Instituições financeiras preferem a especulação. Bancos públicos poderiam entrar com força. Lula pediu ao ministro Guilherme Boulos para resolver os entraves
Os obstáculos colocados pelos bancos para viabilizar o programa do governo federal de incentivo à aquisição de veículos pelos motoristas de aplicativos, mostra bem que o setor financeiro prefere a especulação à produção e à venda de automóveis.
Pouco mais de um mês após o lançamento do programa Move Brasil para financiamento de automóveis novos e usados, boa parte dos motoristas de aplicativos enfrenta dificuldades para adquirir um carro. As exigências para a liberação do crédito são enormes.
Os bancos não estão levando em consideração a garantia que o governo dá aos créditos do programa. Analisam o financiamento como se fosse um processo qualquer. O motorista que tem condições de financiar um carro de R$ 150 mil muitas vezes é aquele que está com o nome sujo. Paga de R$ 3.500 a R$ 6 mil por mês para alugar um veículo e consegue faturar de R$ 8 mil a R$ 13 mil. Tem capacidade de arcar com as parcelas do financiamento, mas os bancos não liberam o crédito.
A Federação Nacional dos Sindicatos de Motoristas de Aplicativos (Fenasmapp) tem mapeado os entraves relatados pela categoria. Um formulário com 1.551 respostas apontou as principais dificuldades: análise do pedido como financiamento tradicional, ignorando que há um fundo garantidor para operações do Move Brasil (46,1%); programa não operacional, com falhas de integração com o BNDES (23,5%); exigência de entrada alta (19,5%); critérios internos dos bancos (7%); e histórico bancário dos clientes (2,8%).
O presidente Lula pediu ao ministro Guilherme Boulos que se reúna com os representantes dos motoristas de aplicativos para discutir os problemas e destravar o programa. Os bancos mantêm as dificuldades de crédito com as mais variadas explicações. O Santander, por exemplo, afirmou que as propostas “estão sujeitas à elegibilidade do cliente e do veículo, à análise de crédito e à documentação exigida para cada operação”.
O Banco Stellantis, que financia veículos de Fiat, Jeep, Peugeot e Citroën, afirmou que “as operações seguem as regras e os critérios de elegibilidade estabelecidos pela iniciativa, além das políticas de crédito adotadas pela instituição”. Segundo a GM Financial, da General Motors, os financiamentos contam com a cobertura do FGI PEAC, mas a garantia “não substitui a análise de crédito”.
Itaú e Bradesco não aderiram ao programa. O Banco Toyota ainda não opera a linha de crédito. A Mobilize Financial (Grupo Renault) iniciou a operação em 30 de julho. “Após a formalização do contrato, a liberação dos recursos ocorre conforme os procedimentos e prazos estabelecidos pelo BNDES”, afirmou.
O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, afirmou que parte dos motoristas aptos a participar do programa tem encontrado dificuldades por causa de pendências pessoais: “A recomendação que damos aos motoristas é ir para o Desenrola resolver o passivo para poder acessar um novo crédito. Tanto que o Ministério da Fazenda prorrogou o Desenrola, que vai dar essa oportunidade”, afirmou Mercadante.
É certo que, diante da intransigência dos bancos privados em apostar no programa, a maneira mais eficiente de deslanchar os financiamentos é o governo federal impor a força dos bancos públicos, nos quais ele tem maioria das ações, para incentivar a produção e as vendas dos automóveis no Brasil. Só assim ele consegue tirar os motoristas do sufoco provocado pela extorsão que representa o aluguel dos veículos.










