Amigo de Vorcaro, do falido Banco Master, apareceu com colete à prova de balas e disse, cinicamente, que irá combater o crime organizado
Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, em ato esvaziado na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, inaugurou sua campanha eleitoral ao velho estilo do clã: com colete à prova de balas e adornado pela bandeira dos Estados Unidos, ainda que, de forma dissimulada, estampasse em sua camiseta a frase “meu partido é o Brasil”.
Os pronunciamentos que antecederam a chegada do candidato da extrema-direita centraram-se na tentativa de conquistar o eleitorado feminino, cuja expressiva maioria, comprovada pelas pesquisas, indicam o voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O motivo é muito simples: o postulante do PL, assim como os demais integrantes do clã, nunca valorizou a presença da mulher na política, muito pelo contrário. Tanto que um dos porta-vozes do bolsonarismo, o jornalista Paulo Figueiredo, neto do ex-ditador João Figueiredo, não escondeu, muito recentemente, sua opinião sobre o voto das mulheres: “elas votam mal”, afirmou, dos EUA, onde se encontra junto com o irmão de Flávio, Eduardo, conspirando contra o Brasil e instigando o governo de Donald Trump em medidas lesivas ao país e à sua economia.
Além disso, numa conversa vazada à imprensa com Valdemar da Costa Neto, o chefe do PL, sobre a escolha do seu vice, Flávio levou várias opções, todos homens. Os primeiros foram o deputado Zé Trovão e o delegado Caveira. A escolha acabou recaindo em um homem, mesmo, o senador Alfredo Gaspar, sobre quem pairam denúncias de estupro de uma adolescente.
O ato em Copacabana também foi marcado por várias menções a Jair Bolsonaro. “Volta, Bolsonaro”, esbravejou várias vezes o apresentador do evento, numa referência ao ex-mandatário, hoje em prisão domiciliar após condenação por vários crimes contra a democracia.
A bandeira dos Estados Unidos também não faltou na manifestação, como também durante as que embalaram as campanhas de Jair Bolsonaro. Afinal, o clã nunca escondeu seu alinhamento, crônico e doentio, com a administração de extrema-direita de Trump. Flávio, muito recentemente, desesperado com os resultados desfavoráveis das pesquisas de opinião, foi a Washington pedir socorro ao atual inquilino da Casa Branca, com quem foi fotografado numa cena em que mais parecia um serviçal.
Servilismo a Trump e apoio às ações contra o Brasil, como os frequentes tarifaços, é o que não tem faltado nas ações e declarações do clã, como ao atual candidato do PL.
Os discursos também foram recheados por ataques aos direitos das minorias.
Flávio Bolsonaro estava acompanhado da esposa, Fernanda, de Gaspar e do candidato ao governo do Estado, Douglas Ruas, também do PL, que, na última pesquisa, obteve apenas 11% das intenções de voto contra mais de 48% do atual prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. Neste domingo (16), o senador Romário anunciou sua desfiliação do PL e o apoio a Paes – mais uma reviravolta para a campanha do PL.
SERVIÇAL DE TRUMP E AMIGO DE VORCARO DIZ QUE VAI COMBATER AO CRIME ORGANIZADO
O candidato procurou associar os temas soberania e segurança pública em seu pronunciamento, criticando suposta leniência do atual governo em relação ao crime organizado e às facções criminosas, as mesmas que o governo Trump caracterizou como “terroristas” para tentar justificar ações contra o Brasil. O governo Lula é contrário à designação das facções brasileiras pelos riscos que representa à soberania brasileira sobre seu território e potencial impacto na economia e no setor financeiro.
O discurso cai no vazio diante das inúmeras ações da gestão do presidente Lula, sob o comando da Polícia Federal e da Receita Federal, entre as quais se destaca o programa Brasil Contra o Crime Organizado, que prevê investimentos superiores a R$ 11 bilhões, dentro de uma estratégia de asfixia financeira de facções e combate a crimes de colarinho branco e lavagem de dinheiro que beneficiam poderosos grupos econômicos, notadamente os do setor financeiro.
Cinicamente, disse que o governo briga com um país a 10 mil quilômetros de distância, em referência aos EUA, mas que não briga com traficante. Chegou a dizer que “perdemos a soberania”, mesmo diante de tantas demonstrações de submissão ao governo Trump, dele e do clã, e da postura altiva do presidente Lula frente às recorrentes ameaças dos Estados Unidos contra o país.
Mas Flávio Bolsonaro se referia a outra “soberania” quando pronunciou a palavra: “não temos mais soberania sobre nosso celular, nosso carro, sua bolsa, nossa casa”, esbravejou, buscando, inutilmente, impingir terrorismo no eleitorado.
O capacho da Casa Branca não escondeu sua intenção de classificar milícias como organizações terroristas, alinhando-se abertamente ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, fiel escudeiro de Trump, com quem também se reuniu na capital norte-americana. Rubio, filho de cubanos desertores, é um notório anticomunista que nunca escondeu sua preferência pelo candidato da extrema-direita que disputa o pleito no Brasil e, sempre que pode, não poupa declarações e ações que configuram flagrante intromissão nos assuntos internos do país.
Mas quem conhece bem o crime organizado e seus próceres é Flávio Bolsonaro. Tudo começou quando o atual candidato do PL era deputado estadual no Rio de Janeiro, quando estruturou seu gabinete com reconhecidos integrantes de facações criminosas, que promoveram um esquema conhecido como “rachadinha”. O mais proeminente deles, Adriano da Nóbrega, ex-capitão do BOPE, líder da milícia “Escritório do Crime” chegou a receber moção de louvor da Assembleia Legislativa do Rio por iniciativa de Flávio Bolsonaro, que também condecorou o miliciano com a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria do estado, mesmo no período em que o policial estava preso, respondendo por homicídio.
Além disso, ainda está muito fresco na memória dos brasileiros a ligação de Flávio com o líder da maior organização criminosa do setor financeiro, Daniel Vorcaro, o todo poderoso banqueiro do liquidado Banco Master, a quem pediu a bagatela de R$ 134 milhões para financiar o filme biográfico Dark Horse, sobre seu pai. A cobrança de parcelas e os diálogos íntimos, revelados nos áudios investigados da Polícia Federal, escancararam quem é o candidato, hoje, do crime organizado no país, e do mais danoso de todos, o que atua no setor financeiro para lesar, como lesou, milhões de aposentados e pensionistas.
O bordão escolhido pelo candidato na campanha, “o Brasil vai vencer”, também se esvazia diante de todos esses fatos. Sua eleição, cada vez menos provável, como mostram as pesquisas, significaria a submissão total aos interesses apodrecidos do governo Trump no Brasil e em toda América Latina, e um prêmio aos milicianos que ele diz, hipocritamente, combater.











