O advogado Vladimir Timerman afirmou aos senadores, na CPI do Crime Organizado, que alertou o BC e a CVM sobre as negociatas ligadas ao banco de Vorcaro, à Gafisa e aos precatórios
O advogado Vladimir Timerman, em depoimento na CPI do Crime Organizado, no Senado Federal, afirmou que o Banco Central (BC), sob a administração do bolsonarista Roberto Campos Neto, foi omisso diante das graves advertências e denúncias sobre a ação do crime organizado no sistema financeiro nacional.
Timerman atua no mercado financeiro e é fundador da Esh Capital. Ele apresentou-se voluntariamente à CPI do Crime Organizado que está em andamento no Senado Federal e falou que acompanhou de perto as operações sob suspeita que envolveram precatórios, fundos e ativos ligados aos interesses de Daniel Vorcaro e Nelson Tanure, lembrando que, à época, não houve nenhuma manifestação dos órgãos responsáveis pela regulação do setor, no caso, o BC.
“Se tivessem prestado atenção no que eu falei, teriam evitado”, disse Timerman ao reconstituir a sequência de denúncias sobre a estrutura de funcionamento do Master, sua estrutura societária e as operações que inflaram artificialmente balanços.
O advogado sustentou que o problema não surgiu por falta de aviso, mas apesar dos avisos. E, ao falar do Banco Central, deixou claro que se referia ao período em que a instituição era comandada por Roberto Campos Neto.
Timerman também avaliou o desempenho da Comissão de Valores Imobiliários no episódio envolvendo o Master. Além das advertências ao BC, ele afirmou que a CVM já vinha recebendo, anos antes, informações sobre operações ligadas à Gafisa que, na visão dele, antecipavam o modelo que depois apareceria no Banco Master em escala maior.
CVM TAMBÉM FOI OMISSA
Timerman destacou que o problema não esteve concentrado apenas nos operadores privados, mas também nos organismos oficiais que tinham o papel de fiscalizar e não fiscalizaram os indícios de irregularidades que já eram visíveis naquele momento, ou seja, segundo ele, o sistema regulatório foi avisado, teve acesso a dados relevantes e, mesmo assim, permitiu que o quadro se agravasse, chegando onde chegou.
“Muito se pergunta como que o banco inflou o balanço, né? E qual que é a responsabilidade de Roberto Campos Neto em cima disso? Eu fiz uma denúncia pro Banco Central em 2023, onde mencionava especificamente as operações com precatórios. Obviamente não foi exaustivo, mas se tivessem prestado atenção no que eu falei, teriam evitado. 29 dias depois da minha denúncia pro Banco Central, é promulgado aquele regulamento do Banco Central, o que impediu o banco de continuar fazendo o que estava fazendo com precatórios com títulos de crédito”, afirmou Timerman, desmontando a tese de que o Master teria surpreendido a supervisão financeira.
De acordo com o advogado, houve uma primeira denúncia ao BC apontando que Nelson Tanure era, “no mínimo”, sócio do Banco Master. Depois, afirmou ter formalizado uma segunda denúncia, desta vez centrada nas operações com precatório, sustentando que chegara à autoridade monetária não apenas boatos e ruídos do mercado, mas alertas formais sobre a oxigenação artificial do balando do banco de Vorcaro.
“Como uma estrutura cercada por esse tipo de alerta prévio conseguiu seguir operando sem um freio regulatório duro?”, questionou o depoente, demonstrando que a reação do BC foi insuficiente ou quase nula para barrar as negociatas, mesmo depois de ter recebido informações concretas sobre o que se passava.
Timerman afirmou que vinha levando à autarquia, desde 2019, informações sobre operações ligadas à Gafisa e a estruturas que, segundo ele, depois reapareceriam no caso Master.
Na linha do tempo apresentada à CPI, um dos marcos decisivos foi um parecer técnico de 22 de novembro de 2022. Segundo o depoente, esse documento já apontava uma série de desvios e recomendava a abertura de inquérito administrativo. Ainda assim, afirmou que o inquérito só foi aberto 473 dias depois.
Esse número foi usado por Timerman para sustentar a tese de que a CVM não apenas soube do problema, mas levou tempo demais para transformá-lo em medida concreta. A crítica, portanto, não ficou restrita ao mérito técnico da fiscalização. Ela recaiu diretamente sobre a demora da autarquia em agir.
Timerman elevou o tom ao máximo quando passou a descrever o papel da CVM no avanço do caso. Em um dos trechos mais duros do depoimento, afirmou que a autarquia é “mais culpada” na parte de “não investigar, de bloquear, de mentir para a Polícia Federal”.
