Edmand Lara disse ter sido advertido e suspendeu uma viagem ao Equador em fevereiro
No mesmo sábado (22) em que a advogada e ativista Nadia Beller saía do hospital na cidade de Santa Cruz de la Sierra, após permanecer cinco dias internada por ter recebido três tiros de pistoleiros, o vice-presidente da Bolívia, Edmand Lara, decidiu elevar o tom e denunciar um plano para executá-lo.
E, mais grave ainda, denunciou que o mandante por trás dos dois crimes era o mesmo: Fernando Cerimedo, proprietário do jornal “La Derecha Diario”. O criminoso assessora o presidente boliviano, Rodrigo Paz, o argentino Javier Milei e, ainda, o clã Bolsonaro.
Acusado por seus estreitos vínculos com o narcotráfico, o empresário de 45 anos diz ter treinado com a principal força de operações especiais da Marinha dos Estados Unidos e ter se doutorado em marketing pela Universidade de Phoenix. “O homem da MAGA (Make America Great Again – Tornar a América Grande Novamente) na América Latina” – conforme o título dado pela The Economist – foi também enviado por Trump para virar o jogo em Honduras a favor do fascista Nasry Asfura.
“EVIDÊNCIA INSTITUCIONAL DO PODER DE CERIMEDO NA BOLÍVIA”
O jornal Página12 apontou que “a evidência institucional do poder de Cerimedo é o fato dele se reunir com o encarregado de Negócios dos Estados Unidos na Bolívia, Erik Martini. Não há embaixador dos EUA no país, de modo que Martini ocupa o cargo mais alto na relação diplomática. Os encontros não ocorrem às escondidas: são públicos, com fotos”.
O caso da boliviana Nadia Beller, “grávida de quatro semanas de Fernando Cerimedo” – conforme ela própria relatou -, ganhou um significado transcendental e expôs o nível de degeneração e decomposição da ultradireita. Sem qualquer escrúpulo, o facínora decidiu riscar do mapa a própria companheira por saber demais, contratando pistoleiros para atirarem nela na escadaria de entrada do Swiss Hotel, em 17 de agosto.
O feminicídio é evidente, aponta a promotora de Santa Cruz de la Sierra, Yolanda Aguilera, que adverte que em junho e julho Cerimedo já havia agredido a mulher a socos, lesões documentadas por ela em fotos. Como a mulher havia ameaçado denunciá-lo publicamente, a tensão transbordou.
Enquanto estava no hospital, Beller divulgou imagens dos ferimentos sofridos, bem como o relatório médico, e publicou as fotos no Facebook com a legenda: “Que Deus te perdoe, Fernando Cerimedo”, condenando a tentativa de assassinato. Ela contou ter sido o próprio amante quem lhe disse para ir ao Swiss Hotel, onde foi baleada, e que “ele mentiu para que eu fosse confiante”.
“OU ELIMINAMOS NADIA OU ESTAMOS FODIDOS. CONHECE ALGUÉM QUE POSSA FAZER ESSE SERVIÇO?”
As mensagens no celular do assessor presidencial não deixam margem a dúvidas, pois no bloco de notas aparece uma captura de tela que diz, enfaticamente: “A Nadia nos entregou. Ou a eliminamos ou estamos fodidos. Conhece alguém que possa fazer esse serviço?”.
Durante a última sexta-feira (21), outras conversas vieram à tona, com uma troca de mensagens no momento do ataque que inclui uma pessoa identificada como ECG – segundo Beller e o ex-presidente Evo Morales, o nome corresponde a Erik Correa González. Nas mensagens, ECG escreve: “Digo para procurarem por lá?”. “Estão por lá desde as 20h15. Não informaram que ela entrou. Vão continuar por lá mesmo”. Minutos depois, ECG digita: “Irmão, acabaram de atirar nela”.
Contestando a declaração da vítima, além de negar a paternidade a defesa de Cerimedo alegou se tratar de um “autoatentado”, tese contestada diante da gravidade dos fatos. Mas Beller voltou a falar sobre o tema em entrevista à rádio El Observador: “Ele reconhece que esteve comigo no hospital um dia antes de tentarem me matar. Vou solicitar relatórios médicos sobre isso; ele esteve comigo na ultrassonografia e pagou a conta do hospital. Que homem que não assume o filho faria algo assim?”, questionou. A gravidez foi confirmada no relatório médico, que aponta: “A avaliação ginecológica confirmou gestação inicial, de aproximadamente 4,6 semanas”.
ALERTA SOBRE O ATENTADO PARTIU DE BELLER
“Eu tinha uma viagem ao Equador em fevereiro deste ano, tinha um convite; um dos meus colaboradores entrou na minha sala e me disse: ‘Não viaje, porque uma pessoa próxima a Cerimedo me disse que, no Equador, vão atentar contra a sua vida’. Eu cancelei a viagem”, contou o vice-presidente, em entrevista ao canal argentino C5N.
Edmand Lara ressaltou que, dois dias antes, havia recebido uma explicação sobre a origem dessa informação. “O doutor Freddy Vidovic, funcionário da vice-presidência, me disse: ‘Quero confessar que a pessoa que me falou que Cerimedo atentaria contra a sua vida no Equador foi Nadia Beller’”, afirmou. Apesar da gravidade do tema, ele nunca apresentou denúncia formal por não dispor de provas, embora tenha assegurado que Beller disporia das evidências.
“Quanto a quem teve a ideia de me tirar atribuições e orçamento, de emitir um decreto constitucional reduzindo minhas funções ao mínimo possível… ninguém me tira da cabeça que foi Fernando Cerimedo, porque coincide com o fato de que, na Argentina, Milei faz o mesmo com seu vice-presidente”, assinalou Lara.
EVO REFORÇA DENÚNCIAS CONTRA CERIMEDO E EXIGE DA PROCURADORIA APURAÇÃO “IMEDIATA E TRANSPARENTE”
O ex-presidente Evo Morales (2006-2019) exigiu da Procuradoria-Geral do Estado uma investigação “imediata e transparente” que vá além da tentativa de feminicídio e abranja também os episódios de corrupção relatados por Beller, envolvendo Rodrigo Paz, sua esposa e outras autoridades.
Na enorme lista de crimes – que vão de feminicídio a terrorismo de Estado, passando por narcotráfico e lavagem de ativos -, Evo alertou que, caso não agissem, promotores e juízes seriam cúmplices da “máfia” instalada atualmente no poder na Bolívia.
Em maio, ele relembrou duas ameaças que atribuiu a Cerimedo, uma delas um recado com a palavra “tic-tac” publicado na rede X em resposta a uma postagem sua, como intimidação direta. Nos dias seguintes ao atentado contra Beller, acusou o ministro da Defesa, Ernesto Justiniano, de também estar envolvido em um plano para assassiná-lo no Chapare, onde se encontra.











