“Explosão no Jaguaré não é fato isolado”: Sintaema denuncia série de mortes após privatização da Sabesp

Explosão causou uma morte e três feridos no Jaguaré - Foto: Reprodução

Obra da Sabesp que explodiu no Jaguaré revela lógica de corte de custos, terceirização sem qualificação e esvaziamento da regulação, aponta dirigente sindical

A explosão provocada por uma obra da Sabesp no Jaguaré, Zona Oeste da capital paulista, nesta segunda-feira (11), que matou um homem, deixou feridos, destruiu casas e atingiu cerca de 160 moradores, aprofundou as críticas ao modelo de privatização implementado pelo governador bolsonarista Tarcísio de Freitas. Desde a privatização, ao menos três mortes foram registradas em decorrências de obras da Sabesp.

Para o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Sintaema), José Faggian, a tragédia não pode ser tratada como um fato isolado, mas como consequência direta do desmonte promovido na empresa desde sua entrega ao setor privado.

Em entrevista à Hora do Povo, Faggian afirmou que o aumento dos acidentes, dos vazamentos e da deterioração dos serviços está ligado à redução brutal do quadro técnico da companhia, ao avanço da terceirização e à precarização das condições de trabalho após a privatização da empresa, concluída em julho de 2024. “O resultado disso é inevitável: piora da qualidade dos serviços e aumento dos acidentes”, afirmou o dirigente sindical.

Segundo Faggian, o processo de enxugamento começou ainda antes da privatização. A empresa, que possuía cerca de 14 mil trabalhadores, chegou ao processo de venda com aproximadamente 10,5 mil funcionários após programas de demissão voluntária. Já nos primeiros 18 meses depois da privatização, quase 5 mil trabalhadores deixaram a companhia em novos PDVs. A perda drástica de trabalhadores experientes compromete diretamente a segurança operacional do sistema, aponta o sindicalista. “Você dispensa trabalhadores que conhecem o sistema, os mapas e têm know-how acumulado. Não há como isso não impactar o serviço”, declarou.

Ele também criticou a explosão da terceirização na companhia. Segundo Faggian, a própria Sabesp divulga atualmente a existência de cerca de 40 mil terceirizados atuando nas frentes de obras. Para o dirigente, a lógica de redução de custos imposta pela privatização favorece salários baixos, alta rotatividade e menor qualificação da mão de obra. “A gente sabe que esses trabalhadores são mal remunerados e muitas vezes não recebem treinamento adequado”, denunciou.

Faggian ressalta que a precarização afeta diretamente a capacidade técnica das equipes responsáveis por obras de alto risco. “Quando você tem salários reduzidos, você gera alta rotatividade. O trabalhador, para ganhar R$ 1.800 ou R$ 2 mil, hoje faz qualquer outra atividade e recebe isso. Então, você acaba atraindo uma mão de obra menos qualificada”, disse.

Segundo ele, o problema se agrava porque as empresas terceirizadas deixam de investir na formação dos trabalhadores. “E a empresa não tem compromisso de qualificar essa mão de obra. Acho que isso pode ter acontecido com a empreiteira que estava fazendo o serviço pelo lado da Sabesp”, afirmou.

O acidente no Jaguaré ocorreu durante uma obra de remanejamento da rede de água, quando uma tubulação de gás foi atingida. Moradores relataram que alertaram funcionários sobre a existência da rede de gás no local, mas teriam sido ignorados. A explosão destruiu dez imóveis e interditou outros 46.

Representantes da Comgás afirmaram que acompanhavam a obra junto à Sabesp no momento do acidente. Para Faggian, ainda é cedo para apontar responsabilidades definitivas, mas ele observa que a mesma lógica de precarização também atinge a companhia de gás, privatizada desde os anos 1990. “A Comgás também vive essa situação de baixos salários, alta rotatividade e precarização das condições de trabalho”, afirmou.

Segundo o sindicalista, o protocolo para intervenções próximas a redes de gás exige acompanhamento técnico da concessionária, fornecimento de mapas das tubulações e fiscalização permanente da execução do serviço. Mesmo assim, o acidente ocorreu. “Talvez exista uma dupla responsabilidade, mas precisamos aguardar a apuração para não cometer nenhuma injustiça”, ponderou.

FISCALIZAÇÃO COMPROMETIDA

Embora o governador Tarcísio tenha afirmado nesta terça-feira que o Estado fará uma “revisão rigorosa” dos protocolos de segurança da Sabesp e prometido fiscalização severa por parte da Arsesp, a declaração contrasta com o diagnóstico apresentado por Faggian sobre o esvaziamento da própria agência reguladora durante o processo de privatização.

Segundo o dirigente sindical, a Arsesp foi “desidratada” e perdeu capacidade de fiscalização direta. Ele afirma que o modelo implantado transferiu parte das funções de controle para um “agente regulador externo”, contratado para realizar medições e inspeções, enquanto a agência passou basicamente a analisar relatórios.

“A Arsesp hoje está bastante limitada para atuar de forma direta”, afirmou. O presidente do Sintaema também denunciou a extinção do conselho de participação da sociedade civil dentro da agência reguladora, espaço no qual o sindicato tinha representação. “Extinguiram o conselho de usuários da sociedade civil para não ter mais a nossa fiscalização”, declarou.

Faggian avalia que o acidente do Jaguaré se soma a uma sequência de episódios graves ocorridos desde a privatização da Sabesp. Em março deste ano, o rompimento de uma caixa d’água da companhia em Mairiporã matou um trabalhador terceirizado, deixou feridos e destruiu casas e veículos. Também em março, em Mauá, uma idosa de 79 anos morreu após uma tubulação da empresa cair sobre sua residência durante uma obra.

Outros casos também ganharam repercussão, como o rompimento de uma adutora em Osasco, que invadiu residências, e a enorme cratera aberta na Marginal Tietê após um vazamento provocado por obras da Sabesp, problema que afetou o trânsito durante meses.

Para Faggian, o cenário revela os efeitos da política de privatizações do governo paulista sobre serviços essenciais. “Longe de representar melhoria operacional, a lógica privatista tem aprofundado a precarização e reduzido a capacidade de planejamento e segurança”, afirmou.

O dirigente sustenta ainda que o movimento de privatização do saneamento no estado está longe de desacelerar. Ele cita o programa “Universaliza SP”, criado pelo governo Tarcísio para incentivar concessões e privatizações de sistemas municipais de água e esgoto em cidades que ainda mantinham serviços públicos próprios.

“Se não houver mudança na lógica da política do Estado para o saneamento, o que nós vamos ter é um aprofundamento da privatização dos sistemas de saneamento em São Paulo”, alertou José Faggian.

JOSI SOUSA

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *