Mais de 12 mil armas de fogo registradas em nome de Colecionadores, Atiradores e Caçadores (CACs) foram perdidas, furtadas ou roubadas no Brasil entre janeiro de 2022 e julho de 2025. Foram 12.054 ocorrências no período, segundo levantamento divulgado pelo R7. Em 5.387 casos, as armas foram declaradas perdidas; outras 4.864 foram furtadas e 1.803, roubadas. O levantamento não informa o destino posterior dos armamentos.
O número chama atenção diante do tamanho do arsenal mantido por CACs no país. São mais de 1 milhão de atiradores registrados e cerca de 1,7 milhão de armas cadastradas. O desaparecimento desses armamentos ocorre em um cenário no qual pesquisas recentes apontam que parte das armas que chegam ao mercado ilegal tem origem no próprio mercado legal.
É o que mostra uma análise de Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz, e Carolina Ricardo, diretora-executiva da entidade, publicada pelo projeto Pensando o Direito, da Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O estudo reúne dados nacionais de apreensões entre 2021 e 2025 e aponta mudanças no volume, no tipo de armamento e na distribuição territorial das armas apreendidas.
Em 2025, foram apreendidas 107.746 armas de fogo no país, segundo os pesquisadores, o segundo maior número da série iniciada em 2021. O estudo identifica três principais fontes de abastecimento do mercado ilícito: desvios do mercado doméstico legal, tráfico internacional e fabricação clandestina.
“O mercado legal nacional é a fonte predominante de armas para o crime”, apontam os pesquisadores ao analisar a origem dos armamentos apreendidos. Entre os mecanismos de desvio estão armas adquiridas legalmente por civis, empresas de segurança e CACs que posteriormente chegam ao crime por meio de furtos, roubos ou da utilização de pessoas interpostas, as chamadas “laranjas”.
A análise mostra que o fenômeno ganhou uma nova dimensão nos últimos anos. Segundo Langeani e Carolina Ricardo, o mercado ilegal brasileiro passa por uma “substituição de importações”: organizações criminosas passaram a encontrar dentro do próprio país parte do armamento que antes buscavam principalmente por meio de rotas internacionais. “Ao encontrar um mercado interno legal flexibilizado e ‘aberto’, as facções puderam priorizar o abastecimento doméstico em detrimento das rotas transnacionais”, afirmam.
De acordo com eles, a mudança reduz custos e riscos para as organizações criminosas. A aquisição por meio de intermediários elimina parte da logística do contrabando e diminui o risco de interceptação nas fronteiras. Ao mesmo tempo, o acesso ampliado a armamentos modernos no mercado nacional tornou o abastecimento doméstico mais eficiente para o crime organizado.
Além da quantidade, o levantamento aponta uma mudança no perfil do armamento apreendido. Entre 2021 e 2025, a participação dos revólveres caiu de 38,6% para 33,5%, enquanto a das pistolas subiu de 20,7% para 27,8%. Os fuzis, embora ainda representem uma parcela pequena das apreensões, mais que dobraram sua participação, de 0,7% para 2%.
A distribuição regional também mudou. O Sudeste, que concentrava 41% das armas apreendidas em 2021, passou a responder por cerca de 36% em 2025. No mesmo período, a participação do Nordeste cresceu de 25% para 33%. Para os pesquisadores, o movimento está relacionado à expansão de facções nacionais, disputas territoriais e novos arranjos do crime organizado.
A análise chama atenção ainda para os efeitos sociais desse mercado. “Tal fenômeno impacta severamente a saúde pública, sobrecarrega os serviços de assistência, distorce padrões de investimento e reduz a capacidade produtiva nacional”, afirmam os autores.
Conforme estimativas citadas no estudo, cerca de 40 mil brasileiros morrem anualmente em decorrência de disparos de armas de fogo, responsáveis por 72,4% dos homicídios. Os custos sociais da violência, de acordo com a análise, chegam a aproximadamente 5,9% do Produto Interno Bruto (PIB).
A situação atual também é resultado de uma mudança ocorrida durante o governo Jair Bolsonaro, quando decretos e outras normas ampliaram o acesso de civis a armas e munições e flexibilizaram regras para CACs.
O crescimento do número de armas em circulação naquele período foi acompanhado pela expansão dos registros de CACs e pela ampliação das possibilidades de aquisição de armamentos e munições. A Hora do Povo denunciou reiteradamente que a política de ampliação indiscriminada do acesso a armas criava condições para desvios e para o abastecimento do crime organizado.
A pesquisa do Sou da Paz ajuda agora a dimensionar uma das consequências desse processo. O crescimento do mercado legal ampliou também o universo de armas que podem ser desviadas, furtadas ou roubadas e posteriormente incorporadas ao mercado clandestino.
No Sudeste, por exemplo, os pesquisadores identificaram uma mudança significativa nas armas apreendidas pelas polícias. Entre 2018 e 2023, as pistolas 9 mm passaram de 28,5% para 50,5% das pistolas apreendidas na região. O dado, segundo análise anterior do instituto, constitui um indicativo de que armas mais novas e modernas adquiridas no mercado legal passaram a aparecer com maior frequência no arsenal criminal.
Para os pesquisadores, apreender armas é apenas uma parte do trabalho. É necessário identificar sua origem e reconstruir o caminho percorrido até o mercado ilegal. “A apreensão das armas não pode ser o grande resultado das forças de segurança”, afirmam Langeani e Carolina Ricardo. Para eles, é preciso avançar na investigação sobre a origem dos armamentos, fortalecendo a inteligência policial e a capacidade de rastreamento.
Entre as medidas propostas estão a integração dos bancos de dados, o aperfeiçoamento dos sistemas de rastreamento e dos padrões de marcação das armas, a fiscalização baseada em risco e o fortalecimento das unidades especializadas das polícias.
Os autores também defendem que as investigações avancem sobre a cadeia financeira que sustenta o comércio ilegal. O objetivo é identificar não apenas quem portava a arma apreendida, mas quem a forneceu e como o armamento chegou ao mercado criminal.
O estudo chama atenção também para a fabricação clandestina de armas no país. Segundo os especialistas, desde 2023 investigações apontam a consolidação de estruturas de produção doméstica mais sofisticadas, inclusive de fuzis sem identificação válida de origem. A mudança cria novas dificuldades para o rastreamento. “Ao reduzir a dependência de peças externas traficadas, o crime organizado não apenas barateia seu arsenal, mas também cria um ‘ponto cego’ para o rastreamento”, afirmam.
Nesse contexto, as 12.054 armas de CACs registradas como perdidas, furtadas ou roubadas entre 2022 e 2025 representam um dado que precisa ser acompanhado. A pesquisa não aponta que esses armamentos tenham sido incorporados ao arsenal de organizações criminosas. O dado, porém, mostra que milhares de armas legalmente registradas deixaram de estar sob a posse de seus proprietários, sem que se saiba qual foi seu destino.











