Relatório da PF descreve amizade particularmente generosa entre o “vice dos sonhos” de Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, marcada por jatinhos, cartões de crédito, apartamentos, restaurantes estrelados e temporada nos Alpes Franceses
Quando o ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, autorizou nova fase das investigações sobre o caso Banco Master, em maio deste ano, utilizou expressão pouco comum para definir a relação entre o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro: “arranjo funcional e instrumental orientado por benefício mútuo”.Trata-se, pois, de “amizade que vale ouro”.
Traduzindo do juridiquês para o português corrente, a definição sugere que a relação teria ido muito além da simples amizade que ambos costumam invocar publicamente.
As mais de 60 páginas do relatório da Polícia Federal, reveladas pela revista Piauí, apresentam universo em que amizade parece ser conceito bastante elástico.
Ali aparecem pagamentos recorrentes, uso de imóveis, cartões de crédito, viagens internacionais, hospedagens de luxo, restaurantes estrelados, transporte aéreo privado e até movimentações políticas que coincidem curiosamente com interesses do banqueiro.
NEVE, MICHELIN E CONTAS PAGAS
O capítulo mais cinematográfico da história ocorreu em janeiro de 2025, na estação de esqui de Courchevel, um dos destinos preferidos da elite global que considera Mônaco lugar movimentado demais.
Durante 13 dias, Ciro Nogueira e a companheira, Flávia Rosalen, desfrutaram da temporada de inverno francesa ao lado de Vorcaro e da então noiva, Martha Graeff. Segundo a PF, a conta total da viagem alcançou impressionantes R$ 1.849.201.
O senador e a companheira ficaram hospedados em hotel de alto padrão e frequentaram alguns dos restaurantes mais exclusivos da região. Num desses, especializado em carnes, a conta ultrapassou R$ 63 mil. Em outro, dedicado a frutos do mar, passou de R$ 58 mil.
A PF concluiu que todas as despesas foram pagas pelo banqueiro.
Para quem acompanha o cotidiano do trabalhador brasileiro, o valor de um único jantar talvez pareça suficiente para comprar um automóvel popular. Nos Alpes franceses, contudo, tratava-se apenas de mais uma refeição entre amigos.
CARTÃO CORPORATIVO DA AMIZADE
As investigações da PF apontam que a generosidade não se limitava às refeições.
Conversa interceptada pela PF mostra Leo Serrano Giunchetti, operador logístico de Vorcaro nos Estados Unidos, perguntando ao banqueiro se seus funcionários deveriam continuar pagando as despesas de “Ciro/Flavia” até o sábado seguinte.
A resposta foi objetiva: “Sim. Depois leva meu cartão para St. Barths.”
A mensagem reforça informação já conhecida da investigação: o senador teria à disposição cartão de crédito vinculado ao banqueiro para custear despesas pessoais.
A cena ajuda a compreender porque o ministro André Mendonça concluiu que a relação entre ambos extrapolava os “limites habituais da amizade”. Afinal, poucas amizades sobrevivem à inflação brasileira distribuindo cartões de crédito internacionais para gastos gastronômicos em estações de esqui europeias.
CLUBE DOS MUITO BEM RELACIONADOS
A temporada em Courchevel também revelou o círculo de empresários e autoridades que orbitavam o banqueiro.
Em um dos encontros estiveram presentes o empresário José Seripieri Filho, conhecido como Junior, atual controlador da Amil, além de outros empresários de grande porte.
Entre eles estava Alberto Leite, proprietário da FS Security, cuja proximidade com integrantes dos altos escalões da República já havia chamado atenção em outras ocasiões.
O cenário lembra menos reunião casual de amigos e mais um seleto clube onde negócios, influência política e poder econômico compartilham o mesmo vinho.
MESADA, APARTAMENTO E CONVENIÊNCIAS
As investigações também apontam para relação financeira mais constante.
Mensagens analisadas pela PF mostram discussões sobre pagamentos de “300 mil” reais destinados ao grupo ligado à BRGD, empresa da família do senador. Em 3 ocasiões diferentes, familiar de Vorcaro perguntou se os repasses deveriam continuar. A resposta do banqueiro foi afirmativa.
Há ainda o episódio que envolve apartamento pertencente a Vorcaro. Em mensagem enviada ao então banqueiro, Ciro Nogueira informa que precisaria permanecer no imóvel por mais alguns meses até resolver questões pessoais relacionadas à ocupação de sua residência.
Separadamente, cada episódio poderia ser tratado como demonstração de amizade. Reunidos em sequência, formam mosaico que chamou a atenção da PF e do STF.
“EMENDA MASTER” E A COINCIDÊNCIA DAS COINCIDÊNCIAS
O aspecto politicamente mais sensível do caso envolve a atuação parlamentar do senador.
O senador Ciro Nogueira nunca apresentou explicação convincente para a emenda que ampliava de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) para investidores de instituições financeiras.
A proposta beneficiava diretamente o modelo de negócios do Banco Master de forma tão evidente que ganhou nos corredores de Brasília apelido difícil de ignorar: “emenda Master”.
Naturalmente, o senador sustenta que a relação dele com Vorcaro não possui qualquer irregularidade e que episódios como jantares, voos ou uso eventual de equipamentos privados devem ser compreendidos dentro do contexto de amizades pessoais.
O problema para a defesa é que a investigação descreve sucessão de favores cujo valor acumulado alcança cifras milionárias e coincide com iniciativas legislativas favoráveis aos interesses do banqueiro.
Foi justamente esse conjunto de elementos — e não fotografia na neve ou jantar estrelado — que levou o STF e a PF a enxergarem algo mais complexo do que “simples amizade”.
Porque, convenhamos, amizades costumam render boas lembranças. Mas poucas dessas rendem férias de quase R$ 2 milhões, cartão de crédito internacional, apartamento emprestado e emenda legislativa com o nome informal do amigo homenageado, prestigiado e beneficiado.











