Ex-ministra e candidata ao Senado pela Rede Sustentabilidade, em SP, classifica a medida do governo Trump como “injustificada” e “lastimável” e manifesta solidariedade à Maria Luiza Viotti
A ex-ministra do Meio Ambiente e candidata ao Senado por São Paulo pela Rede Sustentabilidade, Marina Silva, manifestou, na última quarta-feira (5), solidariedade à embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, após o truculento governo de Donald Trump anunciar a revogação do visto diplomático da representante brasileira em Washington.
Para Marina, a medida é injustificada e representa mais um episódio de deterioração das relações entre ambos os países provocada pelo governo trump.
“Quero manifestar minha plena solidariedade com a Embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Viotti, pela injustificada medida de revogação do seu visto diplomático anunciada pelo governo de Donald Trump”, escreveu Marina em publicação nas redes digitais.
A decisão americana foi anunciada na terça-feira (4) e elevou o grau de tensão já existente entre os governos brasileiro e americano. Segundo informações divulgadas sobre o episódio, Washington vinculou a medida à demora brasileira na aprovação do nome indicado por Trump para ocupar a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília, além de outras medidas adotadas pelo governo brasileiro.
A retirada do visto ocorre em contexto de sucessivos atritos entre Brasil e Estados Unidos. As relações bilaterais já haviam sido tensionadas por medidas comerciais e por divergências políticas envolvendo o governo brasileiro, o Judiciário e o processo eleitoral.
O novo episódio acrescenta dimensão diplomática à crise e coloca a representação brasileira em Washington no centro da disputa.
PRIMEIRA MULHER EM WASHINGTON
Marina também destacou a trajetória de Maria Luiza Viotti, primeira mulher a comandar a Embaixada do Brasil nos Estados Unidos.
A diplomata foi nomeada pelo presidente Lula (PT) em 2023, depois de ter a indicação aprovada pelo Senado. Antes de chegar a Washington, acumulou experiência em organismos multilaterais e em postos diplomáticos estratégicos, inclusive como chefe de gabinete do então secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.
Ao defender a embaixadora, Marina ressaltou não apenas a posição institucional ocupada por Viotti, mas também a atuação profissional da diplomata.
“A Embaixadora Maria Luíza é a primeira mulher que ocupa o mais alto cargo da diplomacia brasileira e, ao longo de mais de quatro anos, tem inalteravelmente demonstrado sua elevada competência profissional e admirável integridade pessoal a serviço da difícil gestão de uma das mais delicadas de nossas relações diplomáticas”, escreveu.
A referência de Marina à atuação de Viotti ganha peso diante da importância estratégica da relação entre Brasil e Estados Unidos.
Washington é um dos principais parceiros comerciais e políticos de Brasília, enquanto a relação bilateral envolve temas que ultrapassam comércio e tarifas, alcançando democracia, meio ambiente, direitos humanos, segurança, tecnologia e cooperação internacional.
Em 2023, ao assumir a embaixada, Viotti já havia destacado que Brasil e Estados Unidos não necessariamente concordariam em todos os temas, mas identificava convergências importantes, especialmente em torno da democracia e dos direitos humanos.
SOBERANIA E PROCESSO ELEITORAL
Na avaliação de Marina, o episódio torna-se ainda mais grave pelo contexto político em que ocorre. A ex-ministra relacionou a decisão americana ao conjunto de medidas adotadas pelo Brasil em defesa da soberania nacional e da integridade do processo eleitoral brasileiro.
“O recente episódio é ainda mais lastimável em razão do alegado pretexto de retaliação contra decisões tomadas pelo Brasil em defesa da soberania nacional e da qualidade de seu processo eleitoral reconhecida internacionalmente”, escreveu.
A manifestação ocorre em meio à escalada de medidas e declarações hostis de Washington contra o Brasil nos últimos meses. O governo Trump já havia adotado medidas de pressão contra autoridades brasileiras, enquanto o governo brasileiro passou a responder com tentativas de diálogo sem correspondência do governo americano.
A revogação do visto da embaixadora, nesse cenário, ultrapassa a dimensão individual e atinge diretamente um dos canais formais de representação diplomática do Brasil nos Estados Unidos. A medida também ocorre quando ambos os governos enfrentam dificuldades para manter interlocução estável.
APOSTA NO DIÁLOGO
Apesar das críticas, Marina defendeu saída diplomática para a crise. Em vez de aprofundar a escalada de retaliações, pediu a retomada do diálogo entre ambos os países.
“Faço votos para que o espírito de serenidade e equilíbrio que caracteriza as relações entre o Brasil e os Estados Unidos volte a prevalecer por meio de diálogo respeitoso capaz de conduzir a uma solução digna e mutuamente satisfatória para ambos os governos”, acrescentou.
A defesa de solução negociada ocorre num momento em que a relação bilateral atravessa uma das fases mais delicadas dos últimos anos, provocadas pela traição da família Bolsonaro. Em maio, Viotti havia avaliado como “positiva” a reunião entre Lula e Trump e afirmado que o encontro poderia abrir espaço para negociações comerciais, embora alertasse para a permanência de riscos relevantes na relação bilateral.
O episódio mais recente, contudo, evidencia que a agenda diplomática permanece submetida a fortes tensões políticas. Para além da disputa sobre vistos e nomeações diplomáticas, estão em jogo concepções distintas sobre soberania, relações comerciais, decisões judiciais e funcionamento das instituições democráticas.
Nesse ambiente, a manifestação de Marina procura separar a defesa das prerrogativas brasileiras da necessidade de preservar canais diplomáticos. Ao mesmo tempo em que classifica como “injustificada” a medida adotada pelo governo Trump e sai em defesa da embaixadora brasileira, a ex-ministra sustenta que a resposta à crise deve buscar “serenidade e equilíbrio”.
A questão central, portanto, deixa de ser apenas o destino do visto de Maria Luiza Viotti.
O episódio se transforma em mais um teste para a capacidade de Brasil e Estados Unidos administrarem divergências profundas sem permitir que a disputa política comprometa de forma permanente os mecanismos diplomáticos que sustentam a relação entre ambos os países.










