“Donald Trump roubou ilegalmente seu dinheiro. Ele deveria devolver para você. Em vez disso, Trump está tramando novas formas de forçar os americanos a pagarem ainda mais”, denunciou a senadora democrata Elizabeth Warren, após o atual inquilino da Casa Branca decretar, no lugar do tarifaço invalidado pela Suprema Corte, uma tarifa global de 15% – um dia antes seria de 10% – agora alegando agir sob legislação da seção 122 da Lei de Comércio de 1974, o que é válido por 150 dias e começa a vigorar nesta terça-feira (24).
“Acabou de anunciar um NOVO IMPOSTO de 15% sobre o povo americano”, advertiu o governador da Califórnia, o oposicionista Gavin Newson. Para a senadora Amy Klobuchar que o que Trump fez “foi apenas reforçar a aposta e tentar piorar a situação, o que, claro, vai gerar mais custos e caos para o povo americano.”
O governador de Illinois, JB Pritzker, enviou carta à Carta Branca, exigindo que cada habitante de seu Estado seja ressarcido em US$ 1000, que é quanto custou em média aos americanos o aumento de preços decorrente do tarifaço, arcado essencialmente por importadores e consumidores, e não pelos exportadores, como Trump prometia.
Segundo a decisão da Suprema Corte, “nada” na lei usada por Trump como justificativa para o tarifaço, a lei de emergência econômica de 1977, “permite ao presidente impor tarifas unilateralmente” e só o Congresso, constitucionalmente, pode criar e cobrar impostos e tarifas, uma vez que não se compromovu a “emergência”.
Sobre o litígio já previsto entre o governo e os lesados, orçado em US$ 175 bilhões, o secretário do Tesouro, Scott Bessent cinicamente comentou: “eu tenho a sensação de que o povo americano não vai ver isso”.
“REGIME TARIFÁRIO ILEGAL E PREJUDICIAL AO POVO AMERICANO”
Em carta aberta a Trump, o economista e conselheiro da ONU, Jeffrey Sachs, afirmou que o presidente “tirou fundos do povo americano que nunca lhe cabia receber. Devolva-os e acabe com o abuso de poder”.
“Seu regime tarifário foi ilegal, injusto e prejudicial ao povo americano. Você também deturpou grosseiramente os fatos para o povo americano ao alegar que países estrangeiros estavam pagando. Não estavam. Famílias americanas pagavam”.
“Economistas do Fed de Nova York, do Instituto de Kiel e de outras instituições independentes de pesquisa chegaram à mesma conclusão: o ônus das tarifas recaiu esmagadoramente sobre importadores, empresas e consumidores americanos. Exportadores estrangeiros mal reduziram seus preços, então as tarifas foram repassadas aos americanos e apareceram como preços mais altos para consumidores e empresas”.
“Durante o último ano, em média, as famílias americanas pagaram cerca de $1.000 ou mais. Para famílias que vivem de salário em salário, isso não é abstrato. Isso é aluguel esticado até o limite. Isso significa os supermercados subindo de preço enquanto os salários não acompanham. Os americanos da classe trabalhadora que acreditavam em suas promessas foram os que arcaram com o custo dessa tomada de poder.”
“Você disse que as tarifas reduziriam drasticamente o déficit comercial. Isso estava errado porque os déficits comerciais dos EUA refletem a baixa taxa de poupança dos EUA, especialmente os grandes déficits orçamentários dos EUA. Na verdade, o déficit de bens dos EUA em 2025 foi de US$ 1,241 trilhão, pior que o déficit de US$ 1,215 trilhão em 2024. Você disse que restauraria os empregos na manufatura. No entanto, o emprego na manufatura em janeiro de 2026 foi de 12,590 milhões, em comparação com 12,673 milhões em janeiro de 2025, uma queda de 83.000 empregos ano a ano.”
Sachs condenou, ainda, os cortes de impostos de Trump que beneficiaram desproporcionalmente as famílias mais ricas e grandes corporações. “A abordagem do seu governo efetivamente proporcionou alívio fiscal para os ricos, coberto em parte por tarifas regressivas que atingem a classe trabalhadora e os pobres. E grande parte dos seus cortes de impostos é paga com tinta vermelha, dívidas empurradas para o futuro, que serão suportadas pelos jovens de hoje nos próximos anos”.
“Uma tarifa de 15% em todas as áreas simplesmente continuará o mesmo imposto regressivo sobre o povo americano que você implementou ilegalmente com a alegação de poderes de emergência. Mais uma vez, significaria preços mais altos em alimentos, roupas, eletrônicos, materiais de construção e inúmeros itens essenciais do dia a dia. Mais uma vez, isso recairá mais sobre as famílias trabalhadoras, que gastam a maior parte de sua renda com esses bens”.
“Um imposto regressivo ilegal não pode ser remediado substituindo-o por um imposto regressivo possivelmente legal e temporário. Os Estados Unidos precisam de uma reforma tributária real. O código tributário precisa de progressividade. Precisa fechar brechas que permitem que os americanos mais ricos e as multinacionais evitem pagar sua parte justa de impostos, especialmente em uma era em que onze bilionários do Vale do Silício possuem 2,6 trilhões de dólares em riqueza pessoal”.
“POSSO DESTRUIR PAÍSES, MAS NÃO POSSO COBRAR TARIFA”
Chama a atenção a forma delirante com que Trump reagiu à contenção decidida pela Suprema Corte, com ele reclamando que “posso destruir um país, mas não posso cobrar uma pequena taxa”.
“Tenho permissão para cortar qualquer comércio ou negócios com esse mesmo país. Em outras palavras, posso destruir o comércio, posso destruir o país. Tenho até permissão para impor um embargo que destrua um país estrangeiro. Posso fazer embargo, posso fazer o que quiser, mas não posso cobrar um dólar porque não é isso que está escrito, e nem é assim que está sendo lido. Posso fazer o que quiser com eles, mas não posso cobrar dinheiro. Então posso destruir o país, mas não posso cobrar uma pequena taxa. Pense nisso. Quão ridículo é isso? Posso impor embargo a eles, posso dizer que não podem mais fazer negócios nos Estados Unidos, ‘queremos você fora daqui’, mas quero cobrar 10 dólares. Eu não posso fazer isso. Está errado, a decisão deles está errada. Mas não importa porque temos alternativas muito poderosas”.
Após repetir pela enésima vez que é o mundo inteiro que “rouba os EUA”, Trump voltou a fazer ameaças.
Em uma das postagens, Trump declarou: “Qualquer país que queira ‘brincar’ com a decisão ridícula da Suprema Corte, especialmente aqueles que vêm ‘explorando’ os EUA há anos — e até décadas — enfrentará uma tarifa muito mais alta, e algo ainda pior, do que aquela com a qual concordou recentemente. COMPRADOR, CUIDADO!!! Obrigado pela atenção a este assunto”.
NÃO HÁ VENCEDORES NUMA GUERRA COMERCIAL, REITERA A CHINA
Com a entrada em vigor da tarifa de 15%, a China pediu na segunda-feira (23) ao governo dos Estados Unidos o cancelamento das tarifas unilaterais anunciadas pelo presidente Donald Trump, depois que a Suprema Corte declarou ilegais grande parte das taxas. O Ministério do Comércio chinês afirmou que está fazendo uma “ampla avaliação” do impacto da decisão e pediu a Washington que suspenda as tarifas.
“A China pede aos Estados Unidos que cancelem suas tarifas unilaterais contra seus parceiros comerciais”, afirmou o ministério em um comunicado. “Não há vencedores em uma guerra comercial e o protecionismo não leva a lugar nenhum”.
A União Europeia (UE) congelou a tramitação do acordo comercial com os Estados Unidos após a decisão da Suprema Corte norteamericana. A informação foi confirmada pelo presidente do Comitê de Comércio Internacional do Parlamento Europeu (INTA, na sigla em inglês), Bernd Lange, em publicação no X. “Agora é oficial: o trabalho do Parlamento sobre o acordo UE-EUA está suspenso até novo aviso”, escreveu. Segundo ele, a equipe de negociação decidiu suspender a implementação jurídica do tratado e adiar a votação prevista para esta terça-feira. “Clareza e segurança jurídica são necessárias antes que quaisquer novos passos possam ser dados”, acrescentou.
O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, em entrevista ao programa Face The Nation, da CBS, tentou minimizar o caos que Trump vem causando. Declarou que os entendimentos firmados com parceiros como China, União Europeia, Japão e Coreia do Sul continuam válidos.
Greer buscou diferenciar esses acordos da tarifa global de 15% anunciada no sábado. “Queremos que eles entendam que esses acordos serão bons acordos”, afirmou. “Vamos mantê-los. Esperamos que nossos parceiros também os mantenham”.











