“Ordem executiva” da Casa Branca reduz número de vacinas infantis recomendadas e a forma como várias serão aplicadas, dificultando o acesso aos preciosos medicamentos
Enquanto os Estados Unidos enfrentam o pior surto de sarampo em três décadas e meia, Donald Trump escolheu a segunda-feira (10) para assinar uma ordem executiva que reduz para 11 o número de vacinas infantis recomendadas pelo governo federal e piora a forma como várias delas são aplicadas. Além disso, propôs que crianças de um ano deveriam receber suas vacinas em cinco consultas separadas, tudo para dificultar ainda vez mais o acesso aos preciosos medicamentos.
Determinada em pleno Salão Oval, a “ordem” recomenda separar a vacina contra sarampo, caxumba e rubéola (MMR, na sigla em inglês) em três vacinas diferentes, aplicadas em consultas médicas separadas, e não mais em uma única injeção, como é feito hoje. Atualmente, vacinas individuais contra essas três doenças para crianças não se encontram à disposição no país.
Para completar, agora seis vacinas – contra covid-19, hepatite A, hepatite B, rotavírus, meningococo e influenza – passam a integrar uma categoria vaga chamada “decisão clínica compartilhada”, em que cabe ao médico avaliar, caso a caso, se recomenda ou não a aplicação.
Em mais um discurso pseudocientífico, o patrocinador de Flávio Bolsonaro refletiu sobre a grande quantidade de vacinas que as crianças recebem e a necessidade de reduzi-las. “Atualmente, injetam-se grandes quantidades de vacina – como tanques inteiros – no corpo dos filhos”, disse.
O retrógrado estadunidense justificou a medida citando um suposto “padrão ouro” da ciência e repetiu, mais uma vez, o argumento de que as vacinas estariam por trás do aumento de casos de autismo – tese sem qualquer respaldo em décadas de pesquisa e radicalmente contestada pelas principais associações médicas do país.
TESE GERA “INCERTEZA, MEDO E CONFUSÃO”, AFIRMA ACADEMIA AMERICANA DE PEDIATRIA
Segundo a comunidade científica, a eficácia das vacinas permanece a mesma de sempre. O presidente da Academia Americana de Pediatria, Andrew Racine, classificou o anúncio como fonte desnecessária de “incerteza, medo e confusão”. Especialistas em saúde pública advertem que espaçar as doses, como propõe a Casa Branca, pode deixar crianças expostas a doenças evitáveis justamente nos intervalos entre uma consulta e outra – a mesma brecha que alimenta surtos como o atual.
O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) aponta que os Estados Unidos já confirmaram mais de 2.300 casos de sarampo em 2026, superando o recorde do ano passado e atingindo o patamar mais alto desde 1991 – pior do que qualquer ano desde que a doença foi declarada como “erradicada” no país, em 2000. Já são 35 surtos registrados neste ano, responsáveis por mais de 90% dos casos confirmados.
Para o deputado democrata Frank Pallone Jr., “a cruzada contra vacinas seguras e eficazes” precisa ser interrompida antes que mais vidas sejam perdidas.
A determinação trumpista chega a três meses das eleições de meio de mandato e é lida por analistas como um aceno ao movimento MAHA (Make America Healthy Again – Tornar a América Saudável Novamente), setor da base ultraconservadora do presidente que dissemina teorias da conspiração contra imunizantes.
A Casa Branca alega que a medida apenas amplia a liberdade dos pais de escolher quais vacinas aplicar nos filhos, mas é o próprio governo federal quem está reescrevendo um calendário vacinal construído ao longo de décadas com base em evidência científica, e não o contrário.
Vale lembrar que nos EUA são os estados, não o governo federal, que detêm autoridade para exigir vacinas nas escolas. Ainda assim, a ordem já orienta que revisem suas próprias leis para se alinhar à nova diretriz. Diante disso, a Academia Americana de Pediatria publicou seu próprio calendário de vacinação, recomendando aos pais que sigam o esquema anterior ao decreto, reiterando que a comunidade médica não reconhece a nova política como cientificamente confiável.
Entre o discurso da “liberdade de escolha” de Trump e o crescimento vertiginoso de casos de uma doença que já havia sido eliminada do país, a distância só aumenta. E, como observam os pediatras, o preço dessa distância será medido em crianças doentes.











