Imperatriz, Mangueira, Portela e Niterói brilham em noite de homenagens na Sapucaí

Desfile da Mangueira agitou o público na Sapucaí – Foto: Lucas Victorio/Riotur

Escolas do Grupo Especial exaltam Lula, Ney Matogrosso, Mestre Sacaca e a resistência negra na estreia do Carnaval 2026

A  primeira noite de desfiles das escolas de samba do Grupo Especial do Carnaval 2026 do Rio de Janeiro, na noite de domingo (15), foi marcada por homenagens a personalidades brasileiras. Acadêmicos de Niterói, Imperatriz Leopoldinense, Portela e Mangueira premiaram o público que lotou a Sapucaí com um espetáculo grandioso. 

Da homenagem ao presidente Lula, ao Mestre Sacaca do Amapá, passando pela história brilhante de Ney Matogrosso e a construção da cultura negra no Sul do país, as escolas deram um show na avenida. 

Lula, Alckmin e Eduardo Paes na Sapucaí – Foto: Alexandre Macieira | Riotur

Em meio às polêmicas envolvendo o desfile da Niterói, por conta de uma suposta campanha eleitoral antecipada envolvendo o desfile, o presidente Lula acompanhou a noite de espetáculos junto ao vice-presidente, Geraldo Alckmin, e o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, no camarote da Prefeitura. Lula saudou as quatro escolas que desfilaram na Sapucaí.

Confira abaixo um resumo dos desfiles:

Acadêmicos de Niterói celebra a vida de Lula

Acadêmicos de Niterói – Foto: Alexandre Macieira | Riotur

A primeira noite de desfiles começou com a apresentação da Acadêmicos de Niterói, que levou para a avenida o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

A escola, que fez sua estreia na elite do Carnaval, iniciou o esquenta com Fafá de Belém e viu o público do Setor 1 entoar o refrão do samba com a animação se espalhando pelas arquibancadas.

O desfile percorreu a trajetória de Lula desde o nascimento em Pernambuco até a consolidação como líder sindical no ABC paulista. Alegorias e fantasias retrataram o sertão nordestino, a mudança da família para São Paulo sob a liderança de Dona Lindu — interpretada por Dira Paes — e os primeiros ofícios do presidente, como engraxate e metalúrgico. Um dos carros destacou a atuação no Sindicato dos Metalúrgicos, com uma grande escultura metálica do homenageado e efeitos que simulavam ferro derretido, enquanto outra alegoria simbolizou as desigualdades sociais no Brasil, contrapondo a fartura da elite a casebres da população mais pobre.

Acadêmicos de Niterói – Foto: Alexandre Macieira | Riotur

Os dois últimos carros enfrentaram problemas técnicos e atrasaram a evolução. Apesar dos contratempos, a escola completou o desfile em 79 minutos, sem buracos, mantendo evolução considerada satisfatória. 

Imperatriz Leopoldinense, homenagem a Ney Matogrosso

Imperatriz Leopoldinense – Foto: Bianca Santos | Riotur

A escola de Ramos apresentou um espetáculo marcante em homenagem a Ney Matogrosso. Já na madrugada de segunda-feira (16), a obra do cantor de 84 anos passou pela Sapucaí na visão do carnavalesco Leandro Vieira. As alegorias chamaram atenção pelo uso intenso de cores e por referências às múltiplas fases do artista, conhecido pelo perfil camaleônico e transgressor.

Os carros alegóricos impressionaram pelo impacto visual e pelo simbolismo. O primeiro trouxe uma representação realista de “O Homem Neandertal”, música lançada em 1975, cercada por camaleões brilhantes que simbolizavam a recusa de rótulos ao longo da carreira. Fantasias também retrataram personagens marcantes como o “Bandido”, a figura mascarada de “Secos e Molhados” e o “Bandoleiro”, reforçando a proposta artística — e não biográfica — da homenagem.

Outros destaques incluíram a alegoria de um lobisomem de cerca de 20 metros, com movimentos e olhos vermelhos piscando, além da bateria fantasiada de “Bandido” e da rainha Iza, que desfilou com figurino de serpente soltando fumaça. O samba não empolgou as arquibancadas, embora a letra tenha ressaltado a postura política do artista e sua resistência à Ditadura Militar. 

