86% das áreas dominadas por milícias no Rio votaram em Flávio Bolsonaro

Flávio Bolsonaro junto a Sicário, homem de confiança de Daniel Vorcaro - Foto: Reprodução/X

Levantamento sobre o primeiro turno de 2026 aponta vantagem do candidato do PL em territórios sob controle ou influência de grupos milicianos

Flávio Bolsonaro (PL)  foi o mais votado em 86% dos locais de votação situados em áreas controladas ou sob influência de milícias na cidade do Rio de Janeiro. 

O estudo cruzou dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com o Mapa de Grupos Armados, elaborado pelo Instituto Fogo Cruzado em parceria com o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI-UFF).

De acordo com a publicação, Flávio liderou em 268 locais de votação, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu em 43. No conjunto desses pontos, o candidato do PL recebeu aproximadamente 440 mil votos, contra 318 mil do petista. 

O resultado chama a atenção para a relação entre território, poder armado e comportamento eleitoral no Rio de Janeiro. Entretanto, a votação expressa a escolha dos eleitores e, isoladamente, não comprova apoio organizado de milicianos à candidatura nem permite concluir que houve interferência criminosa no processo eleitoral.

O resultado eleitoral de 2026 também pode ser comparado a estudos anteriores sobre a influência territorial de grupos armados. Uma análise do Observatório das Metrópoles, publicada em outubro de 2022, cruzou dados do TSE com o mapeamento de áreas controladas por milícias e pelo tráfico na Região Metropolitana do Rio.

Naquele pleito, Jair Bolsonaro obteve 53,1% dos votos válidos nas áreas identificadas como controladas por milícias, ante 49,9% na região metropolitana como um todo. Lula registrou 38,7% nesses territórios, contra 41,6% no conjunto da região.

O estudo identificou diferenças no comportamento eleitoral entre áreas com diferentes formas de controle armado, mas não concluiu que a votação resultasse necessariamente de coerção ou manipulação dos moradores. A pesquisa oferece contexto histórico para compreender o padrão observado em 2026. 

A sobreposição entre a atuação de grupos armados, relações políticas e disputas eleitorais continua sendo um tema relevante para a democracia brasileira. No caso de Flávio Bolsonaro, os números do primeiro turno e os episódios envolvendo Adriano da Nóbrega, Fabrício Queiroz e o condomínio onde moravam Jair Bolsonaro e Ronnie Lessa comprovam a íntima relação da familia Bolsonaro com as milícias que atuam e intimidam a população do Rio de janeiro.

ADRIANO DA NÓBREGA 

O desempenho eleitoral de Flávio Bolsonaro nessas regiões reacende o debate sobre suas relações milicianos do Rio de Janeiro.

Um dos casos mais conhecidos envolve Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do Bope apontado pelas autoridades como integrante de destaque da milícia e associado ao chamado Escritório do Crime. Adriano foi morto em fevereiro de 2020, durante uma operação policial na Bahia.

Quando Flávio Bolsonaro era deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), sua assessoria empregou a mãe de Adriano, Raimunda Veras Magalhães, e sua então mulher, Danielle Mendonça. As nomeações passaram a ser examinadas no contexto das investigações sobre movimentações financeiras no gabinete do parlamentar.

O CASO QUEIROZ E AS RACHADINHAS

Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, ocupou posição central nas apurações sobre um possível esquema de recolhimento de parte dos salários de funcionários do gabinete, prática conhecida como rachadinha.

Relatos publicados em dezembro de 2019, com base em informações do Ministério Público do Rio de Janeiro, apontaram que Queiroz teria utilizado empresas vinculadas a Adriano da Nóbrega para movimentar recursos investigados. Segundo o Ministério Público, essas operações incluíam transferências para contas de Queiroz.

As apurações também examinaram depósitos em dinheiro, movimentações bancárias e a situação funcional de pessoas ligadas ao ex-capitão. Uma das linhas investigativas sustentava que parte dos valores recolhidos de servidores poderia ter sido ocultada por meio de operações financeiras.

RONNIE LESSA

Outro episódio que marcou o debate público envolve Ronnie Lessa, ex-policial militar condenado pelo assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, ocorrido em março de 2018.

À época, Lessa e Jair Bolsonaro, pai de Flávio, moravam no condomínio Vivendas da Barra, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro. O fato de serem vizinhos ganhou repercussão nacional durante as investigações do crime.

Em 2019, o ex-policial militar Élcio de Queiroz, que também participou do atentado e posteriormente firmou acordo de colaboração, afirmou em depoimento que frequentava a casa de Lessa no condomínio. Na ocasião, houve controvérsia em torno de registros da portaria que mencionavam a residência de Jair Bolsonaro.

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