Epidemia de assaltos em São Paulo mostra o total abandono da segurança no governo Tarcísio

Reportagem do Fantástico acompanhou vítimas de assaltos em São Paulo - Foto: Reprodução/TV Globo

A escalada de assaltos a carros e o avanço de redes organizadas de receptação de celulares expõem a sensação crescente de insegurança em São Paulo. Reportagem exibida pelo programa Fantástico, da TV Globo, neste fim de semana trouxe à tona relatos de vítimas, a dinâmica dos crimes e a existência de verdadeiros polos de comércio ilegal de celulares no centro da capital, mostrando o total descontrole na segurança pública sob as gestões do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e do prefeito Ricardo Nunes (MDB).

De acordo com investigadores, aparelhos levados em assaltos seguem, em grande parte, para pontos específicos de receptação na região central. Um prédio voltou a ser citado como um dos principais polos desse comércio ilegal, conhecido informalmente como “ninho do celular roubado”, mesmo dois anos após uma grande operação policial. Foi para esse circuito que acabou indo o celular de Júlia, roubado em plena luz do dia na Baixada do Glicério, a poucos metros de uma base da Polícia Militar.

“Eles arregaçaram o vidro do meu carro e levaram o meu celular. Foi tudo muito rápido”, contou Júlia, ainda abalada. O marido dela, que estava no banco do passageiro, ficou ferido pelos estilhaços. O aparelho era ferramenta essencial de trabalho da família e nunca foi recuperado. Segundo o relato, a orientação policial foi apenas registrar a ocorrência, enquanto os criminosos fugiam por becos da região.

A rotina de medo também se impõe a quem depende das ruas para trabalhar. Motoristas de aplicativo relatam ataques sucessivos e sensação permanente de vulnerabilidade. Xênia teve o carro atingido duas vezes em menos de 24 horas. “Quebraram o vidro da frente num dia e o de trás no outro. Levaram meu celular. Foram mais de R$ 2 mil de prejuízo”, afirmou. Hoje, ela e outros profissionais recorrem a aplicativos de navegação para mapear áreas de risco em tempo real. “Você tem que estar alerta o tempo inteiro”, disse. “Não me sinto segura em lugar nenhum. Só em casa, com meus filhos.”

Apesar de operações recentes anunciadas pela Secretaria de Segurança Pública, com reforço de policiamento em áreas críticas, a sensação nas ruas é de que o problema persiste. Na última ação, a Polícia Militar prendeu 70 pessoas, sendo 46 procuradas pela Justiça, apreendeu mais de 48 kg de drogas, 12 armas e recuperou 53 veículos e 21 celulares. No Brás, um motociclista foi flagrado transportando 14 iPhones escondidos. A operação “Impacto Media Urbs” mobilizou cerca de 2,5 mil policiais e mais de mil viaturas, com atuação do Comando de Policiamento Metropolitano, Choque e Cavalaria.

Ainda assim, a engrenagem criminosa segue ativa. Investigações da Polícia Civil apontam que os ataques são rápidos e padronizados: criminosos identificam veículos parados, quebram o vidro e levam os pertences em segundos, especialmente em vias como a Marginal Tietê. Casos recentes incluem a tentativa de roubo contra o músico Lucas Lima, que sofreu ferimentos leves ao ter o carro atacado, e um casal abordado próximo ao Mercado Municipal.

Especialistas alertam que o crime evoluiu. “Antes, o maior interesse era o lucro obtido com o aparelho celular em si, mas há uma sofisticação do estelionato: as quadrilhas subtraem celulares, fazem o desbloqueio e conseguem aplicar golpes financeiros”, explica o pesquisador Leonardo Silva, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ele destaca ainda a estrutura articulada dessas ações: “Há o tomador do celular, quem repassa o aparelho aos estelionatários, quem repassa os aparelhos para quadrilhas que, por sua vez, revendem para e-commerces”.

O chamado “ninho do celular roubado” simboliza essa cadeia criminosa que começa no trânsito e termina em pontos clandestinos de revenda. Para quem já foi vítima, o impacto vai além da perda material. “Sempre que passo por ali, lembro do que aconteceu”, disse Júlia. “Fica um sentimento de impotência, de ódio. Parece que não tem fim.”

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