70 anos do Relatório Khrushchov: a traição que abalou o mundo comunista

Joseph V. Stalin em fevereiro de 1950 (foto: Sovfoto)


DAVI MOLINARI

Há exatos 70 anos, em 25 de fevereiro de 1956, o movimento comunista internacional sofria um dos seus golpes mais profundos, desferido não pelo imperialismo, mas de dentro do próprio Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética. Nikita Khrushchov, em uma sessão fechada após o XX Congresso do PCUS, proferia o famigerado “Relatório Secreto”, intitulado “Sobre o culto à personalidade e suas consequências”.

O documento, que “jamais foi submetido à aprovação dos delegados” nem constou em atas oficiais, tornou-se o marco inicial do revisionismo que tentou enterrar a obra de Josef Stálin e, por consequência, a própria coesão da luta revolucionária mundial.

MANOBRA DE KHRUSHCHOV VISAVA IGNORAR CONQUISTAS SOCIALISTAS

Como destacou o jornalista, historiador, ex-senador italiano e cofundador da ALN junto a Carlos Marighela, José Luiz Del Roio, em recente entrevista ao canal Tutaméia, “o relatório foi uma infâmia política deliberadamente vazada ao Ocidente”.

Del Roio recorda que a manobra de Khrushchov “visava isolar Stálin, atribuindo a ele a origem de todos os males, ignorando as conquistas colossais da construção socialista”.

Ao atribuir erros e expurgos a um único homem, o relatório não apenas golpeou a memória do dirigente que comandou a vitória sobre o nazifascismo, mas abriu as comportas para a desmoralização de milhões de militantes e para a fragmentação de partidos em todo o globo.

O IMPACTO DA “DESESTALINIZAÇÃO” NO BRASIL

No Brasil, o impacto foi sísmico. O antigo PCB capitulou às teses da “desestalinização” e da “via pacífica” para o socialismo, abandonando a perspectiva revolucionária em favor de uma aliança subordinada à burguesia nacional.

Foi neste cenário de crise interna que o núcleo proletário e revolucionário, liderado por João Amazonas, Maurício Grabois, Pedro Pomar e Diógenes Arruda Câmara, ergueu a bandeira da resistência marxista-leninista. Para esses dirigentes, aceitar o relatório significava aceitar o desarmamento ideológico frente ao imperialismo.

A reorganização do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), em fevereiro de 1962, foi a resposta dada. Ao resgatar o nome original e o Manifesto-Programa, os fundadores do PCdoB alinharam-se à ala internacional que, como os comunistas chineses, percebia no khruschovismo semente da restauração capitalista – o que foi levado a cabo mais tarde com Gorbachev. Documentos históricos do partido, preservados pela Fundação Maurício Grabois, reafirmam que o relatório foi uma desqualificação revisionista das conquistas da URSS. A coerência de Diógenes Arruda, João Amazonas, Maurício Grabois e Pedro Pomar impediu a dilapidação do marxismo-leninismo no Brasil, o que mais tarde resultou no vigor que o Partido precisava para atravessar os anos de chumbo e resistir à ditadura com a histórica Guerrilha do Araguaia.

Del Roio sintetiza com clareza o que estava em jogo: “o legado de Stálin é a prova de que é possível vencer”, afirmou. Ao assumir um país agrário e cercado, Stálin coordenou a transformação da URSS em uma potência industrial e militar capaz de esmagar a máquina de guerra de Hitler. Para o historiador, o relatório de 1956 foi um crime contra a verdade histórica, servindo como arma na guerra ideológica do imperialismo para dividir o campo socialista.

Setenta anos depois, o balanço realizado pelo PCdoB, consolidado a partir do seu 8º Congresso em 1992, mantém-se dialético e atual. O partido reconhece os erros e as violações da legalidade socialista do período, mas recusa a narrativa liberal que tenta equiparar o comunismo ao fascismo. Valoriza a industrialização e o papel geopolítico da URSS, enquanto critica o revisionismo que enfraqueceu o Estado operário.

Hoje, o debate ganha novos contornos com as resoluções do Partido Comunista da Federação Russa, que busca revisar o relatório de Khrushchov.

Publicado originalmente no Portal Vermelho. Reproduzido com autorização do autor e do próprio Portal.

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