Para lançar seu livro, escrito junto com David Swanson, “Otan: O que você precisa saber sobre a principal máquina de guerra do imperialismo”, a ativista e escritora Medea Benjamin, diretora da organização Code Pink, esteve em São Paulo nesta quinta-feira, 13.
O lançamento na livraria Tapera Taperá aconteceu com debate com a participação de Medea, de Iara Haaz, da organização antissionista Vozes Judaicas pela Libertação e do comandante Robinson Farinazzo, capitão de fragata da reserva.
Ao abrir o evento, Hugo Albuquerque, diretor da editora Autonomia Literária, destacou o papel da escritora como ativista anti-imperialista e militante da causa palestina atuando dentro dos Estados Unidos.
“É uma das lideranças que, estando dentro dos Estados Unidos, enxerga a realidade e vê os desafios que lá se apresentam, agindo em consonância com as lutas de libertação nacional que acontecem no Sul Global”.
“Nada mais justo que acompanhar este debate, pelo comandante Farinazzo pela sua precisa percepção da questão da segurança nacional, um tema infelizmente ainda muito negligenciado”, acrescentou Hugo.
Contamos também, como mediadora, a Iara Haaz que atua no VJL, uma antissionista o que torna importante que esteja aqui em uma mesa onde se discutirão as questões de poder em torno dos conflitos no Oriente Médio e, é claro, o papel dos Estados Unidos e Israel neste contexto, que muitas vezes são temas alijados das notícias difundidas pela imprensa dominante em nosso país”, destacou o editor.
Em sua participação no debate, o comandante Robinson Farinazzo destacou que “a Otan, criada em 1949, contou desde o início com a presença de oficiais nazistas que apenas trocaram de uniforme”.
A Alemanha Ocidental, sob domínio norte-americano no pós-guerra, teve nas fileiras de seu serviço secreto a presença de oficiais como foi o caso de Franz Joseph Huber que exerceu postos de comando na ocupação da Áustria e foi responsável pela deportação massiva de cidadãos austríacos para campos de concentração.
“OTAN SOB ÉGIDE DO NAZISMO”
“A Otan nasceu sob a égide do nazismo”, declarou o comandante.
“Foi com base nessa ideologia, houve o bombardeio à Jugoslávia, além dos massacres na Indochina, Líbia, Afeganistão e Iraque~, denunciou Farinazzo.
~Isso não difere do que os alemães fizeram ao destruir a cidade de Lídice, na Tchecoslováquia ou em Oradour Sur Glane, na França”.
“Em suma”, prosseguiu, “a Otan adotou e reformulou o pensamento nazista”.
Ele destacou ainda a participação no comando da Otan do ex-piloto de caça da Wermacht, Johanes Stainhoff, que atuou na invasão da França e na operação Barbarossa, contra a União Soviética. “Portanto, a Otan nunca deixou de lado sua herança nazista~.
Farinazzo relatou de sua ida ao Irã para o funeral do aiatolá Ali Khamenei: “era impressionante a unidade e participação da população no ato com inúmeros voluntários; um deles me jogou água a meu pedido, pois fazia um calor de 400 “.
De lá, Farinazzo foi a uma cidade ao sul do Irã, Lamerd. “O que presenciei foi puro nazismo. Uma cidade de 30 mil habitantes sem presença de força armada, escolhida como alvo para matar civis. Lhe atiraram mísseis norte-americanos de precisão~, relatou.
“Fosse vivo, Picasso faria de Lamerd uma Guernica de nosso tempo”.
“A OTAN É FORÇA DE AGRESSÃO, NÃO DE DEFESA”
O comandante foi seguido por Medea que principiou dizendo que escreveu sobre a Otan, porque se trata de um assunto mal compreendido pela maioria das pessoas. “A Otan não é uma força de defesa, tanto assim que quando adotou a decisão de desmembrar a União Soviética em países independentes no Leste Europeu teve, em entendimentos com representantes norte-americanos, a garantia de que as forças da Otan não se deslocariam ao Leste além das fronteiras da Alemanha”.
“Hoje sabemos que o Departamento de Estado dos Estados Unidos ignorou este compromisso. E mais, Bush revelou sua intenção de incorporar a Ucrânia à Otan, no que foi imediatamente rejeitado pela Rússia que declarou o intento uma intervenção norte-americana com mísseis poucos quilômetros de Moscou”.
O conflito provocado pela agressão aos de origem russa não tardou, mas ~mesmo em meio ao conflito, houve um acordo que apontava para sua solução e, no entanto, os EUA e Reino Unido romperam com os entendimentos. O secretário de ‘Defesa’ dos Estados Unidos, que de Defesa não tem nada, Lloyd Austin, declarou então que o conflito na Ucrânia é ‘maneira de enfraquecer a Rússia’. Portanto, a Otan não é uma aliança de defesa, mas de ataque, de agressão”.
