Se mexer com Taiwan, poderemos ter conflitos, destaca líder chinês
Ao receber o presidente Donald Trump e sua comitiva, em visita de Estado de dois dias à China, o presidente Xi Jinping foi direto ao ponto, referindo-se à “armadilha de Tucídides” – o confronto descrito pelo historiador grego entre a ascendente Atenas e a hegemônica Esparta na antiguidade, que desembocou na Guerra do Peloponeso – e indagando qual será a atitude da China e dos EUA diante dessa encruzilhada, em que transformações não vistas em um século estão se acelerando no mundo e a situação internacional está fluída e turbulenta.
Questão à qual respondeu enfatizando que o mundo é grande o suficiente para caberem a China e os EUA, o sucesso de um é a oportunidade para o outro, chamando à convivência mutuamente benéfica e imprescindível à estabilidade no mundo.
Trump chegou a Pequim na quarta-feira (13), na primeira visita de um presidente americano ao gigante asiático em nove anos, acompanhado de uma fornada de bilionários das Big Techs, setor financeiro e Boeing, e, segundo analistas, chamuscado pelo fracasso em submeter o Irã e instaurar, no país que tem a terceira maior reserva de petróleo do planeta, um governo títere.
E tendo desencadeado, com o bloqueio ao Estreito de Ormuz, ainda por resolver, uma crise global de escassez de petróleo, gás, fertilizantes e outros insumos. Além de estar fragilizado, a seis meses das eleições intermediárias, pela enorme rejeição à guerra (61%), perda de popularidade, alta do preço da gasolina e crise entre os produtores rurais, uma de suas principais bases eleitorais.
E com sua tentativa de estrangular o desenvolvimento chinês da alta tecnologia tendo saído pela culatra, com o país passando a produzir itens de primeira linha que antes importava, inclusive na Inteligência Artificial.
TAPETE VERMELHO
À chegada, Trump foi recebido com tapete vermelho, salva de 21 tiros e dezenas de jovens empunhando bandeirinhas chinesas e americanas e depois foi recepcionado pelo presidente Xi no Grande Salão do Povo.
Eles haviam se reunido há oito meses na cúpula da Asean em Seul, quando acertaram a trégua na guerra das tarifas desencadeada por Washington em abril passado e que chegou a mútuos 145%, e após Pequim ter decretado o controle das exportações das terras raras, essenciais para a alta tecnologia.
No registro feito pela porta-voz diplomática Mao Ning pela plataforma X, o presidente Xi indagou: “Conseguirão a China e os Estados Unidos superar a Armadilha de Tucídides e criar um novo paradigma para as relações entre grandes potências?”
“Conseguiremos enfrentar juntos os desafios globais e proporcionar maior estabilidade ao mundo? Conseguiremos construir juntos um futuro brilhante para as nossas relações bilaterais, no interesse do bem-estar dos dois povos e do futuro da humanidade? Estas são as questões vitais para a história, para o mundo e para os povos. São as questões do nosso tempo que os líderes das grandes potências precisam responder em conjunto.”
“DEVEMOS SER PARCEIROS, NÃO RIVAIS”
O Presidente Xi sublinhou que “os dois países têm mais interesses em comum do que diferenças, o sucesso de um é uma oportunidade para o outro, e uma relação bilateral estável é benéfica para o mundo. Devemos ser parceiros, não rivais.”
“Devemos nos ajudar mutuamente a ter sucesso e prosperar juntos, e encontrar o caminho certo para que as principais nações convivam harmoniosamente nesta nova era.”
“Aguardo com expectativa nossas discussões sobre as principais questões importantes para nossos dois países e para o mundo, e a oportunidade de trabalhar em conjunto para definir o rumo e conduzir o grande navio das relações China-EUA, de modo a fazer de 2026 um ano histórico e marcante que abra um novo capítulo nessas relações.”
“RELAÇÃO FANTÁSTICA”
Trump respondeu à convocação ao diálogo feita por Xi com uma rasgação de seda ao presidente chinês, a quem chamou de “grande líder” e de quem disse ter a “uma honra” de ser amigo.
“Digo isso a todos, um grande líder”, reiterou, chamando sua relação com Xi de “fantástica” e prevendo um “futuro fantástico juntos” expressando “tanto respeito pela China e pelo trabalho realizado por você”. “Na verdade, o mais longo relacionamento entre presidentes que nossos países já tiveram”, se esmerou.
O roteiro de Trump e sua delegação incluiu, ainda, a visita ao Templo do Céu, patrimônio mundial da humanidade da Unesco, uma construção com seis séculos, onde os imperadores iam para desejar paz e prosperidade e para pedir aos céus por colheitas fartas.
“REJUVENESCIMENTO DA CHINA E ‘TORNAR A AMÉRICA GRANDE DE NOVO’ PODEM CAMINHAR JUNTOS”, PROPÕE XI
No banquete oferecido a Trump o presidente Xi chamou a visita de “histórica”, lembrando a viagem de Nixon e Kissinger a Pequim em 1971 de reatamento de relações. “O rejuvenescimento da China e o lema ‘Tornar a América Grande Novamente’ podem caminhar juntos. China e Estados Unidos devem ser parceiros, não rivais.”
“Respeito mútuo é fundamental para relações estáveis entre nossos países. Devemos trabalhar em conjunto para conduzir as relações China-EUA pelo caminho correto”, afirmou Xi Jinping.
