Pesquisas de boca de urna mostram um empate técnico entre o candidato progressista Roberto Sánchez e a herdeira da ditadura Fujimori, Keiko, com uma diferença de menos de meio ponto percentual. Respectivamente 49,3% a 50,7%, de acordo com o Ipsos.
O segundo turno transcorreu sem incidentes sérios e participação eleitoral foi considerada regular. As urnas fecharam às 17h, horário local, a contagem já teve início e deverá ser demorada. Nos últimos dois pleitos (2016 e 2021), a diferença no segundo turno foi de menos de 40.000 votos.
O Peru vive uma grave crise política, tendo tido oito presidentes em dez anos, em meio a uma sucessão de impeachments presidenciais promovidos pelo Congresso e ao aumento da desigualdade e da pobreza sob o modelo neoliberal em vigor.
Filha do ditador Fujimori, derrubado pela mobilização popular e preso depois de uma década de desmandos e corrupção, Keiko se apresentou como a candidata de Trump e da restauração dos laços com Washington, se oferecendo para enfiar o país no clube de fantoches ciceroneado pelo secretário de Estado Marco Rubio, o mal denominado Escudo das Américas.
E, macaqueando o bilionário de Mar a Lago, fez campanha pela deportação dos imigrantes e contra a “criminalidade”, apesar de estar por trás das chamadas “leis pró-crime”.
Sánchez, ex-ministro de Pedro Castilho, o presidente deposto pelo Congresso controlado pelos fujimoristas e neoliberais, em sua campanha chamou a industrializar o país, a fortalecer o mercado interno e os direitos, a fazer a reforma agrária e a convocar um referendo para revogar a constituição da ditadura, imposta em 1993, ainda em vigor.
Como assinalou a Telesur, uma disputa entre “o sol inca e a águia imperial”.
Sánchez na véspera havia se comprometido com o reconhecimento do resultado das eleições, seja qual for, cobrando da filha de Fujimori que faça o mesmo, ela que desde 2016 se candidata, perde para o “fujimorismo nunca mais”, não aceita e mantém o país em crise.
GOLPES SOB FACHADA DA “INCAPACIDADE MORAL”
Essa instabilidade política no Peru – oito presidentes em dez anos – tem como estopim o uso arbitrário do controverso instrumento legal de vacância presidencial por “incapacidade moral permanente” — um conceito ambíguo que permite a destituição de um presidente em um processo sumário, sem ter de apresentar provas de qualquer acusação específica, bastando apenas uma votação de dois terços no Congresso.
Quando na eleição de 2016 o fujimorismo conquistou a maioria absoluta no Congresso, o estopim foi aceso.
Apesar de controlar o Congresso, na eleição de 2016 ela havia perdido no segundo turno para o também neoliberal Pedro Pablo Kuczyinski, mas se recusou a aceitar o resultado e se dedicou a sabotar o governo até a renúncia dele em março de 2018. O que aconteceu sob o escândalo Odebrecht e ameaça de impeachment.
Seu vice, Martín Vizcarra, assumiu e sofreu impeachment em 2020. Seu substituto, o deputado Manuel Merino, durou apenas cinco dias. Ele renunciou em meio a protestos que deixaram dois mortos. Outro parlamentar, Francisco Sagasti, assumiu a presidência e supervisionou as eleições de 2021 e a transição de poder em julho daquele ano.
Em 2021, Keiko Fujimori foi novamente derrotada no segundo turno das eleições, desta vez por Pedro Castillo. Mais uma vez, ela se recusou a reconhecer a derrota e desde o primeiro dia minou o novo governo considerado de esquerda.
Assediado por um Congresso obstrucionista e golpista, em dezembro de 2022 Castillo anunciou, em um pronunciamento televisionado, o fechamento do Parlamento e a convocação de novas eleições legislativas, reagindo a um pedido de impeachment por “incapacidade moral”.
Acabou destituído por esse mesmo Congresso em um processo que violou os procedimentos e não obteve os votos necessários, além de preso. Foi substituído por sua vice, Dina Boluarte, que se bandeou para a direita.
O governo dela começou com uma repressão brutal aos protestos sociais que eclodiram após a destituição de Castillo, deixando cinquenta mortos. Essas mortes e escândalos de corrupção marcaram sua presidência. Em outubro de 2025, foi defenestrada por seus ex-aliados.
Seu substituto, o deputado José Jerí não durou seis meses, sob acusações de assédio sexual e corrupção. Em fevereiro de 2026, o Congresso o destituiu e nomeou o atual presidente, José María Balcázar, que preside a transição.
Na análise do Página 12, o fujimorismo e seus aliados “governam a partir do Congresso desde a queda de Castillo. Eles usaram esse poder para capturar o Tribunal Constitucional, a Procuradoria-Geral da República, o Conselho Nacional de Justiça (que nomeia juízes e procuradores), a Defensoria Pública e a Controladoria-Geral da República. Estão também caminhando para o controle total do Judiciário”.
70% DE INFORMALIDADE
Sob os altos preços internacionais do cobre e do ouro, as duas principais exportações peruanas, e de investimentos como o megaporto de Porto de Chancay, com participação chinesa (60%) e peruana (40%), o crescimento do país tem se mantido na ordem de 3% ao ano ou mais. A China se tornou o principal parceiro comercial do país.
A dívida pública é de 31,3% do PIB, uma das mais baixas da América Latina, e as reservas chegam a US$ 85 bilhões. A taxa de juros real está em torno de 0,35% ao ano, calculada pela diferença entre a taxa básica de juros do BC do Peru e a inflação acumulada nos últimos 12 meses, que recentemente ficou em 3,9%.
Mas esse crescimento não chega à imensa maioria da população, com a informalidade beirando os 70%, quase 30% da população vivendo em situação de pobreza e uma porcentagem semelhante à beira de cair nessa condição. Também segundo o Página 12, 41% enfrentam insegurança alimentar e os serviços públicos, como educação e saúde, são “altamente precários”.
Ao mesmo tempo, sob o controle fujimorista do Congresso, foram aprovadas as chamadas “leis pró-crime”, que debilitaram a capacidade de investigar e processar as organizações criminosas. Ocorreu uma explosão da deliquência, principalmente de organizações criminosas dedicadas à extorsão e assassinatos por encomenda. As denúncias por extorsão passaram de 9 mil em 2022 a mais de 25 mil em 2025. Os homicídios saltaram no mesmo período de 8,6 a 10,7 por cada 100 mil habitantes. Tornando aguda a questão da insegurança, o que o fujimorismo tenta manipular cinicamente.











