A 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL) levou cerca de 8 mil indígenas de diferentes povos a Brasília nesta quinta-feira (9), em uma grande marcha pela demarcação de terras, sob o lema “Demarca, Lula: Brasil soberano é terra indígena demarcada e protegida”. O ato percorreu a Esplanada dos Ministérios até o Congresso Nacional e marcou um dos momentos centrais da mobilização, que teve início no dia 4 de abril e segue até o dia 11, reunindo lideranças de todo o país em defesa de direitos territoriais, ambientais e sociais.
A marcha integra uma programação intensa de debates, plenárias e articulações políticas que transformam a capital federal no principal centro da mobilização indígena no país. Desde o início do ATL, os povos originários têm denunciado a ofensiva de parlamentares ligados ao bolsonarismo e a interesses do agronegócio, que avançam com propostas como a retomada do marco temporal e iniciativas que abrem espaço para mineração e exploração econômica em terras indígenas.
Durante o ato, lideranças reforçaram que a demarcação de terras é condição fundamental para a sobrevivência física e cultural dos povos. “A demarcação de terra para nós é muito importante, é por isso que nós estamos aqui reivindicando os nossos direitos como originários dessa terra, povos originários dessa terra. Pedimos ao presidente Lula que dê um olhar um pouquinho mais com atenção, porque precisamos que os nossos territórios sejam demarcados”, afirmou Lilian Eloy, do povo Terena.
A mobilização também foi marcada por denúncias de conflitos territoriais e violações de direitos. Representantes de diferentes regiões relataram ameaças decorrentes de grandes empreendimentos e da ausência de reconhecimento oficial de seus territórios. “O nosso território está há 13 anos nessa peleja por demarcação de terra. A gente espera que o presidente possa estar ouvindo a gente”, declarou Eladio Tupayu, do Território Encantado, no Baixo Tapajós.
Ele também destacou as dificuldades enfrentadas para acessar autoridades e garantir que suas demandas sejam ouvidas: “Viemos para o diálogo, mas só que não está tendo diálogo bom com a gente. Nós viemos reivindicar, mostrar nossa situação, e não apenas sermos impedidos de entrar ou exercer nossos direitos”, completou.”
No Cerrado, o cacique José Maria, do povo Xavante, alertou para os impactos de projetos de infraestrutura sobre os territórios indígenas: “O Cerrado é o ponto da vida, não ameaça ninguém, mas está sendo prejudicado pelas construções. As áreas indígenas Xavante estão sendo atingidas e não sei qual é o interesse, porque o interesse de exploração não é para o bem do Brasil”.
A liderança Xavante também reforçou o caráter de resistência da mobilização: “O povo Xavante está pronto, está vivo, pronto para defender o Cerrado. A terra sempre teve dono, que somos nós, mas com humildade recebemos quem chegou no passado. Hoje, porém, somos humilhados e discriminados pelos brancos. Isso é para vivermos com dignidade e dar um basta às violações dos nossos direitos”.
Outro momento importante do ATL foi a entrega de uma carta da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) ao Poder Executivo, protocolada no Ministério de Minas e Energia e na Secretaria-Geral da Presidência. No documento, o movimento indígena reconhece avanços institucionais do atual governo, mas cobra medidas concretas e urgentes para a proteção dos territórios. A carta destaca que “o atual governo também foi construído com apoio, presença, incidência e aposta política do movimento indígena”, mas aponta que os avanços “ainda não respondem à urgência histórica nem à dívida do Estado brasileiro com os nossos povos”.
O texto também denuncia o aumento de invasões, violência e criminalização de lideranças, e cobra maior atuação do Estado diante das pressões políticas contrárias aos direitos indígenas. Para a Apib, a demarcação de terras deve ser tratada como prioridade estratégica, inclusive no enfrentamento da crise climática.
Desde o início do acampamento, no dia 4, diversas atividades reforçam essa agenda. No dia 6, a plenária “Memória, Verdade e Justiça para os Povos Indígenas” debateu a violência histórica e propôs a criação de uma comissão nacional indígena da verdade. Já no dia 7, milhares de indígenas participaram da marcha “Congresso inimigo dos povos: nosso futuro não está à venda”, denunciando projetos legislativos que ameaçam direitos constitucionais. No dia 8, a plenária “Do território tradicional ao cenário global” discutiu a articulação internacional do movimento.
A mobilização também tem sido marcada por homenagens a lideranças indígenas assassinadas em conflitos fundiários, reforçando o caráter simbólico e político da luta. Faixas, pinturas corporais e cantos tradicionais tomaram a Esplanada, com mensagens como “Nosso território não está à venda” e “Marco temporal não”.
Além da marcha desta quinta-feira (9), a programação inclui a plenária “Campanha Indígena: a resposta para transformar a política somos nós”, voltada à ampliação da participação indígena nas eleições de 2026. O encerramento do ATL, no dia 10, contará com a leitura de um documento político com as principais reivindicações, consolidando as pautas debatidas ao longo da semana. No dia 11, as delegações retornam aos seus territórios.
Ao longo de toda a mobilização, as lideranças reforçam que a luta pela demarcação de terras está diretamente ligada à proteção ambiental, à justiça climática e à garantia de direitos históricos, em um cenário ainda marcado por conflitos, disputas territoriais e pressões políticas contrárias aos povos originários.











