Um milhão de estudantes argentinos tomam as ruas contra cortes de Milei e pela educação pública

Estudantes e professores protestam contra cortes na educação pública (Luis Robayo/AFP)

Na quarta Marcha Federal Universitária, manifestantes denunciaram a política neoliberal que reduziu o orçamento em 45,6%, arrochou os salários dos docentes e provocou um êxodo em massa, comprometendo a qualidade do ensino. Hospitais universitários estão à beira do colapso

A Marcha Federal Universitária Argentina reuniu mais de um milhão de estudantes nesta terça-feira (12) contra os cortes de Javier Milei que reduziu o orçamento da educação pública em 45,6%, arrochou violentamente os salários dos professores e provocou um êxodo em massa, comprometendo a qualidade do ensino.

Conforme o reitor da Universidade Nacional de Rosário e atual presidente do Conselho Interuniversitário Nacional, Franco Bartolacci, a palavra “crise” é fichinha para tentar descrever o caos instalado pelo desgoverno neoliberal, que sob o pretexto de “reduzir o déficit fiscal”, aplica cortes cada vez mais violentos e sangrentos.

Não é a à toa que está é a quarta marcha a quarta desde que Milei assumiu em dezembro de 2023, disse o presidente do Grêmio Estudantil do Colégio Nacional de Buenos Aires, Fran Pitrola, esclarecendo que o massivo protesto deixou claro que as reivindicações vão além da questão educacional e envolvem “todo o país”.

“Hoje temos que estar na praça para defender a educação pública, que pertence a todos. Esta não é apenas uma luta estudantil; é uma luta de todos que já fizeram parte do sistema público de ensino”, declarou Pitrola, frisando que “nestes dias, as aulas não são garantidas”. “Na escola, praticamente não temos dias letivos completos”, denunciou.

O líder secundarista também condenou os sucessivos cortes aplicados por Milei nos salários de professores e funcionários: “Tivemos uma reunião onde professores, alunos e funcionários não docentes falaram. Um auxiliar de professor disse que ganha 600 mil pesos (R$ 2.128,00) por mês, e isso não é suficiente para nada”. “Isso acaba levando professores a abandonarem as escolas, o que gera instabilidade acadêmica”, assinalou.

Diante do descalabro, os manifestantes exigem a aplicação de uma lei que obriga o governo a garantir recursos para o sistema universitário, a serem atualizados pela inflação. Aprovada pelo Congresso, a legislação foi vetada por Milei, que pediu a intervenção da Suprema Corte, sem prazo para resolvê-la.

CORTE NO FINANCIAMENTO: “ESTRUTURA IDEOLÓGICA E PROGRAMÁTICA”

Com a mesma contundência nas críticas ao desmonte de Milei, o presidente da Federação Universitária Argentina, Joaquín Carvalho, recordou que “há dois anos, o governo decidiu cortar o financiamento das universidades públicas argentinas dentro de uma estrutura ideológica e programática”. Diante desta submissão à política de arrocho fiscal, Carvalho exigiu que “o governo comece a trabalhar para resolver o problema das universidades, porque ele está explodindo em suas caras”,

De acordo com o dirigente universitário, é preciso que Milei “reconheça” a participação maciça da comunidade acadêmica nas ruas, alertando que o descumprimento das leis aprovadas pelo Congresso não pode ser normalizado. “Esperamos que, após esta mobilização, o governo perceba que não pode se safar de descumprir a lei”, enfatizou.

“Isso significa que, em todos os aspectos da vida universitária e científica, estamos operando com metade da nossa capacidade”, alertou o reitor Franco Bartolacci, lembrando que na segunda-feira (11), anterior à marcha, o governo anunciou cortes ainda maiores.

“A questão mais urgente a ser resolvida é a situação salarial do corpo docente e administrativo, que é realmente preocupante, pois seus salários perderam mais de 50% do poder de compra. Para se ter uma ideia, hoje quase 70% dos trabalhadores do ensino superior ganham menos de 650.000 pesos (R$ 2.304,00) por mês”. Enquanto isso, revela, o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) aponta que a cesta básica para uma família custa 1.430.000 pesos (R$ 5.070).

Segundo o presidente do Conselho Interuniversitário Nacional, isso levou as universidades a perderem muitos professores, e aqueles que optam por permanecer acabam tendo vários empregos.

“Estamos em uma situação dramática nas universidades e na ciência argentina”, resumiu o reitor da Universidade de Buenos Aires (UBA), Ricardo Gelpi, lembrando que os hospitais universitários estão à beira do colapso.

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