“A Otan tem se envolvido em conflitos fora da Europa, a exemplo da Líbia e do Afeganistão. É, além disso, um instrumento utilizado por Washington para vender armas aos países europeus. Nesta organização em que predominam, agora, com Trump, pressionam os europeus a mais do que duplicarem seu orçamento militar de 2% para 5% a ser investido na engorda desta aliança~, denunciou Medea.
“Para isso insistem na surrada narrativa de que a Rússia é risco para todos os países da Europa, mesmo diante da dificuldade de vencer o conflito com um único país, a Ucrânia”.
“Enquanto isso, assistimos nos Estados Unidos a um aumento massivo do orçamento militar do Pentágono. Trump é responsável pelo aumento em 50% do orçamento militar dos EUA”.
Medea destaca que essa ideia de Trump de retirar mais do orçamento dos países da Europa, “enfrenta uma enorme resistência, pois seus cidadãos não aceitam que retire verba dos sistemas de educação e saúde públicas gratuitas, enfrentamento a problemas climáticos e demais necessidades humanas”.
GENOCIDAS ISRAELENSES COM ESCRITÓRIO NA SEDE DA OTAN
A ativista norte-americana também expôs a influência dos genocidas israelenses na Otan, “com escritório na sede da entidade e os países filiados à Otan são os principais adquirentes de armas israelenses”.

Amira El Khalili entrega documento pela Paz na Palestina a Medea
“O comandante Farinazzo”, prosseguiu Medea, “mencionou a influência da Otan na América Latina. A Colômbia é um exemplo disso, foi declarada ‘parceira’ da Otan e seu presidente Petro quis romper essa ingerência e, durante todo o seu mandato, não conseguiu sair do vínculo~.
“Pois é. Trump deve estar achando que os povos da América Latina estão muito felizes com a sua recente reedição da Doutrina Monroe, agora apelidada de ‘Donroe’”.
Medea também tratou do Irã. “Em primeiro lugar, esse país tem uma grande influência política no Conjunto do Oriente Médio. E, junto com uma equipe da nossa organização Code Pink, fomos aos corredores do Congresso para questionar o apoio norte-americano aos massacres de Israel e a participação dos Estados Unidos, naquela que é a guerra mais impopular de nossa história”.
“Certos congressistas responderam ao nosso questionamento dizendo que ‘os iranianos querem nos matar a todos’ e, além disso, ‘’é uma guerra pró-Israel’”.
“Eu lhes tenho dito que sou americana e tenho sido, por diversas vezes, recebida de braços abertos quando visito o irã e que se querem saber sobre intervenção iraniana, basta ver o golpe arquitetado pela CIA contra o governo iraniano, em 1953, só porque o governo queria nacionalizar o petróleo de seu país~, contou Medea.
“Também procuramos esclarecer que a guerra de Israel e Palestina não começou em 7 de outubro de 2023, mas há uma resistência a uma agressão israelense que vem de décadas”.
“MUDANÇAS FASCINANTES”
“Diante de todo esse quadro”, finalizou a ativista, “há mudanças fascinantes acontecendo nos Estados Unidos, a visão de Israel como aliado está sendo mais e mais contestada. Hoje eu posso dizer que a causa palestina conta com mais simpatia no público americano do que Israel. Aí estão a vitória do novo prefeito de Nova Iorque e do candidato progressista Abdel El Sayed nas primárias do Michigan contra a máquina de dinheiro do lobby pró-Israel, AIPAC”.
Na continuação do debate, Edgar Maluf perguntou sobre o dinheiro que é ganho pelos maestros dessas manobras da Otan; Juliana Moraes questionou sobre “o que estamos fazendo para reverter essa intervenção” e a Amira El Khalil que agradeceu à entidade que Medea dirige, CODE PINK, que segundo ela ajudou, junto com outras, a libertar Ahed Tamimi. Amira também expôs o trabalho da organização que dirige, Mobilização: Encontro de Mulheres pela Palestina e entregou a Medea um documento pela Paz na Palestina já entregue ao presidente Lula e distribuído para lideranças em 36 países.
Medea esclareceu que “se ganha muito dinheiro com a guerra, ao venderem armas, mas também com criptomoedas, com especulação sobre se a guerra vai ou não terminar”.
Para Farinazzo, “a nossa sociedade ainda não entendeu o perigo que o fascismo representa em sua submissão ao imperialismo. Quanto aos militares, por agora não vão mudar, só muda a mentalidade nas Forças Armadas com a transformação da mentalidade em toda a sociedade e a nós cumpre entrar em ação produzir comunicação direcionada ao povo esclarecendo sobre a nossa necessidade de defesa deste perigo”.
Assista ao vídeo com o encontro:
NATHANIEL BRAIA











