Zema cortou verba de combate às enchentes em 96%; mortes em Minas chegam a 59

Mulher se segura em poste para não ser levada pela enxurrada. em Juiz de Fora - Foto: Reprodução/Redes Sociais

Deputada Dandara acionou a PGR para investigar o corte de verba pelo governador bolsonarista

Os gastos do governo Zema em Minas Gerais voltados à infraestrutura para enfrentar efeitos das chuvas despencaram 96% em dois anos, caindo de R$ 135 milhões em 2023 para cerca de R$ 6 milhões em 2025, conforme registros oficiais. Os dados do desgoverno do bolsonarista causam revolta em meio aos temporais que atingem a região da Zona da Mata e que causaram a morte de 59 pessoas, além de 3,5 mil desabrigados e 15 desaparecidos.

Levantamento baseado em dados do Portal da Transparência estadual, divulgado pelo jornal O Globo, aponta redução acentuada nos valores pagos para ações ligadas ao enfrentamento de danos provocados por chuvas. Em 2023, a administração mineira desembolsou aproximadamente R$ 134,8 milhões nessa área. O montante caiu para R$ 41,1 milhões no ano seguinte e despencou para R$ 5,8 milhões em 2025. Já nos dois primeiros meses deste ano, apenas R$ 16.100 haviam sido destinados à infraestrutura voltada a temporais.

A análise considerou programas sob responsabilidade do governo — inclusive os vinculados ao Gabinete Militar, responsável pela Defesa Civil — e reuniu todas as rubricas que citavam a palavra “chuvas”. No sistema oficial, esses gastos aparecem sob a descrição de “suporte às ações de combate e resposta aos danos causados pelas chuvas” e incluem despesas com gestão de desastres, atendimento emergencial, mitigação de prejuízos em rodovias e prevenção de eventos meteorológicos severos.

Questionado sobre a redução dos valores pagos, o governo não respondeu até o encerramento da apuração. Os dados referentes ao primeiro mandato de Romeu Zema, entre 2019 e 2022, não estão disponíveis no portal público.

Em nota, a administração estadual afirmou que “a gestão do atendimento e dos gastos públicos durante o período chuvoso envolve vários órgãos e não apenas a Defesa Civil”. Também declarou que, “Somando todos os recursos investidos”, existem, desde 2022, “mais R$ 170 milhões empregados na prevenção e resposta a desastres, desde Tesouro Estadual, emendas, recursos do acordo Brumadinho, Fundos do MPMG dentre outros, empenhados no fortalecimento das defesas civis municipais”.

Após os temporais, o vice-governador Mateus Simões, candidato de Zema ao governo,  anunciou a liberação de R$ 38 milhões para Juiz de Fora e R$ 8 milhões para Ubá, com objetivo de reforçar medidas contra tempestades. O governador informou ainda que equipes do CREA seriam enviadas para mapear áreas de risco e que técnicos da Copasa e carretas humanitárias chegariam às cidades atingidas.

Durante visita a uma das regiões afetadas, Zema declarou: “Fiz questão de me deslocar até Juiz de Fora. Eu estava no Noroeste de Minas Gerais. Tão logo tomamos conhecimento da gravidade das ocorrências aqui, ainda de madrugada, determinei ao coronel Rezende, nosso chefe da Defesa Civil, que empenhasse todos os esforços possíveis no sentido de tentarmos salvar o maior número de pessoas”.

Uma moradora de Ubá, no entanto, questionou os cortes realizados pelo governador do Novo.

“A gente precisa de máquina, caminhão-pipa para lavar. Olha a bagunça que está isso aqui”, afirmou. “Agora vir assim, limpinho, desse jeito, e não ajudar, não adianta”.

AJUDA FEDERAL

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou solidariedade e informou que uma equipe da Força Nacional do SUS está a caminho e que a Defesa Civil Nacional opera em alerta máximo. O governo federal reconheceu estado de calamidade pública decretado em Juiz de Fora.

Com previsão de novas chuvas, a Defesa Civil estadual determinou a evacuação total de 24 ruas distribuídas em quatro bairros de Juiz de Fora — Três Moinhos, Vila Ideal, Esplanada e Paineiras — com estimativa de retirada de cerca de 600 famílias. No bairro Três Moinhos, a orientação inclui deixar as ruas Maria Florice dos Santos, João Luzia, José de Castro Ribeiro, José Luiz Flores, Manoel Clemente, Vicente Paulo Bacelar e Natalina de Andrade Guerra.

INVESTIGAÇÃO CONTRA ZEMA

A deputada federal Dandara Tonantzin (PT-MG) protocolou ofício ao procurador-geral da República (PGR), Paulo Gonet, requerendo a abertura de um Procedimento de Investigação Criminal (PIC) para apurar a responsabilidade penal do governador Romeu Zema diante da tragédia que assola Juiz de Fora, Ubá e Matias Barbosa.

“Não podemos tratar como fatalidade o que é fruto de escolha política. Enquanto a população da Zona da Mata perde a vida e a dignidade sob a lama, o governo estadual corta verbas de prevenção. Acionei a PGR porque essa redução de recursos, que ignorou o risco climático e vitimou pessoas, é criminosa. Alguém precisa responder pelas mortes e pelo rastro de destruição que poderia ter sido evitado ou mitigado”, afirma Dandara.

Para a parlamentar, a perda de vidas e a destruição de cidades não são apenas fruto da natureza, mas sim de uma “omissão administrativa grave”.

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