Sequestrado e trancafiado, desde 2025, em uma cela sem as mínimas condições de sobrevivência, ex-mandatário denuncia “tortura psicológica” e “violação do devido processo legal, da presunção de inocência e do direito à defesa” por parte do governo que se submete a Washington
O ex-presidente da Bolívia, Luis Arce (2020-2025), denunciou que é um “preso político” do governo ultradireitista de Rodrigo Paz, que desde dezembro do ano passado o vem submetendo a um “sequestro à margem da lei” no presídio de São Pedro, o principal de La Paz.
Conforme o ex-dirigente do Movimento Ao Socialismo (MAS), tanto o desgoverno neoliberal como o sistema judiciário alinhados com Washington estão visivelmente empenhados em provocar sua “morte civil e política” ao violarem direitos pessoais e constitucionais.
O relato veio a público por meio de um manuscrito no dia 31 de março e divulgado aos bolivianos na última segunda-feira (6), em documento que explicita os inúmeros atropelos cometidos contra a legalidade.
“Graves violações de direitos humanos foram cometidas contra mim, em um contexto que compromete não apenas minha integridade pessoal, mas também a força do Estado de Direito e as garantias constitucionais”, ressaltou o ex-presidente.
“FUI PRIVADO DA LIBERDADE SEM MANDADO DE PRISÃO”
As declarações de Arce apontam para “tortura psicológica” e “violação do devido processo legal, da presunção de inocência e do direito à defesa, bem como das garantias de imparcialidade e segurança jurídica”. “Fui privado da minha liberdade em 10 de dezembro de 2025, sem mandado de prisão, em um ato arbitrário que só pode ser descrito como um sequestro ilegal”, reiterou.
De acordo com o ex-chefe de Estado, “agora, no âmbito do processo legal instaurado contra mim pelo governo Rodrigo Paz, todos os pedidos apresentados pela minha defesa foram rejeitados, incluindo o recente pedido para realizar exames médicos com um cardiologista, o que põe em risco minha saúde e integridade física e viola meus direitos”.
Desde sua prisão, Arce relatou que, nos primeiros dias de detenção, foi mantido “em uma cela que não possuía nem mesmo as condições mínimas de sobrevivência”.
Sem qualquer sustentação legal, Arce é investigado por estar envolvido numa suposta “corrupção” no caso conhecido como Fundo Indígena, referente ao período em que atuou como ministro da Economia entre 2006 e 2017, durante a presidência de Evo Morales (2006-2019), anos em que o país ostentou os mais altos índices de crescimento produtivo, de salário e emprego na América Latina.
OPERAÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO VISA INTIMIDAR E PERSEGUIR OPOSITORES
A carta também acusa o governo direitista de uma operação de busca e apreensão em sua residência com o objetivo ostensivo de intimidar e perseguir lideranças da oposição.
Entre outros abusos, Arce disse que é constantemente fotografado e filmado no pátio da prisão enquanto pratica esportes ou recebe visitas, o que considera “tortura psicológica”. “Não roubei, não menti, não matei. O que eles estão fazendo é vingança. Exijo respeito ao devido processo legal, sem pressão política ou ordens do governo”, acrescentou.
O ex-presidente Luis Arce deixou formalmente o Poder Executivo boliviano em 8 de novembro, quando o serviçal de Trump tomou posse como novo chefe de Estado do Estado Plurinacional da Bolívia, marcando o fim de quase duas décadas de governos progressistas liderados pelo MAS.
Na contramão da linha democrática e nacionalista, Rodrigo Paz participou recentemente do lançamento do “Escudo das Américas”, iniciativa geopolítica da Casa Branca para minar a integração regional e conter a aproximação comercial da região com a China.











