Pesquisa da Universidade de Buenos Aires revelou que, entre novembro de 2023 e fevereiro de 2026, o poder de compra foi achatado, enquanto houve um “declínio consecutivo no emprego formal registrado durante oito meses”: trabalhadores perdem 300 mil empregos
Sondagem realizada pela Universidade de San Andrés apurou que apenas 33% dos argentinos estão satisfeitos com a situação do país, uma queda de 7% em relação a novembro passado. De acordo com esta pesquisa, 59% afirmaram que o desaprovam o governo Milei.
Outra pesquisa, feita pela empresa de consultoria Hugo Haime e Associados, estampa números ainda mais adversos para a Casa Rosada: 61% de imagem negativa para o presidente, com 64% dos entrevistados considerando o governo culpado pelo agravamento da crise.
O poder de compra do salário mínimo caiu 38% na Argentina entre novembro de 2023 e fevereiro de 2026, enquanto houve um declínio consecutivo no emprego formal registrado durante oito meses, até dezembro de 2025, chegando a cerca de 300 mil trabalhadores, aponta o Instituto Interdisciplinar de Economia Política (IIEP) da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Buenos Aires (UBA).
O poder aquisitivo em queda livre reduz a geração de emprego, entrando em um ciclo recessivo que empurra o mínimo para níveis inferiores aos registrados na crise de 2001. O fato do salário mínimo ter sofrido cortes sucessivos em seu poder de compra fez com que a disparidade aumentasse particularmente em setembro e outubro de 2025, quando estagnou em US$ 322.2 diante da rápida alta dos preços.
Em comparação com novembro de 2023, a perda chega a 289.000 postos de trabalho (-2,8%), com a contração afetandou 14 das 23 províncias (estados), sendo San Luis (-0,9%), Chaco e Catamarca (-0,7% em ambos os casos) as que apresentaram proporcionalmente as maiores quedas.
QUEDA ABRUPTA DOS SALÁRIOS COM A POSSE DE MILEI
Com a posse de Milei em dezembro de 2023 teve início um período de queda abrupta nos salários reais, com uma contração inicial de 15% devido à aceleração da inflação e outra queda de 17% em janeiro de 2024. “Em todos esses meses, os aumentos do salário mínimo nominal foram inferiores à variação dos preços”, enfatizou o estudo, de autoria dos pesquisadores Roxana Maurizio e Luis Beccaria.
“O efeito cumulativo da crise de preços e da queda nos rendimentos fez com que o salário mínimo real em fevereiro de 2026 atingisse um nível inferior ao alcançado antes do colapso da conversibilidade, há 25 anos”, constata a Infobae. Essa situação é agravada por uma erosão de 65% em comparação com o valor máximo registrado em setembro de 2011, o que fez com que a renda mínima no mês passado represente pouco mais de um terço do valor alcançado no fundo do poço.
Segundo dados do Sistema Integrado de Pensões da Argentina (SIPA), em dezembro de 2025, aproximadamente dez milhões de trabalhadores formais estavam registrados na previdência social, abrangendo os setores público e privado, bem como o trabalho doméstico. De fato, bem distante do discurso de “recuperação econômica” propagandeado pelos grandes meios de comunicação e pelo governo, o número de trabalhadores formais se manteve em níveis semelhantes aos de junho de 2022, uma verdadeira tragédia.
As províncias de Buenos Aires e Córdoba foram responsáveis por 57% e 18%, respectivamente, da variação negativa no emprego formal no setor privado, bem acima de seu peso relativo na estrutura do setor (31,5% e 8,4%).
Os dados coletados contradizem o relatório do Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) – controlado pelo governo – que divulgou esta semana que a pobreza entre a população urbana da Argentina caiu para o menor nível desde 2018, ficando em 28,2% no segundo semestre de 2025, uma queda de 3,4 pontos percentuais em comparação com o índice registrado no primeiro semestre do ano passado. Pelo levantamento oficial, o índice de extrema pobreza ficou em 6,3% no segundo semestre de 2025, 0,6% menor do que o registrado nos seis meses anteriores.
Teoricamente feito com base no padrão de vida dos 31 centros urbanos mais populosos do país, que abrange 30 milhões de pessoas, de uma população total de aproximadamente 46,4 milhões, o relatório do Indec representa a negação não só da pesquisa da Universidade de Buenos Aires, mas do caos em que o país se vê mergulhado com a política neoliberal.
“INDICADORES DE CONSUMO DE MASSA SE ENCONTRAM EM MÍNIMAS HISTÓRICAS”
Sobre a medição da pobreza, o Instituto de Estudos e Formação da Central de Trabalhadores Autônoma (CTA-A) esclareceu que “embora o Indec tenha relatado uma redução significativa na pobreza, os indicadores de consumo de massa pesquisados pela mesma agência estão em mínimas históricas: em janeiro de 2026, as vendas em supermercados caíram 11,3% e as vendas no atacado 18,7% em comparação com novembro de 2023”. “Por outro lado, destaca-se o aumento do uso de cartões de crédito para compras em supermercados, que passou de 37,7% no segundo semestre de 2023 para 44,4% no mesmo período de 2025”, asseverou.
Também vale assinalar, esclarece o Instituto da CTA, que a pobreza monetária considera a renda mensal, mas não leva em conta as variações no patrimônio líquido: “Nesse sentido, é importante considerar que, durante o governo Milei, houve um aumento no uso de poupança e crédito como meios de subsistência”.
“AUMENTO ACELERADO DO ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS”
“Nesse contexto, diversas fontes já apontaram para o aumento acelerado do endividamento das famílias ocorrido em 2025, que não só atingiu níveis recordes, como também apresentou uma tendência regressiva, visto que a inadimplência é consideravelmente maior para pequenos empréstimos e para aqueles obtidos por meio de carteiras digitais, associadas a estratégias de financiamento utilizadas por grupos de baixa renda”, destacou o Instituto de Estudos e Formação da CYA.
Os pesquisadores da Universidade de Buenos Aires complementam que o declínio generalizado do emprego formal, a dispersão territorial das perdas de emprego e a deterioração histórica do salário mínimo resumem o atual cenário do mercado de trabalho argentino.
DESGOVERNO NO MUNDO DA LUA
Sem qualquer constrangimento, o ministro da Economia, Luis Caputo, disse que “a acentuada redução da pobreza e da pobreza extrema se deve ao crescimento econômico, ao processo de desinflação e ao fortalecimento dos programas sociais sem intermediários desde o início do governo”. Tudo conversa fiada.
O Ministério do Capital Humano também se somou à farsa dizendo que a hipotética “queda da pobreza” reflete a implementação de “políticas econômicas que contribuíram para reduzir a inflação e estabilizar a economia”, além de outras ações da pasta, que nada mais foram do que cortes acentuados nos programas sociais.
“A pobreza continua diminuindo. É fato, não narrativa”, desvairou Milei, concluindo uma nota na internet com “MAGA”, em referência ao slogan de Donald Trump, “Make America Great Again”, adaptado pelo “mais sionista dos presidentes” à Argentina.











