Uma palestra no Centro Cultural Árabe Sírio (pouco depois fechado em meio ao ataque fomentado pelos EUA contra o governo de Bashar Al Assad) sobre o filósofo Ibn Khaldun foi, das diversas intervenções do camarada Lejeune Mirhan, a que mais gostei e mais ensinamentos me trouxe.
Depois disso, Lejeune escreveu matérias sobre aquele que ele designou como o “Pai da Sociologia”, inclusive uma delas publicada no jornal Vermelho, em 16 de abril de 2024, com uma introdução que expressa a principal preocupação de Lejeune ao se dedicar ao estudo de Khaldun: o combate a uma das bases ideológicas do colonialismo – o eurocentrismo.
Vejamos a introdução à coluna intitulada “A atualidade do pensamento de Ibn Khadun”:
De um modo geral, as contribuições culturais, filosóficas, políticas e científicas que os árabes e muçulmanos deram ao mundo no decorrer dos últimos quase 1.500 anos é hoje praticamente ignorada pelo mundo ocidental. Quando muito, a impressão que se tenta passar é a de que os árabes teriam sido apenas “transmissores” de conhecimento e nunca “produtores” desses mesmos conhecimentos. Ou ainda meros tradutores de textos de outros autores importantes. Não há falsidade maior que essa.

No seus trabalhos sobre o filósofo tunisino, Lejeune ressaltou a abrangência de seus estudos e a trajetória dele como secretário de Estado de diversos sultões ao norte da África e finalizando sua atividade no Cairo onde ocupou o cargo de Cadi (correspondente a juiz da Corte Suprema), na cidade em que veio a falecer em 1406.
A esse respeito ressalta Lejeune: “Podemos afirmar com convicção que o pensamento de Khaldun tem aspectos históricos (filosofia da História), sociológicos, econômicos, geográficos, jurídicos e teológicos. E, no limite, até mesmo Relações Internacionais e Diplomacia, já que ele exerceu a função de Secretário de Estado de vários sultões no Norte da África” e cita alguns dirigentes como os sultões: Abou Inan Faris, cujo governo abrangeu regiões onde hoje estão Tunísia e Argélia; Abou Salém (na hoje Argélia) e Abou Hammu (no hoje Marrocos).
O nosso camarada também costumava ressaltar a contribuição pioneira do pensamento de Khaldun comparando-o, por exemplo a Maquiavel. Enquanto este último ressalta a necessidade de desenvolver virtudes, às quais ele designa como “virtu”, Khaldun é muito claro sobre isso, como reproduz Lejeune: “…é óbvio que as belas qualidades existentes no homem têm grande relação com a faculdade de governar e de administrar, porque existe uma relação intima entre o bem e o direito de comandar”.
Também, segundo Lejeune, Khaldun foi pioneiro na percepção 490 anos depois desenvolvida por Marx sobre o trabalho como fonte de riqueza das mercadorias.
Cita Khaldun então: “mas é necessário o trabalho do homem para tudo que é aquisição e tudo que é riqueza… O lucro que resulta da criação de gado, do cultivo das plantas e da exploração das minas não pode também se obter, senão mediante o trabalho do homem”.
O estudioso de Khaldun nos informa do mais conhecido dos seus livros, Muqaddimah, traduzido do árabe para o português,sob o título “Os Prolegômenos”, em três volumes somente ao final dos anos 1950, por José Khoury e Angelina Bierrenbach Khoury.
Segundo Lejeune, um dos maiores estudiosos da obra de Khaldun foi Gilberto Freire: “Fiquei até sabendo que a biblioteca pessoal do sociólogo Gilberto Freyre, tem esses livros da edição brasileira e todos eles anotados. Um dia pretendo tomar contato com essas anotações para aprofundar as minhas pesquisas sobre Khaldun e a Sociologia árabe”.
Lejeune não teve tempo de ir até a casa de Gilberto Freite, localizada no aprazível bairro recifense de Apipucos e transformada hoje em Fundação, mas quem sabe eu consiga um dia fazê-lo, seguindo sua indicação…
A admiração pela obra de Khaldun, portanto, não se restringe a ele, pois, como dizia o historiador inglês Arnold Toynbee, também citado por Lejeune: “Ibn Khaldun é o mais inteligente intérprete da morfologia da história que já surgiu em qualquer lugar do mundo até hoje”.
Ao longo destes anos estive na companhia de Lejeune em vários momentos, além daquela especial palestra no Centro Cultural Sírio, dos quais destaco dois. O primeiro deles foi, junto com a intensa união de ativistas do mundo inteiro, no Fórum Social Mundial Palestina Livre realizado em Porto Alegre; o outro foi no dia de homenagem a João Goulart. Uma iniciativa de Lejeune, da qual fui convidado a participar junto com o filho do ex-presidente, João Vicente Goulart. Atividade que incluiu uma sessão especial na Câmara Municipal de Campinas, comandada pelo vereador Gustavo Petta, ex-presidente da UNE.
Me lembro de Lejeune se emocionar às lágrimas durante os relatos pessoais de João Vicente sobre seu pai, naquela solenidade.
Finalizo esta breve matéria homenagem com um depoimento emocionado sobre ele do secretário-geral da Confederação Árabe Palestina da América Latina e Caribe (COPLAC), Emir Mourad:
“Você me escreveu em 1988: `Espero que você nunca desanime e nem se esmoreça, por maiores que sejam as dificuldades pessoais e materiais ‘”.
“Eu não desanimei, camarada. E sei que você também não desanimou e até o último dia esteve na trincheira, erguendo a voz pela Palestina, pela verdade, pela justiça”, enfatizou Emir.
NATHANIEL BRAIA











