Burkina Faso rompe relações com França diante de “flagrantes ambições neocoloniais”

Presidente de Burkina Faso, Ibrahim Traore, anuncia rompimento com a França (Angelos Tzortzinis/AFP)

Medida aprofunda a ruptura com a antiga potência colonial e em particular com o regime Macron

O governo de Burkina Faso anunciou o rompimento das relações diplomáticas com a França, a ex-potência colonial e imperialista, denunciando Paris por manter “flagrantes ambições neocoloniais” e pelo “apoio ativo a redes subversivas e terroristas” em território burquinense.

“Não estão presentes as condições para relações baseadas no respeito mútuo, na confiança recíproca, na não ingerência em assuntos internos e na soberania nacional”, frisa o comunicado de 26 de junho, lido pelo ministro das Comunicações, Gilbert Ouedraogo.

Desde o levante cívico-militar de 2022, que culminou com o capitão Ibrahim Traoré encabeçando o novo governo e, três anos depois, a proclamação da retomada da experiência revolucionária de Thomas Sankara da década de 1980, essa ruptura vem ocorrendo.

O que se deu através da expulsão do país do então embaixador francês em 2022, retirada das tropas francesas (2023) e recusa aos mecanismos de espoliação neocolonial da assim chamada “Françafrique”.

Processo que resultou, ainda, na convergência dos povos do Mali, Niger e Burkina Faso na Aliança dos Estados do Sahel e reaproximação com a Rússia, espelhada no apoio soviético à luta de descolonização da África.

Agora, o rompimento diplomático oficial. Decisão que o Ministério das Relações Exteriores francês, por cinismo e arrogância, chamou de “hostil e sem fundamento”, prometendo “medidas recíprocas”.

Não apenas Burkina Faso, mas também Mali e Níger tiveram que expulsar as tropas francesas e colocar freio à ingerência dos respectivos embaixadores franceses, que se viam, virtualmente, como vice-reis de colônias.

Apesar da alegação francesa de que seria “sem fundamento” o rompimento, coincidentemente houve uma tentativa de golpe de Estado em janeiro deste ano em Burkina Faso e outra, em abril, no Mali, e com as digitais francesas por todo lado.

Há ainda denúncias de apoio francês direto a bandos ligados à Al Qaeda e ao Estado Islâmico e, mais recentemente, da chegada de “conselheiros ucranianos” para adestrar os terroristas na operação de drones.

A propósito, a desestabilização do Sahel foi um subproduto dos bombardeios da OTAN que destruíram a Líbia em 2011, levando ao poder grupos extremistas que haviam servido de “infantaria” da aliança imperial.

Na sequência, bandos ligados à Al Qaeda, Estado Islâmico e análogos se estabeleceram na região, causando o caos e ondas de refugiados. E servindo de biombo para o ingresso de tropas europeias e dos EUA e até bases de drones, em paralelo ao saqueio da região.

Burkina Faso só ficou independente em 1960, 75 anos após a Conferência de Berlim de partilha da África no final do século XIX. Depois da vitória dos povos contra o nazifascismo, não houve como impedir a descolonização. Mas após as independências formais das ex-colônias Paris manteve mecanismos de intromissão e espoliação, que agora estão sendo questionados. O que incluía, inclusive, o uso de um falso franco nas ex-colônias, o CFA, com estas obrigadas a manter, no Tesouro francês, metade das suas reservas em divisas.

Como tem afirmado Traore, não estamos meramente em guerra contra o terrorismo, mas “em guerra pela nossa independência”.

LEGADO DE SANKARA

No dia 1º de abril de 2025, o capitão Ibrahim Traoré proclamou em Burkina Faso a “Revolução Popular Progressista” (RPP), em ato que retomou o legado da Revolução Democrática e Popular de 1983, dirigida por Thomas Sankara. O chefe de Estado afirmou que o País não segue o modelo das “falsas democracias” proposto pelas potências imperialistas, mas uma democracia construída em um processo revolucionário.

Segundo Traoré, o objetivo central da RPP é desenvolver a infraestrutura de saúde, educação e estradas, e construir uma indústria nacional independente, com a transformação dos recursos nacionais pelo próprio povo de Burkina Faso e para o consumo local do que é produzido no País.

Enquanto as forças reacionárias não são definitivamente derrotadas, uma das preocupações centrais do governo burquinense é de apoiar os deslocados internos em seu esforço para reorganizar suas vidas.

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