Deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) classificou a autorização da comissão para eles irem aos EUA como “escândalo” e “vergonha histórica”
A mais recente decisão da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado brasileiro – dominada por bolsonaristas e assemelhados – poderia passar pela rotina institucional. Não fosse o enredo já conhecido.
Sob o pretexto pouco disfarçado de “acompanhar a situação de brasileiros detidos” nos Estados Unidos, grupo de senadores alinhados ao bolsonarismo aprovou o envio de comitiva oficial ao país.
No roteiro: Orlando e Washington. No pano de fundo: o caso do ex-deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ), condenado e cassado por efetiva participação na trama golpista.
A reação veio rápida. O deputado Lindbergh Farias classificou a iniciativa como desvio de finalidade travestido de missão institucional. Em termos menos diplomáticos, denunciou o que considera uso indevido de dinheiro público para fins políticos bastante específicos.
“O dinheiro público não pode financiar lobby internacional de impunidade”, afirmou, apontando o que vê como tentativa de blindagem a aliados.
A crítica ganha peso quando se observa a seletividade da diligência. Afinal, brasileiros detidos no exterior não são exatamente novidade. Tampouco raridade. Mas raramente mobilizam comitivas parlamentares internacionais. O súbito “zelo humanitário”, neste caso, parece ter endereço certo e nome conhecido. Coincidência, ao que tudo indica, não é o forte dessa agenda.
MISSÃO CONVENIENTE
O requerimento que autorizou a viagem é de autoria do senador Jorge Seif (PL-SC), que sustenta tratar-se de suposta prerrogativa legítima do Legislativo: fiscalizar a atuação do Itamaraty e do Ministério da Justiça na assistência a brasileiros no exterior.
Na prática, porém, o argumento encontra dificuldades quando confrontado com a oportunidade — ou a falta desta — em outros casos semelhantes.
A inclusão destacada de Ramagem no escopo da missão não passou despercebida. O ex-deputado, figura central em investigações sensíveis no Brasil, deixou recentemente o centro de detenção em Orlando.
O timing da viagem, portanto, levanta mais perguntas do que respostas: especialmente sobre o real interesse público envolvido.
DINHEIRO PÚBLICO, CAUSA PRIVADA
O ponto mais sensível — e talvez o mais incômodo — diz respeito ao financiamento da empreitada. Em cenário de restrições orçamentárias e demandas sociais urgentes, a decisão de custear viagem internacional com contornos tão específicos soa, no mínimo, um escândalo.
Para críticos, trata-se de inversão de prioridades: recursos públicos mobilizados não para políticas amplas ou fiscalização estrutural, mas para atuação que, na prática, parece direcionada a caso individual com forte carga política.
A ironia é inevitável, sobretudo quando os mesmos setores costumam advogar austeridade fiscal com fervor seletivo.
FISCALIZAÇÃO OU ENCENAÇÃO?
A narrativa oficial fala em verificação de condições de custódia e assistência consular. A leitura crítica, no entanto, sugere algo mais performático: espécie de diplomacia paralela, com tintas ideológicas e finalidade questionável.
Ao elevar o tom, Lindbergh classificou a autorização como “escândalo” e “vergonha histórica”. O episódio expõe não apenas disputa política, mas padrão: o uso das instituições para fins que orbitam interesses de grupo, não necessariamente o interesse público.
No fim, resta a pergunta que a viagem não responde: trata-se de missão de Estado ou de gesto de conveniência política financiado pelo contribuinte? A depender da resposta, o roteiro pode até incluir Washington. Mas o destino real parece ser outro.
E essa gente quer voltar a dirigir o país… Para tratá-lo como seu e afundá-lo.











