A disputa pelo poder das big techs chega com tudo às eleições no Brasil

Elon Musk (com o filho) e Donald Trump, na Casa Branca (foto: RS/Fotos Públicas)


LUIZ CARLOS AZEDO

A transformação política do Vale do Silício não pode mais ser vista como simples mudança de comportamento de alguns bilionários ou flerte com a extrema-direita americana. Por trás dessa aproximação existe uma disputa sobre quem terá o poder de definir os limites das empresas que controlam plataformas digitais, mecanismos de busca, publicidade, inteligência artificial e parte crescente da circulação de informação.

Enquanto parte da elite tecnológica defende menor interferência estatal e maior liberdade empresarial, órgãos públicos continuam travando batalhas antitruste contra gigantes do setor. A inteligência artificial ampliou a queda de braços. O controle sobre grandes modelos, chips, centros de processamento e serviços de nuvem determinará quem terá capacidade de desenvolver as próximas gerações tecnológicas. O debate deixou de ser sobre redes sociais e comércio eletrônico apenas. O busílis é a infraestrutura sobre a qual empresas, governos e cidadãos construirão seus sistemas digitais.

Isso tem tudo a ver com a mudança de paradigma do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na geopolítica mundial. Os Estados Unidos pressionam a União Europeia contra a adoção de regras digitais. A regulação das big techs tornou-se também uma disputa sobre soberania, comércio internacional e poder tecnológico. É disso que trata o livro mais recente do jornalista americano Gil Durán, The Nerd Reich: Silicon Valley Fascism and the War on Democracy, lançado em 18 de agosto passado. A obra investiga a ascensão do autoritarismo tecnológico e a influência de bilionários do Vale do Silício — como Peter Thiel — nas instituições democráticas e na política atual.

Magnatas ou apóstolos modernos do Vale do Silício citados por Durán lideram a extrema-direita tecnológica. O que chama de Nerd Reich é encabeçado por figuras proeminentes da tecnologia, como Peter Thiel (PayPal), Elon Musk (Space X, TeslaX), Marc Andreessen (Andreessen Horowitz e Substack) e Balaji Srinivasan (Network School / Network State e Coinbase). Essas empresas são usadas para financiar campanhas políticas e o conceito de “Network State” (Estado em Rede) de Balaji pretende substituir os países tradicionais.

A tese central de Gil Durán sobre a nova ordem é a seguinte: parte da elite tecnológica americana passou a questionar os limites impostos pela Estado e pretende ir além da democracia liberal, não se trata mais das velhas disputas entre democratas e republicanos. Qual deve ser o limite do poder privado na democracia representativa quando uma empresa controla a infraestrutura essencial à vida econômica, social e política? Eis a questão.

As plataformas digitais não vendem apenas produtos. Determinam quais conteúdos circulam mais, quais anúncios alcançam determinados públicos e quais informações aparecem primeiro. A tecnologia não precisa escolher um candidato para produzir efeitos políticos. Basta alterar a arquitetura de circulação das mensagens. É justamente aí que o problema passou a ser uma variável das eleições deste ano.

ELEIÇÕES

O Brasil chega às eleições de 2026 com experiência acumulada em campanhas digitais, desinformação, disparos em massa, manipulação de imagens e vídeos e uso político das redes sociais. O Tribunal Superior Eleitoral reconhece que o ambiente digital se tornou central para a formação da opinião pública e aprovou novas regras para o pleito, incluindo medidas específicas sobre inteligência artificial, porém não se sabe exatamente o que vai acontecer.

As normas estabelecem restrições à circulação de determinados conteúdos sintéticos e regras para a atuação das plataformas. O TSE também determinou que sistemas de inteligência artificial não devem recomendar candidaturas, para evitar interferência algorítmica na decisão do eleitor. A Corte ampliou ainda acordos com empresas digitais para enfrentar conteúdos falsos, manipulados ou descontextualizados e proteger a integridade eleitoral.

Meta, TikTok, Kwai, LinkedIn e outras plataformas firmaram acordos com a Justiça Eleitoral brasileira para ampliar canais de denúncia, cooperação e transparência. No caso da publicidade política, mecanismos permitem acompanhar informações sobre anúncios, anunciantes e gastos. A questão, porém, não está restrita à produção de notícias falsas. Envolve também a capacidade das plataformas de determinar a velocidade, a amplitude e o público de determinadas mensagens.

Hoje, a inteligência artificial pode reduzir drasticamente o custo de uma operação de desinformação. Uma campanha pode produzir milhares de vídeos falsos em poucas horas, adaptando imagens, vozes e narrativas a regiões, grupos sociais e perfis distintos. O risco eleitoral, portanto, não está apenas na mentira tradicional, mas na possibilidade de industrialização da persuasão política.

Quanto maior o poder das plataformas, maior a importância de suas decisões sobre o que circula na sociedade. Uma rede social pode modificar políticas de moderação; uma plataforma de vídeos pode alterar recomendações; um mecanismo de busca pode mudar a apresentação dos resultados; e uma empresa de IA pode estabelecer filtros e restrições para milhões de usuários. São decisões privadas com consequências públicas.

O Brasil possui instituições eleitorais experientes, mas não controla a infraestrutura tecnológica. Grande parte das plataformas utilizadas pelos brasileiros é comandada por empresas estrangeiras, cujos algoritmos, decisões corporativas e políticas podem ser definidas fora do país. A campanha eleitoral, entretanto, acontece dentro dessas plataformas. Esse descompasso cria uma zona de vulnerabilidade.

Isso não significa afirmar que alguma big tech esteja planejando interferir nas eleições brasileiras de 2026 em favor de determinada candidatura. Não há evidência para essa conclusão. Existe, porém, uma preocupação legítima com a possibilidade de influência indevida em eleições nas quais plataformas, inteligência artificial e publicidade segmentada possuem capacidade inédita de alcançar eleitores.

Publicado originalmente no Correio Braziliense. Reproduzido com autorização do autor.

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