Imperatriz Leopoldinense – Foto: Bianca Santos | Riotur

O ápice da apresentação ocorreu quando Ney surgiu no alto da última alegoria, emocionado e vibrante, dançando e cantando enquanto exibia um figurino com cristais, arrancando aplausos da comunidade na Sapucaí.

Portela – resistência negra do Rio Grande do Sul

Portela – Foto: Clara Radovicz | Riotur

A Portela entrou na avenida em busca do 23º título com o enredo “O mistério do Príncipe do Bará – A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, exaltando a religiosidade, a cultura e a resistência da população negra no Rio Grande do Sul, estado com o maior número de terreiros no país. A escola desenvolveu a narrativa a partir do encontro entre o personagem folclórico Negrinho do Pastoreio e o orixá Bará, do Batuque gaúcho, e apresentou a trajetória do Príncipe Custódio, africano do Benin que se estabeleceu no Sul do Brasil e ganhou reconhecimento como curandeiro e feiticeiro.

Logo no esquenta, a emoção tomou conta da azul e branco de Madureira. O intérprete estreante Zé Paulo Sierra conduziu sambas marcantes enquanto Vinicius Suma, filho de Gilsinho, chorou ao lembrar o pai, que morreu no ano passado após 18 anos como voz oficial da escola. Na avenida, a comissão de frente apostou em efeitos de luz e surpreendeu ao colocar um componente sobrevoando o público com o auxílio de um drone cenográfico. 

O abre-alas, o maior da história da agremiação, encenou um xirê para simbolizar o encontro entre Bará e Negrinho do Pastoreio, enquanto outras alegorias destacaram a tradicional águia da escola e uma referência a Iemanjá com água em movimento.

Portela – Foto: Clara Radovicz | Riotur

Apesar do impacto visual, o quinto e último carro, que levava a Velha Guarda, apresentou problemas e quase ficou fora do desfile, obrigando a escola a parar e provocando um clarão na avenida. 

Ainda assim, a Portela conseguiu reorganizar a evolução e encerrar a apresentação dentro do tempo regulamentar. 

Mangueira, um canto a um guardião da Amazônia

Mangueira – Foto: Lucas Victorio | Riotur

A Mangueira encerrou em ritmo intenso, nas primeiras horas da manhã de segunda-feira (16) e levantou o Sambódromo com o enredo “Mestre Sacaca do encanto Tucuju – O guardião da Amazônia Negra”. A escola homenageou o curandeiro amapaense Mestre Sacaca e exaltou a identidade do povo Tucuju, indígenas da foz do Rio Oiapoque, além de destacar a força da cultura afro-indígena. Sacaca também marcou época no Carnaval do Amapá, onde atuou como Rei Momo por mais de duas décadas.

Na avenida, a comissão de frente apresentou um efeito visual impactante, com marionetes de onças e uma imponente árvore-mãe no centro da coreografia. A bateria “Tem Que Respeitar Meu Tamborim”, comandada por Taranta Neto e Rodrigo Explosão, manteve o público animado ao lado do intérprete Dowglas Diniz, incorporando a caixa de marabaixo às paradinhas e reforçando o canto forte da escola. A rainha Evelyn Bastos desfilou com figurino que remetia à fumaça de feitiço, enquanto o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Matheus Olivério e Cyntia Santos, demonstrou sintonia e precisão.

As fantasias e alegorias trouxeram referências à fauna e à flora da chamada Amazônia Negra e celebraram o legado do homenageado. Apesar do impacto visual, o primeiro carro enfrentou problemas ao deixar a avenida, o que gerou apreensão e mobilizou dezenas de integrantes para empurrar a estrutura na Praça da Apoteose. A escola resolveu a situação sem comprometer o tempo regulamentar e encerrou o desfile em 79 minutos.

Mangueira – Foto: Lucas Victorio | Riotur

No último carro, a família de Mestre Sacaca, incluindo a viúva Madalena Sacaca, de 93 anos, acompanhou a homenagem e emocionou o público ao saudar a Sapucaí diante de uma grande representação do curandeiro.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *