OCTÁVIO ALVARENGA DE SOUZA*
“Na minha vez de pagar as contas, tá tudo caro!”
Essa é uma frase que é frequentemente utilizada em tom de humor pelos jovens que dão seus primeiros passos na vida adulta. Apesar de cômica, ela representa a realidade vivida pela juventude trabalhadora brasileira.
Somos uma geração que enfrenta diversas dificuldades quando o assunto é a emancipação para a vida adulta. Alimento está caro, aluguel está caro, energia está cara, ter um automóvel é praticamente inviável, planejar ter filhos é desesperador por conta dos altos custos, etc. Por exemplo, segundo o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), o valor para sustento de uma família de quatro pessoas é de R$7.229,32, o que equivale a 4,76 vezes o salário mínimo. Ou seja, muitos passam a viver à margem das necessidades básicas de sobrevivência porque o que recebem não é suficiente para seu sustento.
Essa realidade não é acaso: é resultado direto das decisões políticas e econômicas tomadas historicamente por governos brasileiros, que deixam de lado as necessidades materiais do povo, da classe trabalhadora, e atendem aos interesses de grandes rentistas. O grande destaque dado aos especuladores é característica desta fase do capitalismo que vivemos, como pontua V. Lênin em “Imperialismo: grau superior do capitalismo”. Nesta célebre obra, o filósofo e revolucionário marxista do início do século XX já pontua que o estágio avançado do capitalismo tem seu funcionamento baseado na formação de grandes monopólios financeiros, que controlam política e economicamente países da periferia capitalista.
O Brasil, alocado no sul global, exerce papel de exportador de commodities para os países centrais, em detrimento de uma industrialização voltada para o abastecimento do mercado interno. Nesse contexto, o mercado externo se impõe sobre as prioridades da soberania nacional. Diminuição dos gastos da máquina pública, reformas fiscais, administrativas e previdenciárias, privatizações e sucateamento dos serviços básicos, retirada de direitos, são alguns dos sintomas dessa política entreguista construída a partir da agenda neoliberal.
Tudo isso provoca a redução da qualidade de vida dos trabalhadores que diariamente enfrentam duras condições de trabalho em troca de um salário que não atende suas necessidades. Contudo, houve uma época em que não era assim. Durante o período de industrialização brasileira (que ocorreu em alguns lampejos ao longo da nossa história, mas, sobretudo, concentrado na Era Vargas) as coisas eram diferentes. Com investimentos massivos do Estado na indústria nacional, essa representava quase 30% do PIB, com crescimento de 12% ao ano. A indústria dava fôlego à garantia de direitos trabalhistas, previdência social, criação e valorização do salário mínimo, criação de estatais estratégicas ao desenvolvimento nacional.
E o que nos impede de caminhar nessa mesma direção nos dias atuais? As taxas de juros impostas pelo Banco Central do Brasil, que amarram o projeto de desenvolvimento brasileiro. Com a taxa Selic a 14,25% ao ano, como é hoje (abril de 2026), o Brasil destina um enorme montante para os bancos com a finalidade de pagamento de juros da dívida pública. No ano de 2025, aproximadamente 1 trilhão de reais foi destinado aos banqueiros. Esse dinheiro é justamente o que deveria ser investido em programas sociais, na indústria, na educação, na saúde, em ciência e tecnologia e ser capaz de gerar a qualidade de vida que a classe trabalhadora almeja.
Além disso, nos deparamos diariamente com um bombardeio de propagandas que culpabilizam o indivíduo por suas dificuldades. “Trabalhe enquanto eles dormem”, “saia da sua zona de conforto” e “mude seu mindset” são alguns exemplos de frases de efeito amplamente difundidas na sociedade e adoecem a juventude brasileira recém chegada ao mercado de trabalho. São ideias que tentam passar a impressão de que a saída para esses problemas também está na individualidade.
Esse é, portanto, o destino de nossa geração? Estamos fadados à viver ajoelhados, em condição de submissão aos interesses dos monopólios financeiros? Viveremos eternamente em jornadas de trabalho exaustivas, com salários baixos, com cada vez menos direitos? É nosso destino acreditar que apenas a nossa força de vontade será capaz de garantir o nosso sucesso e uma vida digna? Apesar da dura realidade, há esperança e saída para os jovens.
Essa saída reside justamente no combate à ideologia individualista que nos é imposta. Moram na coletividade e na organização da nossa luta através de ferramentas como o partido, o sindicato e as organizações estudantis. Essas, historicamente são ponta de lança na luta em defesa dos trabalhadores e de um projeto de nação que tenha como foco a emancipação da juventude e a garantia de direitos.
Nos organizamos tendo como horizonte a construção de uma sociedade em que haja garantia de direitos plenos, em que não haja desigualdades, onde as consciências sejam transformadas e haja completo abandono da individualidade cega. Esse é o nosso compromisso: a luta em defesa de um Brasil soberano, livre do rentismo predatório. Seguimos na defesa da redução das taxas de juros, da valorização do salário mínimo e dos investimentos massivos na indústria visando o desenvolvimento nacional e a construção do socialismo.
Octávio Alvarenga De Souza é geógrafo e militante da Juventude Pátria Livre – JPL











