A inadimplência no Brasil é impulsionada pelo alto custo do crédito, reflexo da manutenção da taxa Selic em níveis nocivos ao consumo e que onera de forma abusiva o endividamento de famílias
Os juros altos fixados pelo Banco Central (BC), além de estarem afastando os brasileiros do consumo, força-os a comprometerem 29,2% de suas rendas para quitar dívidas com os bancos, desde outubro do ano passado, o maior percentual em pelo menos 20 anos, segundo dados da própria autarquia financeira.
Desse total, 10,38% são apenas com pagamento de juros. Os outros 18,81% ficam para a dívida principal, com cartão de crédito, por exemplo, que se deixar de pagar no mês, o juro corre, atolando ainda mais o consumidor nas dívidas.
Pela Lei do Desenrola, de 2023, os juros não podem ultrapassar 100% do montante devido. Ou seja, se a dívida original for R$ 1.000,00, o total de juros e encargos somados não pode ultrapassar R$ 1.000,00, limitando o pagamento final a, no máximo, R$ 2.000,00. Mas na prática, a norma só ataca o tamanho da bola de neve, mas não impede que ela comece a rolar.
Mesmo com o limite, a taxa de juros do cartão de crédito rotativo variou em 424,5%, em média, em janeiro de 2026. Essa modalidade de crédito é tida como válvula de escape para as compras do dia a dia, principalmente para as famílias de baixa renda, com renda arrochada, grande parte atingida pela informalidade no trabalho, em uma economia que desacelera devido à política monetária contracionista do BC.
Em janeiro deste ano, a inadimplência do rotativo chegou a 64,7%, aumento de 10 p.p. e um recorde histórico na série que começou em 2011. Em dezembro, a taxa estava em 55%.
A taxa de juros no parcelado do cartão variou de 188,1% para 194,9% em janeiro deste ano. Já a inadimplência nesta modalidade de crédito ficou em 13%.
No cheque especial, a taxa média de juros cobrada foi de 138,7%. Em janeiro, a inadimplência deste ficou em 16,5%.
Segundo o BC, a inadimplência da carteira de crédito livre (definida pelos bancos) às pessoas físicas chegou a 6,9% em janeiro deste ano, superando os 5,6% registrados no ano anterior.
A inadimplência no Brasil é impulsionada pelo alto custo do crédito, reflexo da manutenção da taxa Selic em níveis nocivos ao consumo e que onera de forma abusiva o endividamento de famílias.
A Selic chegou a cair um pouco, de 13,15% para 10,5%, entre 2023 e meados de 2024, mas voltou a disparar entre setembro de 2024 e junho de 2025, subindo de 10,5% para 15%.
Na última quarta-feira (18), após ter mantido o nível da Selic no seu maior patamar em 20 anos, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC cortou a Selic em apenas 0,25 ponto percentual, diminuindo o nível da taxa de 15% para 14,75% – como ordena o receituário do “sr. mercado”, redução a conta-gotas, ou nada de corte, para manter os lucros dos bancos e rentistas na lua.
Afinal, quando falamos em um juro real (descontada a inflação), a taxa já encosta nos 11%, remunerando o rentismo, enquanto asfixia os setores produtivos do país.
Em fevereiro deste ano, o Brasil atingiu a marca de 73,7 milhões de inadimplentes, alta de 10,22% em comparação ao mesmo período de 2025, segundo levantamento da CNDL e do SPC Brasil divulgado na última segunda-feira (16). O setor bancário concentra a maior parte das dívidas, respondendo por 66,22% do total.
O presidente da CNDL, José César da Costa, alerta que “o avanço da inadimplência reflete o cenário desafiador que o brasileiro enfrenta para equilibrar o orçamento doméstico”.
“O consumidor inadimplente perde seu poder de compra e, por consequência, retira-se do mercado de consumo. Sem crédito e com a renda corroída, o consumo das famílias trava, o que impacta diretamente o dinamismo do comércio e de todo o setor de serviços, retardando a recuperação econômica do país”, completa.











