Dirceu critica juros abusivos do BC

José Dirceu. (Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil)

“Ou se enfrenta esse problema, ou nós vamos ficar fazendo um jogo de cena de que o problema é a gastança do governo”, defende o ex-ministro da Casa Civil

O ex-ministro chefe da Casa Civil José Dirceu afirmou que “taxa de juros é decisão política, define a distribuição de renda e riqueza do país”, lembra em entrevista ao Poder360. Contudo. “Neste momento o capital financeiro está se apropriando do lucro das empresas e de parte importante do salário do brasileiro”, denunciou em entrevista ao Poder360 (20/8). Segundo ele, não há justificativa para a taxa básica de juro (Selic), que está em 14%, num cenário que a dívida pública brasileira “é pequena” na comparação com outros países.

“O endividamento brasileiro é normal como em todo país, mas o brasileiro paga 50% de juros no cartão, não consegue nada. Quer um dinheiro com 100% de certeza de que o banco vai receber ou que o meio de pagamento, a fintech, vai receber. Como é que pode? Um trabalhador perde a metade da renda dele pagando imposto na luz, água, telefone, transporte e pagando juros”, criticou o ex-ministro (2003-2005) e atual candidato a deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores em São Paulo.

“Como é que o país pode ir para a frente assim? Ou se enfrenta esse problema, ou nós vamos ficar fazendo um jogo de cena de que o problema é a gastança do governo, que o problema é o déficit nominal, não é o déficit primário. O déficit lá é juro; 80%, 90% lá é juro”, completou.

O ex-presidente do PT considerou que é preciso fechar um pacto no país para a redução da taxa de juros.

“Precisamos pactuar isso no país: como baixar os juros. Porque a proposta que estamos fazendo – de que basta fazer o ajuste fiscal sobre os programas sociais, sobre o salário mínimo, sobre as aposentadorias, ou que basta fazer superávit -, a experiência histórica não mostra isso. E nenhum país do mundo está fazendo isso. Todos os países do mundo estão se endividando”.

“Olha, os Estados Unidos estão aí hoje com mais de 100% de dívida pública, mais de 42 trilhões, quase 10 trilhões entre o Biden e o Trump. A Europa, a mesma coisa. Agora, eles pagam 1% de juros, 1,5%”.

“É só você olhar a dívida pública da Alemanha, da Grã-Bretanha, da França. O Japão tem quase 240% de dívida pública sobre o PIB; a Itália, 150%, 160%. Agora, o Brasil paga 10%, então paga mais 1 trilhão [de juros] por ano. Esse recurso vai para a mão de uma minoria, que é a que mais concentra renda”.

José Dirceu defende o aumento dos investimentos e cortes nas chamadas renúncias fiscais, ao rechaçar a proposta de ajuste fiscal em cima de programas sociais.

“Podemos fazer ajuste fiscal começando pela renúncia fiscal, que é 6% do PIB. Agora querem tirar 4% do PIB em saúde, educação, previdência e salário? Funcionou no passado? Funcionou na Europa, nos Estados Unidos? Não. Levou à desindustrialização, crise social -olha a crise que a Europa está vivendo.”

“Nós temos que colocar os 40% de brasileiros que estão fora, com o desenvolvimento industrial, na economia, distribuindo renda e investindo mais. Querem que os trabalhadores façam sacrifício e o andar de cima não vai fazer? Porque, na hora em que você fala em cobrar Imposto de Renda, ou cobrar imposto sobre lucro e dividendo, eles dizem que o capital vai fugir do Brasil. Começam a bater às portas da Justiça para não pagar”.

Para Dirceu, a meta de inflação de 3% é “irreal”.

“Eu fico olhando o Canadá. A meta é 2%, mas com menos 1 e mais 3, então é 5%. No Brasil, nós fizemos a meta de 3%, com [tolerância de] 1,5 para baixo ou para cima. Sendo que, se eu tivesse mantido a meta de 4,5%, nós teríamos conseguido crescer esses anos com uma Selic de 7%, 8%, que é o dobro da inflação. Nenhum país do mundo paga o dobro da inflação”.

“Nós temos uma meta irreal de 3% em uma economia sob choque de guerras, indexada com essa renúncia fiscal, com essa estrutura tributária que concentra a renda”, apontou Dirceu.

José Dirceu é contra a PEC 65/2023, que propõe a autonomia financeira do BC.

“Você transformar o Banco Central num quarto poder, com relação direta com o Senado, fora do Orçamento da União, não precisa disso. E ainda mais, podendo usar essa senhoriagem como fundo? Uma coisa é investir no Banco Central, aumentar os salários; outra é criar uma entidade completamente inconstitucional”.

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