Linhas da CPTM privatizadas por Tarcísio registram falhas no primeiro dia de operação da concessionária

Multidão se aglomera na estação Brás na tentativa de voltar para casa - Fotos: Reprodução/X

Apesar dos bilhões de reais investidos pela CPTM para modernizar as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, a estreia da Trívia Trens escancarou os problemas do modelo de privatização adotado pelo governo Tarcísio de Freitas (Republicanos). No primeiro dia de operação da concessionária, nesta segunda-feira (20), passageiros enfrentaram falhas operacionais, falta de informações nas estações e a própria CPTM precisou manter funcionários para dar suporte à operação.

O cenário de caos contrasta com o discurso do atual governo de que a concessão à iniciativa privada traria mais eficiência ao sistema e ganha ainda mais relevância diante de um levantamento publicado pelo portal especializado Plamurb, que mostra que as linhas entregues à concessionária receberam, ao longo de mais de três décadas, pesados investimentos públicos em trens, estações e infraestrutura.

Segundo reportagem do G1, passageiros encontraram painéis eletrônicos apagados nas estações Brás, Luz e Barra Funda, algumas das mais movimentadas da rede. No Brás, por onde passam cerca de 150 mil passageiros diariamente, os equipamentos permaneceram desligados ou exibindo telas em branco. Na Luz, com aproximadamente 110 mil embarques por dia, funcionários da Trívia Trens passaram a atuar nas áreas da concessionária, enquanto empregados da CPTM permaneceram na operação da Linha 10-Turquesa, dando suporte à transição. Já na Barra Funda, que concentra cerca de 260 mil embarques diários, usuários relataram alterações na operação das plataformas. 

No fim da tarde, a própria concessionária foi obrigada a admitir que a situação resultou na redução de velocidade e aumento do tempo de parada dos trens da Linha 12-Safira em consequência de uma falha na Estação Brás.

INVESTIMENTO BILIONÁRIO DA CPTM

Os transtornos registrados logo na estreia contrastam com o amplo histórico de investimentos realizados pela CPTM nas três linhas. Em levantamento publicado nesta semana, o portal especializado Plamurb mostra que os ramais concedidos à iniciativa privada passaram por um processo contínuo de modernização desde que a companhia assumiu sua operação, em 1994. Ao longo de mais de 30 anos, a estatal renovou praticamente toda a frota, reconstruiu estações, ampliou a malha ferroviária e executou grandes obras de infraestrutura, todas financiadas com recursos públicos.

O estudo chama atenção para uma das principais contradições do modelo adotado pela Gestão Tarcísio: embora a operação tenha sido entregue à iniciativa privada, os investimentos continuam sendo majoritariamente bancados pelo Estado. Segundo o Plamurb, apenas a contraprestação fixa prevista no contrato de concessão alcançará R$ 1,5 bilhão por ano, totalizando cerca de R$ 37,5 bilhões ao longo dos 25 anos de vigência do contrato, sem considerar eventuais reequilíbrios financeiros.

O levantamento mostra ainda que a CPTM deixou para a concessionária uma infraestrutura amplamente modernizada. Entre os principais investimentos estão a aquisição das séries 2000, 7000, 8500, 9000 e 2500, que renovaram praticamente toda a frota das linhas 11, 12 e 13. Também foram reconstruídas ou modernizadas estações como Ferraz de Vasconcelos, Poá, Suzano, São Miguel e Engenheiro Manoel Feio, além da construção da Linha 13-Jade, inaugurada em 2018 após investimento de R$ 2,2 bilhões para ligar a capital ao Aeroporto Internacional de Guarulhos.

O Plamurb também destaca obras de ampliação do Expresso Leste, implantação de novas estações, modernização da via permanente e a construção do Centro de Controle Operacional (CCO) do Brás, considerado, à época de sua inauguração, o mais moderno da América Latina. Somam-se ainda dezenas de contratos de manutenção, substituição de trilhos, dormentes, rede aérea e sistemas de sinalização, que sequer entram na conta final apresentada pelo estudo.

Considerando apenas os investimentos cuja documentação foi localizada, o portal calcula que a CPTM aplicou aproximadamente R$ 6,4 bilhões em valores da época. Corrigido para valores atuais, esse montante chega a cerca de R$ 14,1 bilhões. O próprio Plamurb ressalta que esse valor representa apenas uma parcela do total investido pela companhia ao longo de sua história, já que diversas intervenções de manutenção e modernização permanente não puderam ser contabilizadas.

Na avaliação do Plamurb, a concessão das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade evidencia que a iniciativa privada não assumirá o custo da modernização do sistema, como sustenta o governo paulista. A Trívia Trens recebe uma malha ferroviária amplamente modernizada pela CPTM com dinheiro público e continuará contando com vultosos repasses do Estado durante toda a vigência do contrato.

Os problemas registrados já no primeiro dia de operação – com painéis apagados, falhas operacionais e necessidade de apoio de funcionários da própria CPTM nas estações – reforçam os questionamentos sobre a política de privatizações do bolsonarista Tarcísio de Freitas e seus efeitos para a população usuária do transporte ferroviário.

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