradeço mais uma vez e espero todos na Cinemateca a partir da semana que vem.

Acesse o site e veja a íntegra da programação:

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