A recém empossada presidente peruana Keiko Fujimori escolheu um ex-funcionário da Embaixada dos EUA em Lima por 15 anos, um certo Carlos Espá, como o novo chanceler do país, enquanto o coração dos fujimoristas segue em Miami mas a carteira suspira por Pequim. Ex-apresentador de televisão, Espá foi entre 2008 e 2023 diretor de comunicação da embaixada americana.
Fujimori também anunciou para a presidência do Conselho de Ministros seu vice, Luis Galarreta, e ao economista Elmer Cuba (ex-diretor do Banco Central) para a pasta da economia e finanças. Segundo o jornal peruano La Republica, 15 dos novos ministros têm “histórico de corrupção”.
Na terça-feira (28), Keiko, filha do já falecido ditador Alberto Fujimori e que foi condenado a 25 anos de prisão por crimes contra a humanidade e corrupção, assumiu a presidência em pleno dia da Independência do Peru, em meio a protestos, e se tornou a nona presidente em uma década, depois de sucessivos impeachments e prisão de presidentes.
Vencedora por menos de 50 mil votos, em 20 milhões de votantes, sobre Roberto Sánchez, cuja candidatura acabou sendo o escoadouro da enorme rejeição a Fujimori e aos males que causou ao Peru durante uma década, a herdeira Keiko admitiu que o país está “dividido” e no discurso de posse prometeu “restaurar a ordem”, “tomar medidas preventivas contra o fenômeno El Niño” e disse ter recebido um país “debilitado pela corrupção”.
Quando foi proclamado o placar final da eleição, ela admitira que o Peru “está praticamente dividido” e “temos o dever de ouvir os dois lados”. Keiko anunciou ainda que irá lançar os militares no combate ao crime organizado.
Após tomar posse, a Fujimori terá de enfrentar a crise de segurança pública que afeta o país andino, prevenir as ameaças do fenômeno climático El Niño e superar a grave instabilidade política que levou o Peru a ter oito presidentes em uma década. O que vem ocorrendo desde que o partido dela, Força Popular, alcançou a maioria no parlamento e, usando a constituição deixada pelo ditador e não revogada, dedicou-se a implodir qualquer governo que saísse de seu controle.
Manifestantes em Lima, muitos deles familiares das vítimas da ditadura, concentraram-se em frente ao Palácio de Justiça em Lima para expressar sua rejeição ao retorno do fujimorismo ao poder, exibindo fotos dos seus mortos, velas e faixas. Presentes ainda parentes dos mortos nos protestos de 2022 e 2023, quando da destituição do presidente Pedro Castilho pelo parlamento.
No ato, os manifestantes relembraram que Alberto Fujimori, chefes militares e policiais foram condenados por desaparecimentos forçados, execuções extrajudiciais, tortura e esterilizações forçadas.
‘ESCUDO DAS AMÉRICAS’
Durante a campanha, a Fujimori anunciou a disposição de ingressar no clube de capachos que atende pelo apelido de “Escudo das Américas”, ao lado de Javier Milei, Daniel Noboa e assemelhados.
Na véspera, ela recebeu uma delegação americana liderada pelo vice-secretário de Estado, Christopher Landau, e pelo embaixador em Lima, Bernie Navarro. Depois da reunião, o embaixador declarou que as relações entre Peru e Estados Unidos vivem “um novo amanhecer”.
Anteriormente, ela prometera “motivar os Estados Unidos a voltarem a participar mais ativamente na economia peruana”. “A América Latina está girando para uma corrente na qual se prioriza a liberdade, os investimentos e recuperar o controle e a segurança”, afiançou.
Como denunciou a ex-candidata Veronika Mendoza (no pleito de 2021), os EUA estão tentando “recuperar terreno com uma política intervencionista descarada. Eles vão ‘modernizar’ a Base Naval de El Callao, nos obrigaram a comprar US$ 3,5 bilhões em aviões de guerra e nos fizeram assinar um memorando de entendimento para garantir a eles nossos minerais estratégicos”.
CHINA, PRINCIPAL PARCEIRO HÁ 12 ANOS
Na posse, a China esteve representada por Yin Hejun, seu ministro da Ciência e Tecnologia e enviado especial do presidente Xi Jinping. Na véspera, ele se reuniu com a nova presidente para reafirmar o compromisso de Pequim com o aprofundamento da parceria bilateral.
