Barrabás está na urna


DAVI MOLINARI

Havia tensão no Fale Mais Sobre Isso.

Não aquela tensão confortável das guerras de Hollywood, em que até explosão tem direção romântica.

Era tensão de boteco.

Talher batendo em louça. Copo batendo em copo. Garganta enfrentando garganta. Chuva de perdigotos.

Belchior tocava no sistema de som. Eu talvez seja o cara que você ama odiar, inimigo do peito!

Juvenal media o perigo pelo estampido.

– Passou de três copos batendo, eu intervenho.

Era o protocolo de Genebra da casa.

O Fale Mais Sobre Isso sempre foi uma espécie de Suíça tropical com manjubinhas.

Aposentados, motoboys, estudantes, professores, bancários, advogados e um sujeito de paletó que repetia, sem ninguém perguntar:

– Não sou Faria Lima. Só visto terno para o Instagram.

Naquela noite, porém, a neutralidade estava ameaçada.

De um lado, Laranjão e seu consulado permanente da indignação.

Do outro, a turma do diretório acadêmico, que chegara falando de Trump, Lei Magnitsky, tarifa, milícia e democracia.

No meio, as manjubinhas.

Munição potencial.

Linha vermelha de Juvenal.

Guerra ideológica, tudo bem. Guerra de petisco, jamais.

O termômetro pré-guerra da casa era Cássio.

Com C.

Cá fala pouco. Observa muito.

O problema é quando pega o celular.

De vez em quando a polícia surpreende o Fale Mais Sobre Isso sob a alegação de alguma falta de liturgia de boteco.

Sempre que isso acontece, alguém se lembra de que Cá estava com o telefone na mão.

Naquela noite, Juvenal viu o gesto.

– Cá, guarda esse aparelho no coldre.

– Eu só ia…

– Guardar.

Cá fez a expressão ultrajada de quem acabara de perder uma prerrogativa constitucional, mas enfiou o telefone no bolso.

Primeira vitória diplomática.

Juvenal escolheu a melhor porção de manjubinhas e levou à mesa do Laranjão.

Diplomacia de azeite.

O bar recuou meio decibel.

Eu esperava que o Doutor aproveitasse o cessar-fogo para explicar o Brasil.

Às vezes gostaria que ele fosse um ChatGPT de boteco.

Pergunta.

Resposta.

Conclusão.

Ele apenas se mexeu na cadeira.

O assento rangeu.

Naquela mesa, até cadeira de analista dizia:

Fale mais sobre isso.

– Doutor, onde isso vai parar?

Ele tirou o bloquinho do bolso.

Não escreveu.

Conheço o método.

Pergunta ruim.

Tentei outra.

– Por que tanta gente pede segurança pública e, ao mesmo tempo, se encanta com quem vive cercado de milicianos, violência, suspeitas e transgressões? Por que trabalhador em greve assusta mais do que alguém que promete resolver tudo na bala?

O lápis desceu.

Juvenal chegou com o chope.

– Porque greve ameaça a ordem.

– E o crime organizado?

Ele pousou meu copo.

– Esse, quando se organiza direito, costuma ser chamado de fundo exclusivo.

O Doutor levantou os olhos.

Ponto para Juvenal.

Ele puxou uma cadeira.

Pronto.

Minha sessão tinha sido ocupada.

– Meu querido Analisado – começou –, talvez você esteja procurando lógica onde existe raiva.

– Raiva de quê?

– Não importa muito. Raiva precisa menos de causa do que de alvo.

– Um bode expiatório.

– Às vezes. Mas nem sempre basta escolher quem culpar.

O Doutor começou a escrever.

Inclinei o corpo.

Li uma palavra:

multidão.

– A multidão sempre quer um culpado?

Juvenal balançou a cabeça.

– Pior. Às vezes quer escolher quem merece ser perdoado.

Parei.

– Tipo Barrabás.

– Agora sim.

O Doutor deixou o lápis parado.

– Cristo era mais complicado – continuei.

– Mandava amar o próximo – disse Juvenal.

Olhou para Laranjão.

– Imagine isso em ano eleitoral.

Os estudantes riram.

Até o sujeito do paletó.

