O efeito borboleta da incerteza


DAVI MOLINARI

Eu, definitivamente, havia perdido a hegemonia das sessões de psicanálise durante o happy hour do Doutor, no Fale Mais Sobre Isso.

Estava como os Estados Unidos diante do mundo: ou aceitava o multilateralismo das consultas gratuitas ou saía distribuindo sanções pela mesa.

Quem ocupava minha cadeira era Joel, o apontador do jogo do bicho.

Juvenal percebeu o ciúme estampado em minha testa e providenciou um assento ao lado.

– Calma, meu analisado. É coisa rápida – soprou, como se existisse análise rápida e terapia de boteco tivesse hora marcada.

– Vou começar a reservar minhas sessões – reclamei.

– Calma – respondeu Juvenal. – Você vai ser reeleito, fica tranquilo. 

Em seguida, executou o sobrevoo habitual com a bandeja e aterrissou três tulipas de chope em perfeita elipse. Uma, duas, três. Sem derramar uma gota. A certeza com que Juvenal pilotava os copos contrastava com a incerteza que governava o mundo, as pesquisas eleitorais e aquela mesa em particular.

Joel falava ao Doutor:

– Sabe o que é, Doutor? Eu vivo da incerteza. O freguês aposta porque acha que Deus levantou naquela manhã exclusivamente para cuidar da milhar dele. Quando ganha, foi escolhido. Quando perde, foi roubado.

– Está preocupado com o resultado? – me intrometi.

– Não é com o bicho, Analisado. É ansiedade.

Aquilo me ofendeu. Um apontador do jogo do bicho invadia minha sessão para dizer que o problema dele era mais sério que o meu.

O Doutor arqueou as sobrancelhas, retirou do bolso o indefectível bloquinho e anotou alguma coisa. Pela expressão, ou havia compreendido Joel profundamente ou estava calculando quem pagaria a terceira rodada.

Juvenal sentou-se ao meu lado e apontou discretamente com o queixo:

– Está vendo a mesa do Laranjão?

Ele estava acompanhado de três homens vestidos com uma simplicidade cuidadosamente cara. Ricos tentando se passar por pobres, mas traídos pelos relógios, pelos sapatos e pelo hábito de chamar especulação imobiliária de revitalização urbana.

– Quem são os três esquisitões? – perguntei.

– Um advogado, um homem do cartório de imóveis e um desembargador.

– Parece o começo de uma piada.

– Para quem mora no bairro, costuma ser o final.

A cada visita daquela turma, uma casa térrea desaparecia e, meses depois, nascia no lugar um edifício chamado Jardins de Alguma Coisa, ainda que no terreno não restasse nem um arbusto.

Dessa vez, estavam de olho na casa da esquina onde Joel morava com Lu Ruana e mantinha sua pequena venda, com o ponto do jogo do bicho.

– O imóvel está preso num inventário – explicou Juvenal. – Um dos herdeiros não quer vender. O Laranjão encontrou outro parente disposto a colaborar com o progresso.

– Progresso de quem?

– Do patrimônio dele, naturalmente.

Joel desconfiava de fraude processual, mas não tinha provas. Só indícios, medo e a experiência de quem sabia que, quando advogado, cartório e desembargador se reuniam com Laranjão, a incerteza dos pobres costumava virar escritura para os ricos.

Eu me preparava para dar uma palestra sobre ansiedade antecipatória, tema em que possuo notório saber por experiência própria, quando Lu Ruana entrou no bar.

Ela não chegou: nasceu como uma estrela. Um poder gravitacional que não deixava escapar nenhum suspiro. Vestido preto colado ao corpo, com um decote em V de “Vantástico” (brinquei mentalmente) e uma abertura na lateral das pernas que emanava uma sensualidade hipnótica, quase poética.

Juvenal acompanhou sua passagem e filosofou:

– Lu Ruana é uma síntese política, a expressão material da semiótica: é uma mulher livre como uma borboleta; no jogo do bicho, começa no 13. Ela é petista e lulista: 13. E, uma vez, depois de enfrentar a polícia numa reintegração de posse, ouviu que era meio 13 da cabeça. Nunca ficou esclarecido se era diagnóstico, código policial ou intenção de voto.

– E para Joel?

– Para Joel, ela é o número da sorte: 13.

Lu Ruana parou diante da mesa:

– Vamos, Joel. Chega de fazer análise no boteco. O portão de casa está caindo.

– Mas, Lu…

– Se tentarem tomar a casa, a gente procura os herdeiros, chama os vizinhos, arruma advogado e enfrenta. Se perdermos, alugamos outra. O que não vamos fazer é entregar a chave antes da sentença.

A ansiedade de Joel perdeu imediatamente metade da carga.

Naquele instante, a reunião do Laranjão terminou. Ele passou por nossa mesa com a arrogância de quem confundia matrícula de imóvel com escritura do destino.

– Joel, é melhor começar a procurar outro lugar para pôr o colchão.

Lu Ruana encarou-o.

Laranjão sustentou o olhar por dois segundos – uma eternidade para um valentão acostumado a plateias submissas – e depois examinou o chão, como se estivesse procurando a vergonha perdida, caso tivesse alguma.

– Isso ainda não está decidido – disse ela.

Juvenal conteve o riso com o pano de prato.

Lu Ruana voltou-se para Joel:

– Está vendo? É disso que eles vivem. Fazem a gente acreditar que o desejo deles já virou sentença. Pesquisa não é eleição, ameaça não é despejo e reunião de poderoso não é decisão judicial. Certeza antecipada é só propaganda com gravata.

Eu, metido a erudito de botequim, tentei consolá-lo:

– Como dizia Adoniran: Deus dá o frio conforme o cobertor.

– Não dá, não – rebateu Lu Ruana. – O cobertor é que precisa ser disputado. Se deixar, Laranjão privatiza até o inverno e toma até o Fale Mais Sobre Isso.

Os estudantes aplaudiram. Os bancários desconfiaram em voz alta da operação e os advogados disseram que pediriam vista.

O Doutor fechou o bloquinho. Olhou para Joel, depois para Lu Ruana e, finalmente, para mim. Era o sinal de que gastaria sua única frase:

– A maturidade psíquica não faz da incerteza uma certeza; permite agir sem transformar o medo em destino.

A frase encerrou a sessão psicanalítica pública.

Compreendi que a ansiedade exige garantias que a realidade nunca assinou. A pesquisa calcula tendências, o apostador estima probabilidades e Laranjão compra influências. Mas nenhum deles possui escritura sobre o futuro.

Lu Ruana já puxava Joel pela mão quando Juvenal gritou:

– Joel! E hoje, deu burro?

O apontador virou-se na porta:

– Não. Deu borboleta. Treze.

– Eu sabia! – comemorei.

Joel sorriu:

– Sabia nada, Analisado. Você só estava precisando acreditar.

E saiu atrás de Lu Ruana para consertar o portão antes que Laranjão tentasse derrubá-lo.

Publicado originalmente em Divã no Boteco – CV. Enviado pelo autor.

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