Estudantes da USP protestam contra juros altos durante palestra de Galípolo: Selic 14,7% é roubo

Estudantes da Universidade de São Paulo (USP) realizaram um protesto nesta sexta-feira (10) contra a elevada taxa de juros na presença do presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo. O presidente do BC estava na Faculdade de Economia e Administração (FEA-USP), onde iria realizar uma palestra no local.

Os estudantes do coletivo Um novo dia na USP criticaram a autoridade monetária pela elevada taxa básica de juros (Selic) no país, atualmente em 14,75% ao ano. A elevação da Selic é o principal instrumento dos bancos centrais para combater a inflação.

Em sua última reunião para definir os juros, em março, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual – foi o primeiro corte em quase dois anos.

O grupo estendeu uma faixa no caminho por onde Galípolo passaria com os dizeres “Selic 14,7% é roubo – juros + ciência + educação”. Galípolo, alvo do protesto, evitou entrar pela portaria principal da faculdade e entrou pelo estacionamento.

Para Lucca Gidra, estudante da FEA-USP e um dos organizadores da manifestação, afirmou que o ato foi necessário para colocar em pauta a discussão da alta taxa de juros que assola o país.

“É inadmissível a postura do Banco Central, que está fazendo um rombo nas contas públicas com pagamento de juros. O país bateu o recorde! O gasto com juros passou de mais de R$ 1 trilhão, equivalente a 8% do PIB. Nós vemos um recorde na inadimplência no último mês, onde saíram relatórios no Serasa falando de 81 milhões de brasileiros inadimplentes e 8 milhões de empresas inadimplentes. Então nós estamos passando por um momento onde a economia do Brasil está cheia de problemas por conta dos juros, e o Banco Central não muda a sua posição, escolhe ficar passando bilhões e bilhões de reais pro bolso de rentistas, enquanto esfola toda a população brasileira, toda a economia brasileira, todo o setor produtivo brasileiro em detrimento de alto lucro para rentistas”, disse Lucca.

“Esse protesto, hoje, foi nesse sentido de falar pro Gabriel Galipolo, discutir junto e conversar junto com os estudantes sobre a questão da taxa de juros e desmistificar toda a argumentação que o Banco Central enfatiza. Não existe problema de inflação que o Banco Central apresenta, não existe o problema de combustível que o Banco Central apresenta, não existe o problema de déficit público que o Banco Central apresenta. Isso daí é tudo discursinho para ficar mantendo uma alta remuneração para os rentistas à custa de toda a população brasileira”, afirmou Lucca.

O estudante Thomas Luchessi destacou a necessidade de se alterar a meta de inflação que restringe o desenvolvimento nacional. “É urgente aumentar a meta de inflação, reduzida arbitrariamente pelo CMN desde 2019 até 2024. Não podemos aceitar que os trabalhadores e as empresas sejam punidos por choques externos em um período tão caótico”.

“Além disso, já é amplamente estabelecido que a taxa de juros é um instrumento pouco eficaz para controlar a inflação no Brasil. Por que não estabelecemos controles de capitais para reduzir a volatilidade cambial ou estabelecemos controles de preços em bens essenciais? O combate à inflação vai além da taxa de juros”, destacou.

RECORDISTAS EM JUROS ALTOS

O material produzido pelos estudantes da USP critica duramente a manutenção da alta taxa de juros real no Brasil, atualmente a segunda mais alta do mundo sob a gestão de Galipolo.

Os estudantes argumentam no material que essa política recessiva tem impactos devastadores na economia e na vida das pessoas, apontando dados como 81 milhões de inadimplentes, 8,9 milhões de empresas endividadas, 31% dos negócios ativos sem conseguir pagar suas dívidas e um gasto público com juros que atingiu R$ 1,036 trilhão, o equivalente a 8,07% do PIB.

Ainda, eles contestam a justificativa de que os juros altos são necessários para controlar a inflação, afirmando que a inflação brasileira recente é majoritariamente de custos, provocada por guerras e eventos climáticos extremos e não de demanda, tornando os juros ineficazes.

Dessa mesma forma, o texto também critica a perda de soberania energética do Brasil, com a venda de refinarias e da BR Distribuidora no governo Bolsonaro, que elevou os preços dos combustíveis. Os estudantes mencionam ainda o déficit nominal brasileiro de 8,48% do PIB, o segundo maior do mundo.

Por fim, o movimento discute como alternativa, a defesa de um novo projeto nacional de desenvolvimento, apontando que países como China, Índia e Japão mantiveram juros reais baixos ou negativos, e sugerem políticas de estoques reguladores, controle de capitais, metas de inflação mais realistas e combate direto às causas da inflação. Os juros altos beneficiam apenas a classe de rentistas, enquanto inviabilizam o desenvolvimento do país e esmagam economicamente a população que trabalha com atividades produtivas.

Veja o material na íntegra:

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *