Pesquisadora presa por desvio de vírus na Unicamp é sócia de startup que produz transgênicos

Casal mantém empresa de vírus transgênicos - Foto: Reprodução/Redes Sociais

PF também investiga marido estadunidense de pesquisadora. “Envie-nos seu transgene que produzimos seu vírus!”, anunciavam nas publicações

A investigação sobre o suposto desvio de amostras virais da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) ganha maior gravidade após a revelação de que a pesquisadora Soledad Palameta Miller, presa no caso, é sócia de uma empresa que atua na área de virologia e oferece serviços de manipulação de vírus, incluindo a produção de organismos transgênicos – uma atividade que exige rigorosos protocolos de biossegurança.

Argentina, a cientista é casada com o norte-americano naturalizado brasileiro Michael Edward Miller, que também é alvo da investigação da Polícia Federal. Ambos mantêm vínculo com a startup voltada a aplicações microbiológicas, o que amplia a atenção das autoridades sobre a possível circulação e uso de material biológico fora dos padrões exigidos.

Docente da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), Soledad e o marido são sócios da Agrotrix, criada em maio de 2025 a partir de um programa de incubação da própria universidade. Instalada em um parque tecnológico no campus, a empresa declara atuar com técnicas de microbiologia voltadas à produção agropecuária. 

Em redes sociais, o casal divulgava serviços relacionados à manipulação de vírus, incluindo a produção de vírus transgênicos – organismos que contêm material genético de outras espécies, – prática que requer padrões rigorosos de segurança biológica. Entre as atividades descritas pela empresa estão estudos de coinfecção viral, que analisam a interação entre diferentes vírus em um mesmo hospedeiro, além de soluções voltadas à melhoria da qualidade da água para suínos.

“Envie-nos seu transgene que produzimos seu vírus!”, anunciavam nas publicações, direcionadas tanto a produtores quanto a outros pesquisadores. O site da Agrotrix está fora do ar, mas os perfis da empresa seguem ativos.

O inquérito teve início após a própria Unicamp comunicar à Polícia Federal o desaparecimento de amostras biológicas do Instituto de Biologia (IB). Entre os materiais estavam vírus influenza dos subtipos H1N1 e H3N2, além de outros vírus de origem humana e suína ainda não detalhados. “A prisão ocorreu no âmbito de inquérito policial instaurado após comunicação da própria instituição sobre o desaparecimento do material. Foram cumpridos dois mandados de busca e apreensão”, informou a PF em nota.

Segundo a corporação, as amostras estavam armazenadas em uma instalação com nível de biossegurança NB3, mas teriam sido retiradas do IB e levadas para laboratórios da FEA que não possuíam o mesmo nível de segurança. O material foi posteriormente localizado e apreendido. A PF afirma que não houve contaminação externa.

Soledad foi presa em flagrante após mandados de busca e apreensão, mas liberada no dia seguinte após audiência de custódia. Ela responderá em liberdade por transporte não autorizado de material geneticamente modificado e fraude processual, acusações que podem envolver risco à saúde pública. O marido não foi preso.

As amostras recolhidas foram encaminhadas ao Ministério da Agricultura e Pecuária, responsável pela análise. A defesa da pesquisadora afirma que não há materialidade nas acusações e sustenta que ela utilizava estruturas do IB por não dispor de laboratório próprio. Não há confirmação, até o momento, de que o caso investigado tenha relação direta com as atividades da empresa.

Em nota, a Unicamp informou que colabora com as investigações, mas não divulgará novos detalhes até a conclusão do caso.  A instituição não detalhou quais patógenos teriam sido supostamente manipulados pela argentina. Ainda assim, seu currículo indica experiência com diferentes microrganismos, como zika, vírus sincicial respiratório, Sars-CoV-2 e, sobretudo, influenza.

Reportagem do G1 em Campinas aponta que as amostras em questão eram dos subtipos H1N1 e H3N2, relacionados à gripe tipo A. Essas variantes também são citadas por Michael em seu LinkedIn como área de atuação em laboratório, em trabalhos conduzidos em ambientes de alta biossegurança.

Soledad Palameta Miller tem 35 anos e trajetória consolidada na área de virologia. Segundo seu currículo na plataforma do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, é doutora em ciências farmacêuticas, com experiência em engenharia de vetores virais, imunomodulação e anticorpos monoclonais. Formada em biotecnologia na Universidade de Rosario, na Argentina, já atuou no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais e, na Unicamp, coordenava um laboratório na área de virologia e biotecnologia em alimentos.

Já Michael Edward Miller é formado em medicina veterinária pela Unip, com mestrado em genética e biologia molecular pela Unicamp, onde também cursa doutorado. Ele estudou nos Estados Unidos antes da graduação e se declara cidadão brasileiro em seu currículo acadêmico.

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