A China se tornou o principal parceiro comercial do Peru e o principal investidor, tendo erguido o megaporto de Chancay, que transforma a nação andina no principal hub logístico da América do Sul para a Ásia e que corta o tempo de viagem para em torno de 23 dias. Possui calado profundo de quase 18 metros, permitindo receber os maiores navios porta-contêineres do mundo, que não passam pelo Canal. de Panamá.
Concebido como parte da Nova Rota da Seda, o projeto é liderado pela companhia marítima estatal chinesa Cosco Shipping Company e com investimentos totais estimados em US$ 3,4 bilhões. O presidente Xi Jiping esteve pessoalmente na sua inauguração em 2024.
32% das exportações peruanas têm como destino a China, com forte predominância de minerais (como cobre e ferro) e produtos do setor agroexportador. 29% de tudo o que o Peru compra de fora vem da China, incluindo produtos industriais, eletrônicos e bens de consumo. Os dois países assinaram um acordo de livre comércio em 2009, atualizado em 2024.
MAURO VIEIRA REPRESENTA O BRASIL
O Brasil esteve representado pelo chanceler Mauro Vieira, que lhe entregou uma carta do presidente Lula convidando-a a visitar o país.
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, confirmou que seu governo tem mantido conversas com a presidente Keiko Fujimori na esperança de normalizar as relações entre os dois países, que estão cortadas após recusa, por Lima, do salvo-conduto para a ex-presidente do Conselho de Ministros do deposto governo Castilho, Betssy Chávez, que pedira, e recebera, asilo do México, como é da tradição latino-americana.
“Obviamente, queremos que a pessoa que está em nossa embaixada, que atualmente está sob proteção brasileira, tenha salvo-conduto para vir ao México. Veremos como isso se desenvolve”.
REVOGAR A CONSTITUIÇÃO DA DITADURA
Em sua campanha, Roberto Sánchez, do partido Juntos pelo Peru, chamou à refundação constitucional do Peru, que ainda vive sob a constituição da ditadura, clamando por um referendo para convocar uma Constituinte. Ele também propôs industrializar e desenvolver o país. Ex-ministro de Pedro Castilho, ele afirmou que a proclamação de Keiko “não faz dela uma democrata, ainda mais com seu histórico”.
Em relação às eleições, Sánchez afirmou que venceu dentro do Peru por cerca de 26.000 votos, tendo prevalecido em 17 províncias, contra 7 da Fujimori, e que o resultado favorável à filha do ditador foi obtido através da quebra das normas de votação dos peruanos que vivem no exterior entre o primeiro e o segundo turnos.
“No primeiro turno, havia regras, era obrigatório digitalizar as atas de apuração assim que a eleição terminasse. Para este segundo turno, essa exigência foi retirada dos consulados”, afirmou.
“(Nos votos no exterior) não foram mais utilizadas malas diplomáticas, a cadeia de custódia não foi seguida e a exigência de digitalização da folha de apuração, que proporciona segurança jurídica de que a vontade do povo foi respeitada, foi eliminada”.
O candidato enfatizou a natureza pacífica das manifestações que liderou. “A resistência sempre se dá dentro da estrutura da democracia, da lei e do respeito à vida e aos direitos constitucionais. O protesto pacífico e a mobilização pacífica são direitos constitucionais”, observou.
Após divulgação de relatório de Grupo de Trabalho da ONU que qualificou a prisão do ex-presidente Castilho como “arbitrária”, ele liderou em julho marchas em Lima por sua libertação e condicionou qualquer diálogo formal com o governo a medidas de reparação e ao fim do encarceramento do ex-mandatário.
POBREZA AUMENTA 38% EM CINCO ANOS
Apesar do turbilhão político desses dez anos, o Peru cresceu em média a 3,5%. Ancorada na alta dos preços do ouro e do cobre, as duas principais fontes de divisas, a economia tem crescido, mas 60% da força de trabalho vive na informalidade. O país sequer conseguiu retornar aos níveis de pobreza e emprego formal anteriores à pandemia de Covid, segundo o diretor do BC peruano, Diego Maceda, citado pela BBC. Em 2019, 20% dos peruanos viviam em situação de pobreza e este índice atingiu 27,6% em 2024. E o Instituto Nacional de Estatísticas e Informática do país indica que a renda real formal em 2024 também não retornou aos níveis de 2019.











