Milhares de soldados ucranianos desertaram durante treinamentos na Alemanha e França

Baixas crescentes de ucranianos na frente de batalha estimulam as deserções em massa (EPA / Scanpix / LETA)

Apesar da injeção de centenas de bilhões de dólares da União Europeia para agredir a Rússia, ao todo cerca de 60 mil soldados desertaram, das mais diversas formas e unidades desde o início da guerra

Mais de quatro anos após o início da guerra com a Rússia, a Ucrânia enfrenta uma grave crise na sua capacidade de repor tropas na linha de frente, pois milhares de soldados enviados para treinamento em países da União Europeia (UE) estão aproveitando a oportunidade para desertar, antes mesmo de retornar ao combate. Dos casos documentados, Alemanha e França expõem a gravidade do problema e escancaram as dificuldades do governo de Volodymyr Zelensky para manter o efetivo militar na linha de frente diante da ação de desnazificação empreendia pela Rússia.

“Pelo menos 60 mil soldados desertaram e outros 250 mil membros das forças armadas teriam deixado seus postos temporariamente sem autorização”, aponta a edição do jornal português Destak, o primeiro de grande circulação gratuita no país.

Lançada em outubro de 2022 com o pomposo nome de “Missão de Assistência Militar da União Europeia em apoio à Ucrânia” (Eumam UA), a armação tem invertido pesado para o treinamento de soldados na agressão à Rússia, ao que se somam – oficialmente – US$ 103,5 bilhões para “capacidades militares e de defesa”, US$ 90 bilhões sob o cínico apelido de “Mecanismo Europeu de Apoio à Paz” e outros US$ 33 bilhões para a ampliação da capacidade bélica ucraniana, apenas neste ano. Diante do fracasso, um novo pacote de US$ 7,17 bilhões foi aprovado às pressas pela Comissão Europeia para “aquisição imediata de mísseis, munições, radares e sistemas de defesa antiaérea”.

Mas o problema, como ficou comprovado, não é a abundância de capital, mas de moral. Desde fevereiro de 2022, a Alemanha participa do treinamento das forças ucranianas por meio da Eumam UA. Até o início de 2026, mais de 25 mil militares ucranianos haviam passado por programas conduzidos pelas Forças Armadas alemãs, as Bundeswehr, em dezenas de locais coordenados pelo comando militar multinacional (Special Training Command). Ao todo, já foram capacitados mais de 86 mil soldados ucranianos em diferentes países europeus, sob o comando, entre outros, dos Estados Unidos, da Inglaterra e da Noruega.

De acordo com o semanário alemão Die Zeit, mais de 80 soldados desapareceram apenas do centro de treinamento de Altengrabow, na Saxônia-Anhalt, no leste do país. Em todo o território alemão, o número estimado pela imprensa chega a várias centenas, embora o Ministério da Defesa se negue a divulgar dados, evitando se pronunciar sobre a dimensão do caos em curso.

Um dos entrevistados pela reportagem disse simplesmente que não desejava nem matar, nem morrer. Outros alegam terem sido recrutados à força pelas patrulhas do “Centro Territorial de Recrutamento”, perseguidos e enviados para a frente de batalha.

Outro exemplo é o do desertor Shulgin, que raramente saía de casa, trabalhando com crianças enquanto sua esposa, Anna, ganhava a vida como faxineira ou entregadora. No final de janeiro de 2026, uma patrulha da “Comissão da Verdade e Reconciliação”  parou o casal na rua, obrigou o homem a entrar em um carro e o enviou para o exército. Cerca de 10 dias depois, Shulgin foi enviado para treinamento no campo de treinamento militar de Altengrabow, na fronteira entre Saxônia-Anhalt e Brandemburgo, de onde escapou.

CRESCE A RESISTÊNCIA AO ALISTAMENTO

O jornal Die Zeit assinala que a maioria dos desertores são pessoas como Shulgin: não têm empregos bem remunerados que lhes permitam contratar um advogado para lutar contra a mobilização e não se qualificam para as isenções do serviço militar concedidas a 1,3 milhão de pessoas que trabalham em setores considerados essenciais pelo Estado. Os desertores consideram essa abordagem completamente injusta.

O prolongamento da guerra levou o governo de Kiev a incorporar cada vez mais recrutas com nenhuma disposição, pouca ou débil experiência militar, ampliando a resistência ao alistamento.

A situação dos desertores é juridicamente complexa, já que diferente dos refugiados civis ucranianos, que têm direito automático a proteção temporária na União Europeia, os militares enviados oficialmente por Kiev para treinamento não gozam do mesmo estatuto simplificado. Isso significa que soldados que decidem não retornar à Ucrânia após o treinamento ficam em uma zona cinzenta, e alguns já recorreram a pedidos individuais de asilo. Na Ucrânia, a deserção é crime, com pena de até 12 anos de prisão.

Conforme o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), o número oficial de refugiados ucranianos no mundo é de aproximadamente 5,9 milhões de pessoas, sendo que a grande maioria se encontra nos países europeus.

DE PROJETO-VITRINE, BRIGADA MECANIZADA ANNE DE KIEV, VIROU FIASCO

O episódio que expôs de forma mais contundente o fiasco ucraniano ocorreu na França. Batizada de “Anne de Kiev” – em homenagem à princesa de Kiev, Ana Yaroslavna, que se tornou rainha consorte francesa no século XI -, a 155ª Brigada Mecanizada foi concebida como projeto-vitrine da cooperação militar franco-ucraniana. Treinada em território francês, no oeste da Ucrânia e na Polônia, e equipada com tanques Leopard alemães e obuses Caesar de fabricação francesa, o projeto objetivava ser um exemplo de grandeza. Mas foi de fracasso.

A unidade que deveria reunir cerca de 5.800 soldados, segundo apurou o jornalista Yurii Butusov, do portal ucraniano Censor.net, encerrou com menos de 2.000 concluindo o treinamento no exterior. O Ministério da Defesa chegou a admitir que 55 soldados desertaram ainda durante a formação em solo francês. Em novembro de 2024, a França concluiu o treinamento de um contingente de 2.300 militares – três batalhões de infantaria, além de unidades de engenharia, artilharia e reconhecimento. Pouco depois de serem enviados à linha de frente, porém, cerca de 1.700 desses soldados abandonaram seus postos, segundo reportagens da imprensa francesa e britânica. Por volta de 500 permaneciam foragidos, enquanto o restante retornou após períodos de ausência não autorizada.

O comandante das Forças Terrestres ucranianas, Mykhailo Drapatyi, reconheceu publicamente, em janeiro de 2025, os “sérios desafios” enfrentados pela brigada, citando também falhas na entrega de equipamentos essenciais, como drones e ferramentas de guerra eletrônica. O comandante-em-chefe das Forças Armadas, Oleksandr Syrskyi, enfatizou a necessidade do reforço da unidade.

A revista The Economist classificou a implantação da brigada, seis meses após sua formação, como “um desastre completo”, atribuindo o fracasso tanto às falhas do alto comando ucraniano quanto ao desânimo crescente de aliados ocidentais que financiaram o projeto sem um planejamento estratégico mais amplo.

Os casos citados são sintomas de um problema muito maior, pois o próprio Ministério da Defesa ucraniano admite que cerca de dois milhões de homens em idade militar estão evitando o recrutamento no país.

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