Em entrevista exclusiva à Hora do Povo, Deyvid Bacelar, presidente da Federação Única dos Petroleiros (FUP) declarou que no governo de Bolsonaro “houve uma desestruturação da cadeia da Petrobrás, que antes era verticalizada – do poço ao posto”. Com o cenário internacional instável e possível alta do petróleo, “o Brasil fica vulnerável, sem controle da cadeia”, afirmou.
O dirigente petroleiro lembrou que a reversão desse quadro é um compromisso do presidente Lula. A entidade participou na terça-feira (25) de uma representativa plenária lançando a campanha com lideranças políticas, sindicais e movimentos sociais na defesa da reestatização da BR Distribuidora, da Liquigás e das refinarias (Veja em Plenária reúne petroleiros, movimentos sociais e parlamentares pela reestatização da BR Distribuidora). Confira abaixo a entrevista:
HP – Se o Brasil é autossuficiente em petróleo, não poderia ser também na produção de diesel?
DEYVID – O Brasil é autossuficiente na produção de petróleo graças ao pré-sal, já há muitos anos. Hoje o pré-sal corresponde a 80% de toda a produção nacional de petróleo. E, por conta disso, nós estamos exportando em torno de 1 milhão e 500 mil barris de petróleo por dia, o que ajuda a balança comercial brasileira se manter positiva já há alguns anos.
Porém, ainda não somos autossuficientes na produção de combustíveis. Petróleo refinado ou combustíveis do futuro, como biocombustíveis e combustíveis sintéticos, que poderiam também estar sendo produzidos para atender a demanda interna. Então, a gente ainda não tem essa autossuficiência.
O presidente Lula, em sua campanha em 2022, se comprometeu com isso, inclusive com base num programa de governo que teve contribuições da FUP.
A empresa voltou a investir no refino. Obras que estavam paradas foram retomadas, como Abreu e Lima em Pernambuco e o antigo Comperj, hoje Complexo Boaventura, no Rio de Janeiro. Também houve ampliação de refinarias existentes.
O Brasil terá até 2029 uma ampliação de quase 400 mil barris por dia de derivados, principalmente diesel, para reduzir a necessidade de importação. Hoje importamos entre 25% e 30% do diesel consumido. Mesmo com essa ampliação, ainda não será suficiente. Por isso, a FUP defende também o avanço em biocombustíveis e combustíveis sintéticos, com biorrefinarias e refinarias verdes, que podem produzir combustível sem petróleo, usando hidrogênio verde.
HP – Então o país exporta petróleo e importa diesel?
DEYVID – E para piorar, houve a desestruturação da cadeia da Petrobrás, que antes era verticalizada — do poço ao posto.
HP – E a questão da privatização das refinarias? Há necessidade de reestatização para a autossuficiência?
DEYVID – Sem dúvida! Tivemos a privatização de várias refinarias: a de Manaus, a REAM, a Clara Camarão, no Rio Grande do Norte, a da Bahia (RLAM) e a SIX, no Paraná. Há necessidade de reestatização para evitar que regiões fiquem reféns de monopólios privados. Por exemplo, a refinaria de Manaus hoje pratica os preços mais altos do país e, em muitos casos, nem refina mais, importa combustível. Na Bahia, a refinaria foi vendida a um fundo dos Emirados Árabes, que enfrenta dificuldades e pode vender de volta. Há negociação com a Petrobrás.
Além disso, houve a privatização da BR Distribuidora e da Liquigás. Antes, a Petrobrás controlava uma parte grande da distribuição, funcionando como reguladora de preços. Hoje isso não existe mais. Mesmo quando a Petrobrás reduz preços, distribuidoras e postos aumentam margens. Por isso, o presidente Lula defende a reestatização ou o retorno da Petrobrás à distribuição.
HP – A Petrobrás precisa seguir o preço internacional?
DEYVID – Não. Ela não é obrigada a seguir o preço de paridade de importação. Isso foi adotado no governo Temer. Antes, e agora novamente, a política pode ser baseada nos custos internos e numa margem de lucro.
Como a Petrobrás tem produção, refino, transporte e tinha distribuição, ela consegue amortecer variações externas.
HP – Qual o peso da BR Distribuidora nisso?
DEYVID – É decisivo. A privatização criou a Vibra, e há até restrições contratuais para a Petrobrás usar sua própria marca por um período. Isso prejudica o consumidor e a própria Petrobrás, pois o combustível vendido com a marca pode nem ser dela.
HP – Do ponto de vista financeiro, foi um mau negócio?
DEYVID – Foi bom para quem comprou. A Petrobrás perdeu uma fonte importante de receita. O mesmo ocorreu com gasodutos e outros ativos vendidos por valores que depois se mostraram prejudiciais, já que a empresa passou a pagar pelo uso do que antes era seu.
HP – A FUP está fazendo uma mobilização pela reestatização?
DEYVID – Sim. Realizamos nesta terça-feira (25) uma plenária muito representativa reunindo lideranças políticas, sindicais e movimentos sociais em defesa da reestatização da BR Distribuidora, da Liquigás e das refinarias. Com o cenário internacional instável e possível alta do petróleo, o Brasil fica vulnerável, sem controle da cadeia.
Medidas como redução de impostos ajudam, mas não resolvem estruturalmente. O essencial é a Petrobrás voltar à distribuição.
HP – E a questão que está nos assombrando agora, dos fertilizantes?
DEYVID – Também há o problema dos fertilizantes: o Brasil importa cerca de 90%. Isso impacta diretamente a produção de alimentos. Sem produção interna suficiente, há risco de insegurança alimentar.
Energia e fertilizantes são centrais. Por isso, a necessidade de estatização e fortalecimento da Petrobrás nesses setores.
CARLOS PEREIRA











