“Apelidou sua próxima derrota de ‘guerra econômica'”, ironiza Irã sobre “Dia D” de Trump

Para o chanceler iraniano Abbas Araghchi o que Trump tem feito é expor a fragilidade de seu governo (Atta Kenare/AFP)

Guerra econômica “sem precedentes” foi anunciada por Trump no mesmo dia em que a dívida pública dos EUA alcançou pela primeira vez a marca de US$ 40 trilhões, tendo dobrado em dez anos

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, reagiu nesta quinta-feira (20) à declaração do presidente Trump da “mais devastadora guerra econômica” e de um “Dia D econômico” contra o país persa, classificando-a como uma “distração da própria crise da América: débito sem precentes & escalada no custo dos juros” – uma referência ao fato de a dívida dos EUA ter ultrapassado nesse mesmo dia a marca dos US$ 40 trilhões – e advertindo que “replicar políticas fracassadas só trará mais derrota – e inimizade dos iranianos”.

E, concluiu afirmando que “o terrorismo econômico dos EUA ameaça a economia global e a soberania no mundo inteiro”.

Por sua vez, o vice-chanceler, Kazem Gharibabadi, assinalou que “a guerra militar não funcionou (para os EUA); agora eles apelidaram a próxima derrota de ‘guerra econômica’”.

“O problema [do regime Trump]n reside nos erros de cálculo, que os obrigam a criar uma derrota ainda maior a cada vez para encobri-los”, publicou o vice-chanceler.

“Eles afirmam que o Irã está à beira da derrota e por um fio, mas imploram por ajuda de todos os seus aliados!”, ironizou Qaribabadi.

A dimensão da crise da dívida pública americana pode ser aquilatada pelo fato de ter dobrado em dez anos – nos governos Trump 1, Biden e Trump 2 – e do fato de que em duas décadas os EUA sofreram sucessivamente a crise financeira de 2008 e, em 2020, a crise do mercado de títulos da dívida, que chegou a estar paralisado por dias, até que o Fed interviesse.

E que, sob a redução da receita devido ao corte de juros de Trump para os magnatas amigos, mais o aumento do orçamento do Pentágono para US$ 1,5 trilhão, não há como até mesmo a rolagem da dívida não ser cada vez mais precária e sujeita a oscilações.

Como no recente “socorro” ao iene japonês, na verdade, uma manobra desesperada para evitar a desova, pelo Japão de títulos do Tesouro americano e consequente alta do rendimento (juro) exigido pela banca.

Dois dias antes da postagem do “Dia D Econômico”, Trump ameaçara bombardear Omã, historicamente uma monarquia aliada aos EUA, embora com boas relações com o Irã “até não sobrar nada”, após comunicado de Teerã de que os dois lados do Estreito estavam chegando a um acordo de gestão conjunta, estágio essencial para a reabertura ansiada no mundo inteiro.

Aliás, a proclamação do “Dia D Econômico” no dia em que a dívida pública dos EUA alcançou descontrolados US$ 40 trilhões é sintomática, diria Freud, do espantalho que aflige Trump, que garganteia ser quem fará a América “Grande de Novo”.

“Coincidência” que reflete, ainda, o recorde de reprovação de Trump nas pesquisas, a oposição generalizada à guerra nos EUA, a gasolina a 4 dólares o galão às vésperas da eleição que define o controle do Congresso, além da crise no porta-aviões Abraham Lincoln após o Irã ter destruído a base da 5ª Frota no Bahrein, do vazamento da escassez de mísseis e outras notícias que desmoralizam a moral da tropa e ridicularizam a Casa Branca.

TOM DELIRANTE

No empenho de nublar essas questões, Trump insiste em suas postagem em reciclar mentiras como “a Marinha [do Irã] desapareceu, sua Força Aérea foi destruída, suas fábricas militares agora são escombros, sua moeda não vale nada e seu país está por um fio”.

No mesmo tom delirante, disse ainda que “esses maníacos estão encurralados, e essas medidas históricas os enfraquecerão e acabarão com sua capacidade de espalhar o terrorismo pelo mundo. O Irã jamais terá uma arma nuclear”.

Como se sabe, o único país que já cometeu terrorismo nuclear – em Hiroshima e Nagasaki – e é Israel que tem armas nucleares, não o Irã.

O problema não são as inexistentes “armas nucleares do Irã” mas o fato de que o país persa encabeçou a resistência à “normalização com Israel”, os “acordos de Abraão” de reconhecimento de Israel sem devolução da terra roubada aos palestinos, aos sírios e aos libaneses, essa “paz do apartheid e genocídio”, virtualmente desmascarada perante o mundo em Gaza.

Na quinta-feira, os preços do petróleo subiram para o nível mais alto em mais de três semanas nesta quinta-feira. “Não sei por que o petróleo reagiu dessa forma a isso”, comentou cinicamente o secretário do Tesouro Scott Bessent à CNBC. “Se estivermos exercendo a máxima pressão econômica, isso significa que provavelmente não haverá um reinício cinético em grande escala”, apontou ele, usando um termo que se refere ao uso da força militar.

NO ANIVERSÁRIO DO GOLPE DE ESTADO DE 1953

Em comunicado, o Irã classificou as novas sanções americanas como “terrorismo econômico”, mas afirmou que elas não afetarão “a determinação do país em defender sua independência e dignidade”.

“Sem dúvida, as sanções econômicas dos EUA contra o Irã, que afetaram os direitos humanos fundamentais de todos os cidadãos iranianos, constituem um exemplo de ‘terrorismo econômico’ e ‘crimes contra a humanidade’”, enfatizou a chancelaria iraniana.

A nota observou que a ameaça foi proferida no aniversário do golpe de Estado de 1953 no Irã, demonstrando a continuidade de décadas de hostilidade de Washington contra o povo iraniano e  também “a natureza desumana, ilegal e hegemônica das autoridades americanas”.

“Qualquer governo que acredite nos princípios e objetivos da Carta da ONU, incluindo o respeito pela soberania nacional dos países, não pode permanecer indiferente à persistência das violações da lei e ao confronto aberto dos Estados Unidos com as normas internacionais fundamentais”, alertou ele.

“A nova aplicação desta política resultará, sem dúvida, apenas na repetição de fracassos passados e no maior descrédito de seus idealizadores e dos responsáveis por ela”, acrescentou.

O comunicado reitera que o Irã utilizará todas as ferramentas e capacidades disponíveis para combater as ações hostis do inimigo sionista-americano e proteger os interesses nacionais do país.

SUBSERVIÊNCIA ÀS SUAS SANÇÕES, EXIGE TRUMP

Possesso com a derrota militar diante do Irã e com o impasse em Ormuz que se deve exatamente a ele ter descumprido o Memorando de Entendimento que assinou, Trump ameaçou que “qualquer país que permita que suas instituições financeiras, empresas, aeroportos ou entidades governamentais forneçam qualquer tipo de assistência ao Irã, enfrentará enormes consequências econômicas”.

Trump postou ainda que “contrabando de petróleo, linhas de troca, transferências de dinheiro, casas de câmbio, registros de navios, empresas de fachada: tudo isso deve acabar agora. Vocês sabem quem são”.

Na semana passada, Trump proclamara sua pretensão de declarar “propriedade dos Estados Unidos” o Estreito de Ormuz, prontamente ridicularizada por Gharibabadi: “Não é possível se apoderar do Estreito de Ormuz nem com tuíte, nem com porta-aviões, nem com decreto, nem com discurso de campanha eleitoral”.

Também as forças armadas iranianas, inclusive a Guarda Revolucionária Islâmica, reiteraram sua prontidão para dar uma resposta inesquecível aos imperialistas, ao mesmo tempo que os países do Golfo que abrigam bases americanas foram advertidos a não se tornarem cúmplices da agressão ao Irã.

Analistas questionam a capacidade de Trump de forçar países do porte da China e profundas ligações econômicas e estratégicas com o Irã a se submeterem ao bloqueio intentado, ou quanto à efetividade de tal embargo, dada a longa e profícua experiência de Teerã em driblar sanções, ainda mais com extensas fronteiras com, por exemplo, Rússia, Paquistão e Turquia.

Há ainda a questão de que a recusa de Trump de chegar a um acordo que reabra o Estreito do Ormuz, que estava totalmente aberto há décadas, e só fechado após sua guerra não provocada contra o Irã.

Sem acordo, a cada dia é maior a penalização sobre a economia global decorrente da escassez de petróleo e gás – antes da agressão 20% passavam por Ormuz -, bem como 30% dos fertilizantes e até a expansão dos centros de dados e da IA é afetada: a exportação do gás hélio, insumo imprescindível para a produção dos chips avançados, pelo Estreito, parou.

Como bem apontou o ex-presidente russo Dmitri Medved, o Estreito de Ormuz se mostrou mais decisivo, de maior capacidade de dissuasão do que qualquer suposta “arma nuclear iraniana” – percepção à qual só se chegou exatamente por causa da agressão dos EUA e Israel ao Irã.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *