DAVI MOLINARI
O chope no Fale Mais Sobre Isso estava tão gelado que anestesiava a língua — pena que não existe versão intravenosa para anestesiar a paranoia. Nem o colarinho cremoso que o Juvenal serve com orgulho de mestre-cervejeiro conseguia baixar a febre da minha cabeça.
Olhei ao redor. O bar seguia sua diplomacia habitual: nossa pequena Suíça etílica. Numa mesa, estudantes dissecavam o avanço do fascismo; noutra, poetas amaldiçoavam as ameaças ao STF com a métrica de um soneto raivoso. E o Doutor permanecia ali, imóvel, vestido de linho amarrotado e um silêncio clínico que pesava mais que a conta do mês.
— Sabe, Doutor… — comecei, girando o copo como quem tenta decifrar o destino na espuma. — Ando mais tenso que produtor de petróleo quando vê porta-aviões norte-americano no horizonte prometendo “trazer democracia”. Tenho a sensação de que humanismo virou raridade, tipo discurso de pastor carioca sem palavrão. O lema do mundo agora é: “viver e pisotear — de preferência com filtro no Instagram”.
Juvenal chegou com uma travessa de manjubinhas crocantes, espalhando aquele perfume de fritura honesta que, se não resolve o mundo, pelo menos justifica a existência dele.
— O senhor tá certo, patrão — disse ele, servindo outra rodada com a precisão de um alquimista. — Hoje o pessoal cultiva desprezo como quem faz day trade: quanto mais frio o coração, maior a cotação no mercado da vaidade. Quer prestígio? Pisa no vizinho. Quer riqueza? Limpa o terreno com bomba ianque em nome da “liberdade de jogar bombas”. É o narcisismo em escala industrial. O sujeito se acha o Sol e o resto que vire poeira de míssil “inteligente” — que de inteligente não tem nada, já que só sabe o caminho de bairro pobre.
O Doutor arqueou a sobrancelha. Tirou o indefectível bloquinho do bolso e anotou algo com a calma de quem registra os sintomas de uma doença crônica chamada humanidade.
— E olha o nível dos nossos vilões, Doutor! — continuei, engatando a marcha do sarcasmo. — O general que planeja o fim da República, mas registra o passo a passo no “Meu Querido Diário”. O banqueiro 171 que guarda a prova do crime no bloco de notas do celular, achando que é o James Bond da Faria Lima. É uma mistura de psicopatia com amadorismo digital. Como essa gente chegou ao generalato ou ao topo de um banco? Só a ausência absoluta de medo — e de caráter — explica.
Bebi um gole longo, deixando o amargor do lúpulo limpar o paladar.
— Ser insensível virou likes nas redes sociais. Se você se comove com criança morta no Irã por drone ou com a destruição da nossa cultura por hordas patrióticas de camiseta falsificada, te chamam de fraco. Empatia agora é defeito de fabricação.
O boteco fervia sob o calor das indignações. O Doutor fechou o bloquinho com aquele estalo seco de sentença final. Ajeitou os óculos, mirou o meu semblante cansado e, pela primeira vez, soltou a voz:
— O problema, meu caro, é que quem despreza a vida para preencher o próprio vazio com bilhões e cadáveres termina por devorar a si mesmo: vira um mausoléu de ouro erguido sobre quem nunca suportou a verdade do espelho.
Levantou-se, fez um breve aceno de cabeça e saiu com a elegância de quem acabou de dar alta para a própria ironia. Fiquei ali, processando o nocaute, quando o Juvenal passou recolhendo os copos e arrematou com sabedoria de balcão:
— No fundo, patrão, esses bilionários são igualzinhos a essas manjubinhas aqui.
— Como assim, Juvenal?
Ele deu um sorriso torto, limpando a mesa com o conhecido pano de prato:
— Fazem pose de tubarão no aquário… mas continuam cabendo direitinho na frigideira dos esfomeados.
Juvenal piscou e me deixou com a conta — e a sensação de que, no fim, o óleo quente da história não poupa ninguém.
Publicado originalmente em Divã no Boteco – LXXXII. Enviado pelo autor.