– É isso. Barrabás oferece vingança. Cristo, responsabilidade. Um entrega um inimigo pronto. O outro manda conviver com o vizinho.

O Doutor sublinhou alguma coisa.

Laranjão, três mesas adiante, reclamava do STF.

Os estudantes reclamavam de Trump.

O homem do paletó reclamava de todos.

O Brasil recuperava a normalidade.

– Veja o Master – continuei. – Durante anos, banqueiro poderoso virou fantasia de sucesso: jatinho, dinheiro rápido, festa, relações importantes. Depois aparecem investigação, documentos, mensagens, celular apreendido. A fotografia do vencedor começa a ganhar esqueletos.

Juvenal completou:

– Todo herói da classe média brasileira corre o risco de terminar como contato de celular apreendido pela Polícia Federal.

– Os gregos chamavam isso de nêmesis: a hora em que toda soberba recebe a conta.

– Aqui chamamos de quebra de sigilo.

O Doutor quase sorriu.

Avanço clínico.

– E ainda tem a sala 2601 – prossegui. – Águas Claras. Careca do INSS, Flávio Bolsonaro, empresas e personagens diferentes, mas o mesmo endereço aparecendo no mapa das investigações.

Juvenal balançou a cabeça.

– O crime evoluiu.

– Como assim?

– Antigamente precisava de esconderijo. Agora divide recepção e o boleto de condomínio.

O Doutor sorriu.

Um milímetro.

Vitória terapêutica.

– E ainda transformam fascista em herói de cinema – continuei. – Perseguição, sofrimento, redenção. Via-sacra com marketing, CRM e SEO.

Juvenal franziu a testa.

– Tipo Jesus?

– Só que ao contrário.

– Quem já fez Jesus mesmo na TV?

– Jim Caviezel.

Ele pensou um instante.

– Então conhece a história. No Dark Horse, só trocaram Barrabás de papel.

Olhei para o Doutor.

– Talvez esteja aí. A figura que quer atropelar a regra, humilha o adversário e promete restaurar uma ordem que nunca existiu.

Juvenal apontou para mim.

– Agora você entendeu o ponto. Não é a razão é o desejo.

– Que desejo?

– O de conservar o próprio lugar e chamar isso de ordem.

O Doutor parou o lápis.

Pensei.

– O medo de perder o lugar na fila.

Juvenal assentiu.

– Exatamente.

Silêncio.

Era isso.

– Por isso trabalhador organizado incomoda – continuei. – Não pede favor. Faz greve, se associa, vota e diz: eu também decido.

Juvenal recolheu um copo.

– Aí está o escândalo.

– Qual?

– O trabalhador deixar de abaixar a cabeça.

O Doutor voltou a escrever.

Depois virou discretamente o bloquinho.

Debaixo de multidão, havia uma segunda palavra:

Barrabás.

Cá continuava no canto.

Celular guardado.

Naquela altura, sua contribuição para a democracia consistia em não apertar nenhum botão.

Laranjão discutia com um estudante.

O sujeito do paletó jurava pela quarta vez que não era do mercado financeiro.

Maria mandou outra porção.

A Suíça resistia.

Então o Doutor fechou o bloquinho.

O estalo silenciou a mesa.

Conheço aquele som.

Era a frase.

Uma só.

Ele olhou para Laranjão.

Para os estudantes.

Para Cá.

Depois para mim.

A multidão prefere Barrabás porque é mais fácil escolher um inimigo pronto do que construir alguma coisa com o próximo.

Ninguém falou.

Juvenal recolheu a travessa.

– Então Cristo perdeu por excesso de programa de governo?

O Doutor guardou o lápis, sem responder.

Pedi outra rodada.

A pulsão de vida ainda resistia em três coisas:

chope gelado, manjubinha quente e Cá longe do telefone.

Do lado de fora, o país se preparava para encontrar Barrabás na urna.

Mais uma vez, uma escolha fácil.

Ali dentro, naquela noite, a Suíça aguentou.

Sobe Belchior, cantando sobre o sujeito que todos adoram odiar.

Publicado originalmente em Divã no Boteco – CIX. Enviado pelo autor.

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