A frase é central porque desloca a crítica da mera ineficiência para um plano muito mais grave. Na versão apresentada por ele, a CVM não falhou apenas por lentidão burocrática, mas por não agir, por não bloquear e por atrapalhar a circulação de informações relevantes às autoridades de investigação.
PRECATÓRIOS SEM LASTRO
Timerman argumentou em seu depoimento que o uso dos precatórios acabou por sustentar artificialmente o Banco Master, pois certos ativos eram adquiridos por um valor e depois revendidos ou reavaliados por cifras muito superiores, produzindo ganho contábil sem lastro econômico compatível.
Sobre esse mecanismo, afirmou: “O dinheiro era desviado antes de entrar no banco”, reforçando a convicção de que a estrutura não começava no banco em si, mas em operações anteriores, com ativos problemáticos ou superavaliados, que depois alimentariam uma aparência de solidez patrimonial.
A aparente solidez apresentada por Vorcaro ensejou a ampliação da captação, especialmente de CDBs, mantendo a engrenagem em funcionamento. O Master, com isso, se apresentava mais robusto do que realmente era e, assim, facilitava a entrada de dinheiro novo, adiando os problemas que explodiriam depois.
Com o objetivo de ilustrar essa situação, Timerman deu um exemplo específico:, um fundo comprou um ativo por R$ 136 milhões e, cinco dias depois, vendeu esse mesmo ativo por R$ 320 milhões, uma evidência de geração artificial de valor no papel. Não era, portanto, uma crítica genérica ao mercado de ativos estressados, mas uma acusação de uso deliberado desses instrumentos para inflar resultados e sustentar a operação.
MUDANÇA TARDIA
Timerman lembrou que, 29 dias depois da denúncia sobre precatórios, o BC publicou a resolução 346, que passou a dificultar esse tipo de operação ao exigir consolidação nos fundos.
No entanto, segundo ele, a mudança não representou uma ação preventiva rigorosa, mas uma reação tardia diante de um problema já consumado, embora soubesse de sua gravidade muito antes.
Ele também afirmou que, no âmbito do inquérito policial relacionado à Gafisa, o Ministério Público oficiou o Banco Central em junho de 2024 e que a resposta do órgão teria indicado, em essência, que os fatos já eram conhecidos. Ao usar esse episódio, reforçou a principal linha de sua fala: havia ciência prévia, mas isso não se traduziu em ação suficiente para conter o caso.
O depoente também afirmou que a denúncia feita por ele foi vazada e que chegou a ser ameaçado. Disse, ainda, que a resposta encaminhada pela CVM à Polícia Federal sobre investigações envolvendo Gafisa e Nelson Tanure retardou o avanço das apurações. Na lógica da fala dele, houve mais que demora: houve comportamento institucional capaz de travar o curso da investigação.
Timerman insistiu em conectar as denúncias sobre a Gafisa ao caso Banco Master. Na visão exposta à CPI, a Gafisa teria funcionado como uma espécie de laboratório do método que depois apareceria de forma mais robusta no banco.
Ao fazer essa conexão, ele buscou mostrar que o problema não era um episódio isolado, mas um modelo. Esse modelo, segundo o depoente, envolveria ativos difíceis de rastrear, fundos com camadas sucessivas, estruturas opacas e dificuldades para identificar os beneficiários finais do dinheiro. A consequência disso, na narrativa apresentada por ele, foi a formação de um ambiente em que a supervisão pública ficou atrás dos fatos.
Essa ligação entre Gafisa e Master também serviu para reforçar a crítica à atuação dos reguladores. Se os sinais estavam aparecendo antes, e se havia denúncias desde 2019, então a tese de surpresa regulatória perde força. Foi exatamente esse o raciocínio que Timerman tentou construir perante os senadores.
Primeiro, havia denúncias sobre a Gafisa. Depois, surgiram alertas mais diretos sobre o Banco Master. Em seguida, vieram os avisos sobre precatórios e sobre a composição societária em torno do banco. Mesmo assim, segundo o depoente, os órgãos responsáveis falharam em agir quando ainda havia espaço para contenção.
Isso ajuda a explicar por que o depoimento teve impacto político imediato. Ele deslocou o foco da comissão: em vez de discutir apenas quem operou a engrenagem financeira, os senadores passaram a ter em mãos uma narrativa sobre quem viu a engrenagem se formar e, segundo Timerman, não a impediu.











