Unidos da Tijuca homenageará Carolina Maria de Jesus e as mulheres pretas na Sapucaí

Ensaio da Comissão de Frente da Tijuca - Foto: Divulgação

O desfile das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro começa no Domingo de Carnaval, 15 de fevereiro. A Unidos da Tijuca vai homenagear a escritora Carolina Maria de Jesus no carnaval de 2026 e pretende contar a vida dela para além da pobreza. Seu desfile é o último da segunda-feira (16).

“Ela é expoente de uma grande arte e sabedoria contemporânea. Colocaram Carolina Maria de Jesus nesse lugar de mulher catadora de lixo, catadora de papel, mas ela era muito maior do que isso. Era uma grande artista, representa também as milhares de Carolinas que no Brasil ainda existem”, explica o carnavalesco Edson Pereira.

“Carolinas do morro, da favela, Carolinas das ruas, essas Carolinas estarão na avenida no carnaval 2026 mostrando que o sonho não é impossível e que a palavra, como diz bem o samba, é a arma contra a tirania”, completa.

Antes de ser conhecida pelo mundo, Carolina Maria de Jesus se chamava Bitita. Era uma menina negra, nascida no interior de Minas Gerais, num Brasil ainda marcado pelas feridas da escravidão recém-abolida. Cresceu ouvindo histórias dos mais velhos, aprendendo com a fala, com a escuta e com a sabedoria que não vinha dos livros, mas da memória e da tradição.

Desde cedo, Bitita se encantou pelas palavras. Mesmo sem acesso fácil à escola, queria entender as letras, os nomes das coisas, os sentidos escondidos nos livros. Quando percebeu que, para existir diante do mundo, precisava assinar o próprio nome, Bitita virou Carolina. Nascia ali o desejo de ser escritora.

Já moça, Carolina entendeu que a liberdade prometida aos negros não era real. Trabalhou na roça, sofreu violência e preconceito, foi presa e humilhada apenas por carregar um dicionário. Aquele episódio marcou sua vida e a fez deixar a terra natal em busca de um novo começo.

O caminho levou Carolina a São Paulo. A cidade grande prometia oportunidades, mas ofereceu dureza. Sem emprego fixo, foi morar na favela do Canindé. Para sobreviver, catava papel, ferro e restos pelas ruas. Com o mesmo gesto, catava também histórias. Nos cadernos encontrados no lixo, escrevia sobre a fome, a miséria, o racismo, a violência e o cotidiano da favela.

Foi assim que nasceu “Quarto de Despejo”, livro que revelou ao Brasil uma realidade que muitos fingiam não ver. Carolina virou conhecida como “a favelada que escrevia”. Sua obra incomodou, porque denunciava políticos, expunha desigualdades e desmontava a imagem romantizada da pobreza.

O sucesso, porém, veio com limites. Esperavam que Carolina falasse apenas da favela e da miséria. Quando tentou ir além, escrever outras histórias, peças e poemas, foi deixada de lado. A escritora negra, fora do papel que lhe reservaram, passou a ser silenciada.

Mesmo assim, Carolina permaneceu. Sua escrita resistiu ao apagamento e continuou viva nas páginas, nas memórias e nas inspirações que deixou. Sua linguagem misturava o português das ruas com a força da literatura, mostrando que o Brasil também se escreve a partir da margem.

É essa trajetória que a Unidos da Tijuca leva para a Avenida em 2026. O desfile conta a história de uma mulher que transformou palavra em sobrevivência, denúncia em literatura e vida em legado. Carolina Maria de Jesus, com nome e assinatura no lugar certo, como ela sempre exigiu.

Uma das baianas que desfilará na agremiação destaca que o enredo tem sido especial para os negros. A porta-bandeira da Tijuca aponta que é um enredo com didática.

“Acho incrível a gente levar o conhecimento de uma pessoa importante, pessoa que fala sobre a gente, sobre os nossos. Lembra nossa mãe, nossa vó, nossa família”, afirma.

A Unidos da Tijuca foi a 9ª colocada no Grupo Especial em 2025, com o enredo sobre Logun Edé.

SAMBA

Autores: Lico Monteiro, Samir Trindade, Leandro Thomaz, Marcelo Adnet, Marcelo Lepiane, Telmo Augusto, Gigi da Estiva e Juca

Intérprete: Marquinhos Art’Samba

Muda essa história, Tijuca!
Tira do meu verso a força pra vencer
Reconhece o seu lugar e luta
Esse é nosso jeito de escrever

Eu sou filha dessa dor
Que nasceu no interior de uma saudade
Neta de Preto Velho
Que me ensinou os mistérios
Bitita cor, retinta verdade
Me chamo Carolina de Jesus
Dele herdei também a cruz
Dele herdei também a cruz
Olhe em mim, eu tenho as marcas
Me impuseram sobreviver
Por ser livre nas palavras
Condenaram meu saber
Fui a caneta que não reproduziu
A sina da mulher preta no Brasil

Os olhos da fome eram os meus
Justiça dos homens não é maior que a de Deus
Meu quarto foi despejo de agonia
A palavra é arma contra a tirania

Sonhei sobre as páginas da vida
Ilusões tolhidas no sistema algoz
Que tenta apagar nossa grandeza
Calar a realeza que resiste em nós
Dos salões da burguesia aos barracos do Borel
Onde nascem Carolinas
Não seremos mais os réus
Por tantas Marias que viram seus filhos crucificados
Nas linhas da vida, verbo na ferida, deixei meu legado
Meu país nasceu com nome de mulher
Sou a liberdade, mãe do Canindé

FICHA TÉCNICA

Fundação: 31 de dezembro de 1931

Cores: 🔵🟡 Azul e Amarelo

Presidente: Fernando Horta

Carnavalesco: Edson Pereira

Diretores de Carnaval: Fernando Costa e Elisa Fernandes

Intérprete: Marquinhos Art’Samba

Mestre de Bateria: Casagrande

Rainha de Bateria: Mileide Mihaile

Mestre-Sala e Porta-Bandeira: Matheus Miranda e Lucinha Nobre

Comissão de Frente: Bruna Lopes e Ariadne Lax

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