Os Estados Unidos registraram 2.318 casos confirmados de sarampo neste ano até o momento, informou o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) nesta sexta-feira (24), representando o maior recorde da doença no país em 35 anos e configurando uma situação de epidemia ou múltiplos surtos graves.
Desse total, 2.302 casos foram notificados por 45 jurisdições e 16 foram identificados entre visitantes internacionais nos EUA até a última quinta-feira. O país havia registrado 2.289 casos confirmados em 2025.
O sarampo é um vírus altamente contagioso que causa febre e erupções cutâneas. Ele pode ser prevenido com a vacina tríplice viral, que oferece forte proteção com duas doses.
Porém, os EUA têm passado por vários surtos graves de sarampo durante o mandato do secretário de Saúde nomeado por Donald Trump, Robert F. Kennedy Jr., que tem promovido repetidamente a alegação de que as vacinas contra o sarampo estão ligadas ao autismo, apesar das evidências científicas esmagadoras que negam esse mantra negaciconista.
“Alcançar esse marco é particularmente impressionante porque ainda estamos em julho, e casos de sarampo continuam sendo registrados em todo o país, com surtos na Virgínia e na Pensilvânia”, disse William Moss, professor de Epidemiologia da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg.
“INFORMAÇÕES OFICIAIS ENGANOSAS”
O CDC informou que 35 surtos foram registrados até agora em 2026, em comparação com 48 no ano passado.
“Desde o início do ano passado, as autoridades federais têm minimizado o sarampo, considerando-o benigno e inevitável, e divulgam informações enganosas sobre a vacina tríplice viral”, afirmou Andrew Racine, presidente da Academia Americana de Pediatria, condenando que se oponham a obrigações governamentais de vacinação.
“Na metade de 2026, os EUA estão passando pelo pior ano em relação ao sarampo desde 1991. Estamos testemunhando uma crise evitável que afeta desproporcionalmente as crianças”, constatou Racine.
“Esse número é consequência dos surtos ocorridos no início do ano, especialmente na Carolina do Sul e em Utah”, acrescentou William Moss, professor de epidemiologia da Escola de Saúde Pública Bloomberg, da Universidade Johns Hopkins, citado pelo Washington Post.
O surto na Carolina do Sul, que começou em outubro de 2025 e afetou quase 1.000 pessoas ao longo de seis meses, foi o maior surto em um único local nos EUA desde que a doença foi declarada erradicada em 2000, em grande parte devido ao uso generalizado da vacina segura e eficaz contra sarampo, caxumba e rubéola (tríplice viral ou MMR).
Esse status de erradicação está agora sob revisão em um processo bem lento, com a Organização Pan-Americana da Saúde adiando uma decisão até novembro.
Segundo a médica Anne Sénéquier, codiretora do Observatório da Saúde Global do Instituto Francês de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris), um artigo publicado na revista The Lancet em 2000 despertou a desconfiança de parte da população em relação à vacina.
A pesquisa estabelecia uma ligação entre a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) e o autismo. “A difusão foi facilitada pela popularização da internet”, explica a pesquisadora. O estudo foi retirado da publicação por fraude científica e falhas metodológicas, mas era tarde demais.
A ‘fake news’ continuou se espalhando, impulsionada por diversos grupos e personalidades antivacina. Entre eles está o secretário de Saúde dos Estados Unidos, Robert Kennedy Jr. Em 2011, ele fundou a organização Children’s Health Defense, apontada como responsável por 54% do conteúdo antivacina publicado no Facebook em 2020.