O presidente chinês acrescentou que ele e o chefe da Casa Branca tiveram uma “troca de opiniões profundas” antes do jantar e que ambos acreditam que a relação bilateral entre EUA e China é “a mais importante do mundo”.
Também Trump se pronunciou, declarando que “tivemos discussões extremamente positivas e construtivas. A relação entre Estados Unidos e China é uma das mais importantes da história mundial. Temos a chance de criar um futuro de maior cooperação e prosperidade”. Ele anunciou ter convidado o presidente Xi para uma visita oficial aos EUA no dia 24 de setembro.
LINHAS VERMELHAS EM TAIWAN
Um tema central do relacionamento entre a China e os EUA, voltou à tona: Taiwan, a última parcela da nação chinesa que ainda falta reunificar depois do século de humilhações, culminando o processo de rejuvenescimento da China. Enquanto Washington diz reconhecer o princípio de ‘Uma só China’ mas continua cevando separatistas – e o Congresso dos EUA, recentemente, aprovou envio de US$ 14 bilhões de armas a Taiwan, que Trump engavetou por enquanto, e a política de cerco da China – explicitada por Obama – não dá sinais de esmorecer.
O presidente Xi alertou Trump que a “questão de Taiwan é a questão mais importante nas relações China-EUA”.
“Se for conduzida corretamente, a relação bilateral terá estabilidade geral. Caso contrário, os dois países terão confrontos e até conflitos, colocando toda a relação em grande risco”.
A independência e a paz de Taiwan no Estreito de Taiwan são tão “irreconciliáveis quanto fogo e água”, disse Xi.
Na declaração da Casa Branca sobre a reunião, não há menção a Taiwan e, quando na visita ao Palácio do Céu um repórter indagou Trump sobre o assunto, ele saiu pela tangente dizendo que a “China é bela”. O relato chinês registra explicitamente Taiwan e os alertas manifestados.
Antes da viagem, Trump dera declarações dizendo que Xi sabe que “ele não quer uma invasão”. A posição da China é que a reunificação seja pacífica, como já ocorreu com as ex-colônias de Hong Kong e Macau, mas que não admitirá o separatismo. O Kuomitang, principal força de oposição de Taiwan, se pronuncia a favor do Consenso do Estreito de 1992 e do princípio de Uma só China.
HORA DO CHÁ
A visita será encerrada na sexta-feira com um almoço de trabalho e um chá, que será servido pouco antes de Trump viajar de volta.
Começam a surgir notícias sobre negociações comerciais entre China e EUA, com a Reuters anunciando que a China concordou em comprar 200 aviões 737 Max da Boeing (menos da metade dos 500 que a Bloomberg especulara). As ações da Boeing na bolsa caíram.
Há relatos sobre conversas a respeito do atoleiro em que Trump enfiou os EUA no Oriente Médio com sua guerra não provocada contra o Irã. Guerra, aliás, que atrasou em cerca de um mês a reunião Trump-Xi. Segundo o Departamento de Estado, as duas partes são pela “reabertura do Estreito”. Uma semana antes da chegada de Trump, a China recebeu o ministro iraniano das relações exteriores, Abbas Araghchi.
Falando sobre sua comitiva de bilionários antes da viagem, Trump escreveu no Truth Social que ia pedir “ao Presidente Xi, um líder de extraordinária distinção, que ‘abra’ a China para que essas pessoas brilhantes possam fazer a sua magia”.
AGASALHO DA NIKE
Na véspera da viagem, duas provocações chamaram a atenção. Primeiro, Trump postando um mapa da Venezuela, marcando com as cores e estrelas e listas da bandeira americana e o título “51º estado”. A seguir, o secretário de Estado, Marco Rubio, postou a caminho de Pequim, uma foto dele envergando no Air Force One um agasalho da Nike assemelhado ao que o presidente Maduro usava quando foi sequestrado por tropas ianques.
Os russos têm denunciado que os EUA estão tentando controlar os mercados globais de energia, para chantagear outros países e escudar o petrodólar, cujo status está cada dia mais ameaçado. Dizem que já controlam o petróleo venezuelano, mas quebraram a cara no Irã.
WSJ DELIRA: TRUMP É A POMBA PRINCIPAL
Ainda assim, há nos EUA quem reclame que Trump anda ficando muito mole com os chineses. Como feito em editorial do Wall Street Journal, que apresenta a cúpula de Pequim como um teste para saber se Trump pode ser desviado de uma “distensão” que, alega, corre o risco de ceder interesses estratégicos americanos centrais.
O WSJ admite que essa “manipulação” pela Casa Branca é “uma busca por estabilidade”, mas alerta que a diplomacia “pessoal” de Trump e sua busca por acordos podem colidir com o que chama de “propósitos antiamericanos” de Xi.
Ainda segundo o Journal, a China é “principal base financeira e industrial” dos adversários dos EUA, alertando que “a segunda administração Trump busca uma distensão, e o Sr. Trump é a pomba principal.”
Após recomendar a aprovação do mega orçamento do Pentágono de US$ 1,5 trilhão e fazer apologia da escalada contra a China, a publicação adverte que Xi “está jogando um jogo longo para derrubar os EUA como a principal potência mundial”. Há quem lamente que personagens histericamente antichineses não são mais parte do primeiro escalão do Trump 2.0, como eram Mike Pompeo e John Bolton.











